GIBA BYBLOS: TOMORROW

02 setembro, 2015
O guitarrista Giba Byblos apresenta seu segundo álbum, Tomorrow, um retrato de histórias reais e fictícias, compiladas em 10 composições. Um convidado muito ilustre está presente neste trabalho, o bluesman Jimmy Johnson, uma lenda que, aos 83 anos, ainda respira e transpira Blues com muita intensidade. Jimmy participa na guitarra na faixa "Heap See", e é mais que um convidado, foi a inspiração para Giba desenvolver este trabalho. Para ele Giba dedicou o tema título, cuja idéia deu-se em um momento de ansiedade quando Giba estava ao volante do carro com Jimmy na carona, e o mestre afirmou categórico - "Ontem veio e se foi, o amanhã é desconhecido"; assim Giba descreve nas linhas no belo encarte do álbum.
Ainda em destaque no repertório, composições clássicas de Junior Kimbrough em "Lord Have Mercy on Me" e Freddie King em "She Put the Whammy on Me"; apresenta dois temas em parceria com Homesick Hanes "Up for No Good" e "Wrong Place, Wrong Time"; e um tema instrumental, "Catch You on the Flipside" em reverência a uma gíria de Chicago que significa "nos vemos em breve".

O álbum é um lançamento Chico Blues Records e teve a produção de Edu Gomes, arte gráfica de Dayuk Martins e fotografia de Alex Drobnick.


Giba Byblos nos conta um pouco sobre o trabalho -

GC: Tomorrow retrata sua experiência de vida. O Blues é o motor dessa trajetória?
GB: Sim. Eu encaro o Blues como puro sentimento e Tomorrow é como uma "redenção" musicada. A idéia partiu do Jimmy Johnson, e a medida que a composição ia avançando eu submetia ao crivo do mestre.

GC: Neste trabalho tem mais composições autorais, sempre em língua inglesa. Como se dá o seu processo de criação?
GB: O Jimmy Johnson também me disse que nem sempre uma letra precisava ser verdadeira, outras nem tanto, outras sim. Sendo assim, usufruí dessa liberdade sempre atentando para o bom senso. O processo de criação foi o mais variado possível. Por exemplo, "Riverside" conta o trajeto que eu fiz com o Fabio Basili, Mauricio Sahady e Christiano Crochemore (os dois primeiros participam do CD), que desde adolescente sonhava em conhecer o Riverside Hotel, em Clarksdale, e em 2013 isso finalmente rolou.

GC: Uma honra ter Jimmy Johnson ao seu lado. Como surgiu a participação dele no álbum?
GB: Eu não planejava convidar o Jimmy Johnson para participar. Sei lá, pode parecer bobeira minha, não queria incomodar o bluesman além do já estava fazendo em relação à composição da Tomorrow. Em dezembro de 2014, produzi uma segunda turnê dele aqui no Brasil e ele me perguntou se eu não ia convidá-lo a participar do CD. Não tive como recusar; o solo e a base da "Heap See" são dele.
Tomorrow é dedicado a ele.

GC: Fale um pouco sobre como se formou o grupo para esta sessão.
GB: A banda base é a que me acompanha há algum tempo, faça sol ou faça chuva - Paulinho Sorriso na bateria, Dado Tristão no piano e trombone, e o Fábio Basili no contrabaixo; nos metais, além do Dado, estão presentes o Clayton Silva no trombone e o Miquéias Nascimento no trompete. O meu irmão Adriano Grineberg fez o hammond; e também tem a guitarra solo do Mauricio Sahady. A produção só poderia ser do Edu Gomes, que também fez os shakers e pandeirola.

GC: Que equipamentos usou em Tomorrow?
GB: Todos os solos são com uma Gibson ES 355 1978, cabo George L's e um amp Fender Deluxe Reverb 1978.
Para as bases, o mesmo amp; onde há Phaser é um MXR Script e as guitas são Gibson ES 325, ES 333, ES 335 e Flying V. Usei overdrive manual e amp com volume variando entre 8 e 10, e o falante é um Eminence Canis Major de alnico.

"Catch You on the Flipside", Giba Byblos; e Sucesso.



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Lowdown Boogie

UM POUQUINHO DO QUE ROLOU NO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2015

25 agosto, 2015
Não há crise que supere o poder da música, e foi sobre essa magia que aconteceu a décima terceira edição do Festival de Rio das Ostras, entre os dias 20 e 23 de agosto. Apesar da diminuição da grade de atrações, mas nem por isso menos interessante, o festival comprovou porquê é um dos maiores e melhores festivais desse país.
Não pude curtir a note de abertura do festival, mas me restaram outras duas noite de absoluta intensidade de acordes e vibrações musicais que, como sempre, me reservaram algumas surpresas.

Omar Hakim Experience

O festival começou pra mim com o som do grande baterista Omar Hakim e seu grupo Experience, acompanhado por uma super banda formada pela sua esposa e tecladista Rachel Z,  o irrevente Scott Tibbs também nos teclados, o sax de Bob Franceschini, o baixista elétrico Jerry Brooks e o guitarrista Nic Moroch. Brooks e Nic já estiveram em edições passadas, o primeiro ao lado do trompetista Michael Stewart e o segundo na edição dos 10 anos do festival ao lado de David Sanborn. Omar desfilou muita técnica, fez uso de vocalizes e deu muito espaço para os integrantes do grupo, explorando bastaste os teclados de Scott e os belos improvisos de Nic Moroth; além de Franceschini, a frente do grupo, alternando entre o tenor e flauta. Passagens bem contemporâneas, progressivas, e em destaque o repertório do álbum "We are One" com os temas "Remember to Remember", "Transmigration", "With Every Breath" e "Walk the Walk".

A noite seguiu e ficou mais intensa com a voz e guitarra da texana Carolyn Wonderland. A ruiva é simplesmente espetacular, cresce ao vivo, e com seus cabelos de fogo incendiou a platéia com sua postura às vezes teatral, às vezes dramática, e pulsando uma energia fora do comum. Ela estava realmente feliz em estar no palco, na formação de organ trio formado por Kevin Lance na bateria e Cole El-Saleh nos teclados, fazendo o baixo num pequeno e simples teclado conectado a um vintage Alexis NanoBass.
Que apresentação desta moça, uma voz rasgada e o estilo fingerstyle de tocar guitarra, uma bela Telecaster Thinline. Alternou com um Lap-Steel em algumas composições e fez um repertório que não escondeu reverência a Blind Willie Johnson e B.B.King, e muito Blues. A sensação do festival.

Carolyn Wonderland

Fechando o palco principal, a nova identidade do Blues nacional, o guitarrista Artur Menezes, acompanhado por Nino Nascimento no baixo elétrico, Mateus Schanoski no hammond e Wladimir Catunda na bateria. No repertório, seu recente álbum "Drive Me". Um privilégio para Artur estar pela segunda vez no festival e fechando a noite no palco principal. Manteve muita interação com o público e, na melhor tradição, foi tocar junto com a galera.

Sábado de tarde parti para o palco de Iriri em dose dupla - novamente a apresentação de Artur Menezes, aqui com uma canja da gaita de Jefferson Gonçalves; e o guitarrista inglês Matt Schofield, este que eu queria muito assistir pois perdi sua apresentação noite de abertura, mas foi a oportunidade de conferir no palco mais fervoroso do festival. Matt em formação de organ trio, ao lado de Jonny Henderson no hammond B3 e Kevin Hayes na bateria. Sua primeira apresentação em palcos brasileiros e, eu, fã de carteira do inglês, assisti quase que anestesiado ao lado do palco uma performance impecável, com direito a um slow blues quase que lisérgico, levadas funkeadas e muita pegada na sua guitarra modelo strato SVL.

Gabriel Grossi e Arismar do Espirito Santo
A noite de sábado começou com estilo. A harmônica de Gabriel Grossi coloca, sem dúvida, a música instrumental brasileira em um nível de excelência ímpar. Grossi estava acompanhado por Bruno Aguilar no baixo elétrico, Caio Marcio no belo violão do luthier Ricardo Amantea e Cassius Theperson na bateria; e um convidado muito especial - o gigante Arismar do Espírito Santo. A abertura foi com "Dama de Ouro", tema do acordeonista Bebe Kramer, com quem Gabriel gravou o álbum "Realejo"; seguiu com "Ruidos Urbanos" em um improviso estonteante de Gabriel e espaço para Caio, Bruno e Cassius. Homenageou as Minas Gerais com "Forrozinho Seus"; e em uma mistura de ritmos e tendências, lembrou Hermeto em "Suite Norte Sul Leste Oeste". Fez analogia ao jargão "Toca Raul", citando o 'Seixas' e o 'de Souza', e, num prelúdio solo, citou Trenzinho Caipira de Villa-Lobos de forma magnífica. Foi a hora de chamar ao palco Arismar, que abraçou uma bela Ibanez GB10 e atacou de "Cadê a Marreca", "Chutando o Côco", e uma reverência a Gil e Dominguinhos na belíssima "Lamento Sertanejo", e com muito groove. Uma apresentação emocionante.

Outro grande nome desta edição, Robben Ford subiu ao palco em formação de power trio ao lado do baixista Brian Allen e  do baterista Wes Little. Um setup matador, envenenado por um amp Dumble e caixa Mesa Boogie com um som realmente impecável. Alternando com as guitarras SG e Telecaster, explorou o repertório de seu álbum “Into the Sun” e homenageou dois outros gigantes do Blues – Freddie King com “Cannonball “Shuffle” e B.B.King com “Indianola”. Muito espaço para Brian, que fez um solo absurdo ao lado de Wes, momento em que o líder retirou-se do palco deixando ambos em total liberdade. Um gigante, sempre com muito calor em suas apresentações ao vivo.

Robben Ford

Depois da intensa apresentação de Ford, sobe ao palco o Incognito, um dos meus grupos favoritos dos anos 90.
Liderado pelo guitarrista Paul 'Bluey' Maunick, mostrou um repertório com muito balanço nas vozes de Tony Momrelle, Vanessa Haynes e Katie Leone e uma super seção de metais, Foi a oportunidade de reviver os álbuns "Positivity", "Tribes, Vibes and Scribes" e "Inside Life" nos temas "Colibri", "Talkin Loud", "Still a Friend of Mine" e "Always There", além dos clássicos de Stevie Wonder "Star Up in the Sky" e "Don´t Worry About a Thing", e "Brazilian Love Affair" de George Duke. Tem que destacar a parte da improvisação em duo do baterista Francesco Mendolia e do percussionista João Caetano.

Não fiquei para o show do Dwayne Dopsie; mas quem lá esteve afirmou que a festa continuou com muita intensidade. E assim, já esperamos uma próxima edição.

DRIVE ME

09 agosto, 2015
Artur Menezes é, sem dúvida,  um dos grandes nomes que surgiram na guitarra Blues nacional. Com o lançamento de seu terceiro álbum, Drive Me, se consolida como mais que um grande guitarrista, mostrando que a veia de composição está muito viva.
Drive Me traz 9 temas, 8 deles autorais e cantados em inglês, e 1 interpretação do tema "Cartão Postal", resgate do original composto por Rita Lee em um dos álbuns mais fantásticos do Rock Brasil - Tutti Fruti (1975).

Um super time está ao seu lado neste trabalho - Wladimir Catunda na bateria e Nino Nascimento no baixo, os convidados muito especiais Jefferson Gonçalves na gaita e Adriano Grineberg no hammond e piano elétrico, as vozes de Eloiza Paixão e Estela Paixão, e os metais de Paulo Malheiros no trombone, Sidmar Vieira no trompete e Luiz Neto no sax tenor.

Artur Menezes

Um imponente Chevrolet Impala sessentão ilustra a capa do álbum, e é o ronco dos motores que abre o repertório com o tema título em um Country-Rock contagiante. Mantendo a pressão, "I Have Screwed Up" coloca balanço cadenciado na forma Blues; e a pegada Rock se faz presente em "Bitterness", todas com intensos improvisos.
A balada "Getting Cold" ganha um ar Soul com a adição dos metais, e não diferente desse clima está "More Than You Know", ambas com desenhos de solos interessantes e um registro mais clean da guitarra.
Os metais também se mostram pontuais para a funkeada "Too Soon"; e dois temas instrumentais - "Novos Ares" e "Nosso Shuffle", esta com aquela atmosfera Texas Blues.
Fechando o álbum, o único tema cantado em português, "Cartão Postal", em duo acústico com a harmônica de Jefferson Gonçalves.

Com a palavra, Artur Menezes -

GC: "Drive Me" é mais um passo importante na sua carreira. Como deu-se a ideia desse trabalho? 
AM: É o meu terceiro disco solo. Estou muito feliz com o reconhecimento, pois o disco está maravilhoso e o público e crítica estão gostando bastante. A ideia foi a de seguir naturalmente nessa onda de fazer um Blues moderno misturando com vários outros estilos que gosto, como Funk, Soul, Rock e Country.

GC:  Talento e criatividade o levaram a representar boas marcas de instrumentos; e tem um pedal de efeito "drive" com seu nome. É importante essa parceria entre fabricante e músico? 
AM: Sim, é bem importante, mas não é essencial. Mas é interessante ter o nome vinculado a grandes marcas. Traz uma espécie de selo de qualidade e reconhecimento pelo trabalho. A parceria mais recente que fechei foi com a Suhr Guitars, uma das melhores guitarras no mundo, realmente um instrumento excepcional.

GC: Filho de cantora, Lucia Menezes, influência musical que vem de berço. Assim sendo, a música sempre foi regra em casa, certo? O que Artur Menezes sempre ouviu e, hoje, gosta de ouvir? 
AM: Isso. Desde criança vivo neste ambiente musical. O que eu costumo ouvir varia bastante, depende do momento. Às vezes descubro um artista que me emociona e então fico um bom tempo escutando e estudando sua obra. Um cara que venho escutando bastante ultimamente é o guitarrista Matt Schofield. O mais bacana é que o meu segundo show no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival este ano vai ser antes do show do Matt.

Artur Menezes

GC:  Você partiu cedo para vivenciar a Música nos EUA, em Chicago, terra de tradição do Blues. O quão importante foi essa experiência na sua formação como músico? 
AM: Foi legal beber o Blues direto da fonte. Ao vivo, a música bate mais forte, entra por osmose, então peguei bastante do estilo ouvindo e tocando junto, essas coisas. Mas o mais importante nesta experiência foi ver que lá na terra do Blues os artistas mais velhos e tradicionais estavam mesclando o Blues com outros estilos como Hip-hop, Funk e Soul, e isso me deu o estalo pra poder fazer um Blues sem amarras e sem estar preso em fórmula ou figurino. Pensei - "Poxa, se aqui no EUA, terra do Blues, muitos artistas, até da velha guarda, não estão com essa obrigação de serem tradicionais, por que eu, cearense, brasileiro, teria que ser?"

GC: Você vem conquistando seu espaço com um trabalho de muita qualidade, e recentemente levou seu som em turnê pela Europa e México. O mundo respira Blues? 
AM:  Acredito que sempre vai. O Blues nunca vai morrer, é uma música muito forte e cheia de sentimento. Costumo dizer que existem dois tipos de pessoas - as que gostam de Blues e as que não o conhecem. Quem conhece passa a gostar. O que acontece é que o estilo não recebe a atenção e reconhecimento merecido da grande mídia, mas tenho certeza que isso vai mudar.

GC: Duas faixas instrumentais em "Drive Me". Podemos esperar um trabalho nessa linha no futuro? 
AM:  Não tenho muita vontade de fazer um disco todo instrumental. O que noto é que um trabalho todo instrumental é muito apreciado por músicos e por um público mais restrito. A canção é mais acessível e conquista mais gente.

Obrigado Artur Menezes, e Sucesso.



Arte da capa do álbum é de Pedro Grangeiro e fotografia de Ana Lu Grosso.
Artur Menezes é endorser da Suhr Guitars, Fire Custom Pedals e Santo Angelo Cables.

ARI BORGER AO VIVO E EM CORES

19 julho, 2015
Live at Cincy Blues Fest é um marco na carreira do pianista e organista Ari Borger.
O álbum, lançado em formato CD-DVD pela Chico Blues Records, tem o registro da apresentação ao vivo no festival que se realiza anualmente no verão da cidade de Cincinati, Ohio, no Sawyer Point Park, nas margens do rio. São vários palcos distribuídos pelo parque, e um deles foi o cenário para Ari Borger mostrar o seu trabalho - Arches Boogie Woogie Piano Stage, que também é palco do prêmio International Boogie Woogie Hall of Fame.

Ari Borger Live at Cincy Blues Fest

Muitos convidados participam nas 9 faixas do CD - as vozes ficaram na responsabilidade de J.J. Jackson em "Baby Won´t You Jump Me" (Lowell Fullson) e Wallace Coleman, que também tocou harmônica, em "Men Red Spider" (Muddy Waters) e "Bricks on my Pillow" (Robert Nighthawk), estas com a seção rítmica da Igor Prado Band, com Igor Prado na guitarra, Rodrigo Mantovani no baixo e Yuri Prado na bateria.
Nas demais faixas a cozinha contou com George Bedard na guitarra, Chris Douglas no contrabaixo e Johnny Vidacovich na bateria; e Ari Borger alternou ao piano e hammond, este que mostra a força na pegada funky de "Funky B", tema autoral em que sobra muito groove; em "Blues Feeling", um slow Blues no melhor estilo; e na clássica "Green Onions", original de Booker T.
O Piano Blues abre o álbum em "Song for Jay"; se apresenta com todo seu lamento em "Playing with my Soul", em baixa dinâmica e com um riff estonteante de Ari; e, no melhor encontro do Boogie com o Jazz, a contagiante "French Quarter Boogie", que contou com as participações do baixista Marcos Klis e do guitarrista Celso Salim.

O DVD contém 7 faixas, com edição de imagens por Chico Blues, e registra o encontro de Ari Borger com o pianista Bob Seeley na faixa "Boogie with Bob", além do tema "88 Boogie", que não está no CD.
A masterização do álbum teve as mãos de Igor Prado e a arte da capa de Yuri Prado.
Um registro obrigatório.


ariborger.com/

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Lowdown Boogie Igor Prado Band

MUDDY, WOLF E BONAMASSA

09 julho, 2015
Joe Bonamassa
Sem dúvida, Joe Bonamassa é um dos guitarristas mais vibrantes surgidos na cena Blues-Rock nos últimos 20 anos. Fato que se comprova pelos seus últimos lançamentos - os fantásticos concertos realizados nos palcos do Royal Albert Hall (2010) e Beacon Teather (2012), em que teve ao lado as presenças de Eric Clapton e Paul Rodgers; no belíssimo Vienna Opera House (2013) com um super set acústico; e a viagem ao universo do Funk-Jazz dos anos 70 em Rock Candy Funk Party (2014), entre outros. Além, lógico, de sua obrigatória discografia de estúdio.

E agora nos surpreende com um Tributo a Muddy Waters e Howlin Wolf, dois pilares do Blues elétrico e, talvez, os grandes representantes do movimento a partir dos anos 60.
Com total domínio da linguagem Blues, Bonamassa desfila um repertório de clássicas composições de Willie Dixon, J.B. Lenoir, Muddy Waters, Chester Burnet e Hendrix, em 2h de apresentação em um dos palcos mais extraordinários da América - Red Rocks, localizado nas montanhas do Colorado, no anfiteatro geologicamente natural, com perfeita acústica.

Muddy Wolf at Red Rocks traz, como sempre, um Bonamassa inspiradíssimo e aqui com uma nova formação - os metais liderados por Lee Thornburg trompete e arranjos, Ron Dziubla sax e Nick Lane trombone; Mike Henderson harmônica; Reese Wynans piano e hammond; Michael Rhodes baixo; Kirk Fletcher guitarra; e Anton Fig bateria.

Uma super pré-produção deste trabalho levou Bonamassa ao Mississipi a bordo de um original Chevy Bel-Air 1957. Ao seu lado o produtor Kevin Shirley, e realizaram uma histórica viagem passando por Clarksdale, uma visita ao Delta Blues Museum até a encruzilhada protagonizada por Robert Johnson.
Tem ainda imagens resgatadas de Muddy e Wolf em apresentações ao vivo e em estúdio, tudo documentado nos extras do DVD-Bluray; e o áudio em CD duplo.


jbonamassa.com/

Mais Joe Bonamassa -

Live at Vienna Opera House Rock Candy Funk Party Joe Bonamassa : See Saw Joe Bonamassa : Don´t Explain

IN SET COM BRUNO MIGOTTO

02 julho, 2015
O baixista Bruno Migotto é um dos mais atuantes músicos da cena Instrumental brasileira. Seu som está presente no trio do guitarrista Michel Leme, com quem toca desde 2008, nos quintetos dos guitarristas Lupa Santiago e Djalma Lima, e na Soundscape Big Band - trabalhos de pura excelência.

Agora ele é o protagonista, e apresenta seu primeiro álbum solo intitulado In Set, um registro autoral que contou com a participação de Michel Leme na guitarra, Alex Buck na bateria e os sopros de Daniel D'Alcantara no trompete, Josué dos Santos e Cassio Ferreira nos saxofones e Jorginho Neto no trombone.
O primeiro time da cena instrumental paulistana.
Para Bruno, In Set é o retrato mais fiel da sua realidade e crença na arte, como afirma no belo encarte do álbum, com arte gráfica de Luda Lima.


Alternando entre o contrabaixo acústico e elétrico, o repertório se traduz quase como uma biografia -
das mudanças e incertezas em "Do Fim ao Começo"; a mistura de ritmos em "El Samba como me Gusta" e "Caixote de Surpresas"; a crença em "Paz de Cristo"; da ansiedade transformada em Blues em "Quase Roxo"; e dos insights criativos em "Acidental" e "Canto do Abacate".
Títulos cujas histórias são reveladas brevemente por Bruno em linhas impressas na contracapa do álbum.

Com a palavra, Bruno Migotto -

Gustavo Cunha: In Set é um álbum totalmente autoral. Como você trabalha o processo de composição?
Bruno Migotto: O processo de composição nunca é fácil pra mim, normalmente tudo parte de uma ideia e depois vem o desenvolvimento dessa ideia, que é a parte mais dificil e que leva muito mais tempo. As músicas desse disco foram todas compostas entre 2005 e 2007, e depois de escritas comecei a escrever os arranjos para a formação de septeto, a principio somente para estudo, mas depois de tanto trabalho os escrevendo decidi montar essa formação e toca-los. Em 2009 gravei o disco, que conta com 7 desses arranjos e com os músicos Michel Leme, Alex Buck, Daniel D'Alcântara, Cássio Ferreira, Josué dos Santos e Jorginho Neto.

GC: Nesta sessão você tem a base em trio com guitarra e bateria e uma seção de sopros. Você já tinha pensado nos arranjos do álbum sem piano?
BM: Desde que comecei a escrever os arranjos para essa formação sempre pensei neles com um só instrumento de harmonia, no caso a guitarra; assim o músico fica mais à vontade para harmonizar com o solista e interagir. Mas acima de tudo, minha preocupação foi em pensar nos músicos que eu queria que fizessem parte do som, então não escolhi a guitarra, escolhi o Michel Leme, que tem um som único, assim como todos os outros músicos que fizeram parte do disco. Esse é um dos aspectos que mais gosto desse tipo de música, que permite a criação e a improvisação em tempo real. Cada músico que muda, muda também todo o som do grupo e a maneira como os demais músicos tocam e reagem, isso requer uma sensibilidade e entrega total à Música.

GC: Contrabaixo acústico e elétrico - instrumentos de sonoridade e textura tão particulares. Como você os pensa em sua música?
BM: O que realmente acho mais distinto entre os dois instrumentos é a parte técnica, nesse sentido eles são completamente diferentes, a não ser por terem a mesma afinação. Portanto, não é natural que um baixista elétrico toque acústico nem vice versa, tem que estudar os dois separadamente com suas respectivas técnicas e sonoridades. Porém na hora de tocar, musicalmente falando, penso nos dois muito próximos. Minhas maiores referencias como baixista são baixistas acústicos. Depois que comecei a tocar baixo acústico meu jeito de tocar o elétrico mudou completamente, e meu modo de tocar em grupo mudou bastante, e pra melhor, eu acredito. Essa limitação técnica que o baixo acústico traz no começo, acho isso extremamente musical, faz você ser mais criativo com menos informação e também faz você valorizar o mais simples. Hoje em dia acho que um instrumento acaba ajudando e influenciando o outro. Meus estudos hoje também inclui a bateria, e foi desde que me mudei para São Paulo que pude começar a estudar de verdade esse instrumento, que foi minha primeira paixão na música, um instrumento que sempre me ajudou muito como baixista, e musicalmente; também tenho me dedicado bastante ao piano, que tem me ajuda muito em todos os sentidos. Acho extremamente importante para qualquer instrumentista conhecer um pouco de bateria e piano.


GC: O que o fez descobrir o contrabaixo? 
BM: O contrabaixo não foi minha primeira e nem segunda opção. O primeiro instrumento que eu tive foi um teclado, com uns 8 anos de idade mais ou menos, mas não despertou muito meu interesse para estudar na época e logo desencanei; mas foi quando vi uma bateria pela primeira vez na minha frente que meu amor pela música começou de verdade. Eu ficava louco quando via alguém tocando bateria, e queria muito fazer aquilo também (esse amor continua até hoje), porém morava em apartamento e ter uma bateria não era uma opção, a unica coisa que eu sabia era que não queria tocar guitarra, então baseado nas bandas de Rock que eu ouvia na época só me sobrou o baixo.
Aos 11 anos ganhei meu primeiro baixo elétrico, e a partir daí comecei a estudar música cada vez mais, ja sabendo que queria ser músico. Aos 17 fui para São Paulo estudar música e comecei a ouvir cada vez mais Jazz e Música Instrumental, e naturalmente comecei a ter como referencia aquela linguagem e sonoridade do baixo acústico, assim comprei meu primeiro acústico aos 18 anos. Comecei a estudar sozinho mesmo, e logo comecei a trabalhar com o instrumento, e tocar na noite ainda continua sendo minha maior escola, repertórios sempre diferentes e com músicos diferentes.
É muito interessante como as coisas acontecem. Quando comecei a tocar aos 11 anos, nunca imaginei que fosse tocar e carregar um baixo acústico pra lá e pra cá, porém agradeço muito, pois esse instrumento mudou completamente minha maneira de tocar e de ver a música, e também me abriu muitas portas para que eu começasse a tocar Música Instrumental e improvisada com grandes músicos que eram e ainda são minhas referências musicais, e que tenho a honra de ver de perto, aprender e tocar, como os grandes bateristas Bob Wyatt, Edu Ribeiro, Cuca Teixeira, Alex Buck, Nenê, Celso de Almeida, entre tantos outros.

GC: Você é professor no Conservatório Souza Lima, que tem muito foco no Jazz e na Música Instrumental. Você vê potencial na nova geração de músicos para levar esse legado adiante?
BM: Com certeza. Os tempos mudaram bastante por conta da tecnologia e do fácil acesso a informação, o importante é saber como lidar com isso. O perigo é ficar viciado no acúmulo de informações e não se aprofundar em nada direito. Gosto do antigo método de ter um disco e ouvi-lo até cansar, conhecer o máximo possível aquele disco, cantar os solos, saber o que acontece com os outros instrumentos, ouvir a música como um todo e não focar somente no próprio instrumento. E o que parece ser um método infalível para aprender uma linguagem é conhecer a história, estudar os que vieram antes de você, e os que vieram antes daqueles que você admira. Acredito que esse processo tanto de aprender quanto de ensinar deve ser feito em sua maior parte com Música, com som, e não somente com regras e dogmas, afinal ninguém quer virar músico ou se apaixonar pela Música por causa de regras e teorias.

Obrigado Bruno Migotto, e Sucesso !
brunomigotto.com/


Bruno Migotto on Myspace.

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Michel Leme 9

DOWNBEAT CRITICS POLL 2015

26 junho, 2015

O pianista Vijay Iyer foi, novamente, eleito o artista em destaque do Jazz na edição 63 do DownBeat Critics Poll; e seu trio, formado pelo contrabaixista Stephan Crump e pelo baterista Marcus Gilmore, o destaque na categoria de grupo. Vjay já tinha conquistado ambos títulos em 2012.
O álbum de Jazz em destaque ficou com o Tributo a Charlie Parker realizado pelo saxofonista Rudresh Mahanthappa, Bird Calls (ACT), que também foi o eleito novamente o artista na categoria sax alto.

Dobradinha também na eleição deste ano para Ambrose Akinmosire, Joe Lovano, Gary Smulyan, Anat Cohen, Nicole Mitchell, Robert Glasper, Bill Frisell, Christian McBride, Stanley Clarke e Regina Carter; e para as vozes de Gregory Porter e Cecile McLoren Salvant.
Nos artistas em ascensão, a improvisação livre ganhou espaço no nome da saxofonista Ingrid Laubrock, e, mais que merecidos, os nomes de Melissa Aldana e Ben Williams.

A lista completa -

Hall of Fame: Lee Konitz
Veterans Committee Hall of Fame: Muddy Waters
Jazz Artist: Vijay Iyer
Jazz Album: Rudresh Mahanthappa, Bird Calls (ACT)
Historical Album: John Coltrane, Live At Temple University (Impulse!/Resonance)
Jazz Group: Vijay Iyer Trio
Big Band: Darcy James Argue’s Secret Society
Trumpet: Ambrose Akinmusire
Trombone: Steve Turre
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Rudresh Mahanthappa
Tenor Saxophone: Joe Lovano
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Kenny Barron
Keyboard: Robert Glasper
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Bill Frisell
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Brian Blade
Percussion: Zakir Hussain
Vibraphone: Gary Burton
Male Vocalist: Gregory Porter
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant
Miscellaneous Instrument: Erik Friedlander (cello)
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Gary Clark Jr; Buddy Guy
Blues Album: Gary Clark Jr., Live (Warner Bros.)
Beyond Artist or Group: D’Angelo
Beyond Album: D’Angelo and The Vanguard, Black Messiah (RCA)

Astistas em ascensão -

Jazz Artist: Steve Lehman
Jazz Group: The Cookers
Big Band: Jason Lindner Big Band
Trumpet: Kirk Knuffke
Trombone: Ryan Keberle
Soprano Saxophone: Ingrid Laubrock
Alto Saxophone: Steve Lehman
Tenor Saxophone: Melissa Aldana
Baritone Saxophone: Chris Cheek; Brian Landrus
Clarinet: Chris Speed
Flute: Erica von Kleist
Piano: David Virelles
Keyboard: George Colligan; Jamie Saft
Organ: Jamie Saft
Guitar: Michael Blum
Bass: Ben Williams
Electric Bass: Tarus Mateen
Violin: Carla Kihlstedt
Drums: Tyshawn Sorey
Percussion: Giovanni Hidalgo
Vibraphone: Bryan Carrott
Male Vocalist: Allan Harris
Female Vocalist: Cyrille Aimée
Miscellaneous Instrument: Anouar Brahem (oud)
Composer: Rudresh Mahanthappa
Arranger: Arturo O’Farrill
Producer: Dave Douglas

ELIAS HASLANGER

22 junho, 2015
O saxofonista texano Elias Haslanger é um dos músicos mais atuantes na cena Jazz de Austin, Texas.
Iniciou os estudos na Texas University, onde tornou-se mestre em composição; e mais tarde partiu para a Manhattan Music School.
No final dos anos 90, alcançou posições de destaque no ranking das publicações Jazziz, Jazz Times e Downbeat; e com o trabalho realizado com o patriarca dos Marsalis, “Kicks are for Kids” (1998), ganhou definitivamente a admiração de público e crítica, cujo álbum foi eleito um dos melhores da década.
Convidado a integrar o grupo do trompetista Maynard Ferguson, "Big Bop Nouveau Band", tornou-se o solista principal ao tenor, caminho seguido muitos anos antes por Wayne Shorter, o que deu a Elias muitas horas de palco e experiência que enriqueceu sua trajetória em grupo, como líder e músico.
Seu álbum solo de 2012, "Church on Monday", passou 11 semanas em destaque no ranking das rádios pela JazzWeek e foi distribuído na Europa e Japão, ganhando destaque na edição da Downbeat em junho de 2013, em que ele comenta sobre o álbum que transformou sua forma de pensar o ritmo - "Hustlin" (1964) - um clássico Blue Note liderado por Stanley Turrentine e sua esposa e organista Shirley Scott .
Elias intitulou seu grupo como Church on Monday, formado por Dr. James Polk no Hammond, Jake Langley na guitarra, Daniel Durham no contrabaixo e Scott Laningham na bateria.
O organista Polk também é muito conhecido na cena musical de Austin, responsável por formar muitos músicos locais, e foi por muito tempo diretor musical da Ray Charles Orchestra. E destaque também o guitarrista canadense Jake Langley, que integrou o organ trio liderado por Joey DeFrancesco e é uma escola de guitarra com fluência plena na linguagem do Blues.
Esta formação está presente no contagiante álbum Live at the Gallery (2014, Cherrywood Rec), registro de 2 noites no Continental Club Gallery, em Austin. Um verdadeiro passeio pelo repertório do Jazz em uma sessão contagiante, não é à toa que o álbum recebeu 4,5 estrelas na Downbeat.
O líder muito inspirado, e não economizou no tempero Blues em "One for Daddy-O" (Adderley) e na tradicional "Going Down"; carregou o groove em "Watermelon Man" (Hancock) e "Adam´s Apple" (Shorter); deu espaço para os standards "I Thought About You" (Van Heusen) e "Song For My Father" (Horace Silver); e relaxou nas baladas "In a Sentimental Mood" (Ellington) e "Misty" (Errol Garner).


www.elijazz.com/

BEN WILLIAMS

05 junho, 2015
O contrabaixista Ben Williams já desponta como um dos mais talentosos músicos surgidos na cena Jazz nos últimos tempos. Formado pela Juilliard School, recebeu, em 2009, a honra máxima no Thelonious Monk International Bass Competition, impressionando uma bancada de mestres formada, na época, por Ron Carter, Dave Holland, Charlie Haden, John Pattittuci, Christian McBride e Robert Hurst.

Em 2011 lançou seu álbum de estreia, “State of Art” (Concord Rec), ao lado de de Marcus Strickland, Matthew Stevens, Gerald Clayton e Jamire Williams, em um repertório que traz nova roupagem para "Little Susie" (Michael Jackson) e "Part Time Love" (Steve Wonder), e ainda faz uma fusão com o hip-hop em homenagem a Lee Morgan com o DJ e rapper John Robinson e o trompetista Christian Scott como convidados.
Tanto talento chamou a atenção de Pat Metheny, que o convidou para integrar o Unit Group ao lado de Chris Potter e Antonio Sanchez, cujo álbum de estreia foi premiado com o Grammy em 2012. E foi McBride quem o apresentou ao guitarrista quando ainda estudava na Julliard; foi a oportunidade de Williams juntar-se ao trio de Metheny para algumas gigs, mais tarde recebendo o convite para integrar o Unity Group. Um reconhecimento e tanto, afinal ele tem em Metheny uma grande influência.
Em 2013, já figurava na lista dos músicos em ascensão na eleição da revista Downbeat.

Com seu segundo álbum, Coming of Age (2015, Concord Rec), Williams mostra-se muito mais maduro, e tem ao seu lado novamente o sax de Marcus Strickland e a guitarra de Matt Stevens, complementando com Christian Sands no piano e John Davis na bateria, grupo que ele intitulou Sound Effects. Convidados muito especiais participam do álbum - novamente o trompetista Christian Scott, o vibrafonista Stefon Harris, e as vozes de Goapele e W.Ellington Felton.
São 11 composições no repertório, e, particularmente, um ponto alto do álbum é a belíssima interpretação de "Lost & Found", cover da cantora de Soul inglesa Lianne La Havas, com Christian Scott em total introspecção. Ainda em destaque, uma versão solo de "Smells Like Teen Spirit" do Nirvana; e uma homenagem a Nelson Mandela em "Voice of Freedom", interpretada na voz de Goapele.


benwilliamsmusic.net/

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MUY POQUITO COM ITAMAR CARNEIRO TRIO

23 maio, 2015
A simplicidade é a máxima sofisticação.
É por essas linhas que o guitarrista paulista Itamar Carneiro rege seu modo de ser, simples, que gosta das coisas simples; e faz do uso desta simplicidade um universo de histórias musicais.
Com muito talento e criatividade, ele apresenta seu primeiro álbum solo, Muy Poquito, um registro independente em que traz um repertório autoral em 6 composições, fazendo uma fusão de ritmos latinos, muito influenciado pela música cubana, sem perder o swing e a linguagem da música brasileira.
Sem dúvida, uma música de extrema grandeza, emoção e singularidade.


Ao lado de Itamar Carneiro estão Shamuel Dias no baixo elétrico e Danilo Carvalho na bateria, um trio super integrado e com espaço para muito improviso, em uma sessão gravada sem cortes, sem overdubs, sem correção nem adição de mais nada, para que se perceba o som mais real possível, ao vivo.
O álbum abre com a forte melodia do tema título, cadenciado pela atmosfera latina e trazendo intensos improvisos de Itamar, Shamuel e Danilo. Em "Meu Porto, meu Cais", Itamar introduz o tema com um chord melody em uma belíssima balada; assim como na bossa "Um Mar de Saudade". O ritmo brasileiro marca o "Baião de Assis Carneiro", mostrando sua influência por Gonzagão em um mood muito particular; e o Blues tem presença em "Martino Blues", uma reverência ao guitarrista Pat Martino. Fechando o álbum, uma belíssima interpretação solo em "O Trem de Cabedelo".

Itamar usou uma Ibanez AF100 em todas as faixas, com exceção de "O Trem de Cabedelo", em que usou uma guitarra fabricada pelo luthier Aquiles, de Brasília, ambos plugados em um amp Fender Delux 112.

Com a palavra, Itamar Caneiro -

Gustavo Cunha: Conte sobre sua formação musical e como a guitarra se tornou protagonista em sua vida.
Itamar Carneiro: Me formei primeiramente no extinto Conservatório Padre Jose Mauricio, localizado na minha cidade São Bernardo do Campo. Antes disso tive aulas particulares com um excelente guitarrista da região, Ronaldo Mirandah. Eu tinha uns 16 anos e estava aprendendo tudo que eu podia sobre teoria musical e começava a empunhar a guitarra de uma maneira interessante. Foi quando esse meu primeiro professor me deu uns discos pra eu levar pra casa e ouvir, entre eles Larry Coryell e Toninho Horta. Lembro-me de ter ficado alucinado com aqueles dois discos, me fizeram chorar e foi a partir dali que tudo começou de verdade. Em seguida, com aquele som na orelha 24hs por dia, procurei o Conservatório Padre Jose Mauricio e tive outra grande sorte, um presente de Deus - encontrei outro super professor chamado Sergio Leão. O "Leão", como todos aqui em S.B.Campo o chamamos, me ensinou tudo, ele é um cara minucioso com os alunos e percebeu que eu tinha vontade de aprender. Estar como aluno sob o comando de suas batutas foi fundamental, sempre muito honesto e como professor não poderia ser diferente, atencioso com minhas duvidas, me acalmando com minhas ansiedades e procurando sempre me levar ao amadurecimento; foi assim durante quatro anos.
Depois fui para a FAAM onde estudei dois anos como o professor Marcelo Gomes, e tive as outras matérias do curso. Dai migrei definitivamente para a FASCS, Fundação Das Artes de São Caetano do Sul, onde estudei 5 anos cumprindo todo o conteúdo de um curso extremamente acadêmico, e lá meu professor de guitarra foi o Jorge Hervolini. Além disso, toquei na Big Band da FASCS por 2 anos sob a regência do Maestro Sergio Gomes.
Mais tarde procurei um cara que continua sendo um exemplo pra mim, o professor Heraldo do Monte, um ídolo e um super ser humano, cujo período de aulas durou apenas 5 meses.

GC: "Muy Poquito" tem a formação de trio, sem instrumento harmônico. É um desafio tocar nesta formação?
IC: Sim, é um desafio. Principalmente pra mim que só tocava em quarteto com um piano sempre me dando suporte. Na verdade, eu não sabia tocar em trio até este disco. Ainda tenho muito que amadurecer, e estou na busca por isso. Ainda sou uma criança aprendendo a dar os primeiros passinhos em relação a tocar em trio, onde a guitarra assume um papel de harmonizador.

Itamar Carneiro

GC: Fale sobre os músicos que estão com você e como surgiu a ideia de registrar esta sessão.
IC: Vou descrever isso da maneira mais honesta que eu puder. Começou com minha vergonha de ser eu mesmo. Eu tinha muita vergonha do meu sotaque, das coisas que escrevia, e me preocupava com “O que os outros iriam pensar de mim”; e é bem verdade que eu tinha um problema psicológico a ser resolvido. Eu escrevia melodias e as deixava na gaveta mofando.
O pouco tempo de aula com o Heraldo me ajudou muito; com as aulas comecei a pensar sobre o fato da existência humana, sobre o “Eu”, singular, único, especial.
Nesta gravação, como músico sei perfeitamente que preciso amadurecer muito, mas como ser humano, no que diz respeito a “certeza”, eu estava pronto. Na gravação fui eu mesmo com toda a verdade que pude ser. Fui feliz em gravar, muito feliz. Foi dessa maneira que comecei a pensar em registrar uma sessão de gravação dos meus temas.
Os músicos são meus amigos e companheiros de FASCS - o Shamuel Dias fez o baixo elétrico e cuidou de parte da Produção do disco, e o Danilo Carvalho fez a bateria. Ressalto que ambos são extremamente talentosos e pessoas do bem, dois cavalheiros. Fizemos 2 takes de cada faixa, mas eu escolhi os primeiros, com exceção do "Martino Blues".

GC: A música cubana exerceu forte influência na linguagem do Jazz. Há uma presença muito forte desta textura em sua música, além da riqueza da música brasileira, em ritmo e melodia. Quais suas influências e/ou referências?
IC: Ouço musica Cubana e latina desde criança, mas tenho um amigo que me fez mergulhar nisso e ouvir ainda mais - um filho de chilenos chamado Pablo Lopez. Eu tenho uma preferencia pela musica camponesa cubana, aquelas que só têm voz e três instrumentos, e tem uma melodia curta e simples. Isso me fascina. Gosto de coisas simples.
Tenho uma ligação muito forte com a natureza, principalmente com o mar, talvez pelo fato de ser neto de pescador. Minha família materna é de João Pessoa, e minha família paterna é do sertão do Rio Grande do Norte e Paraíba. Ouvi Gonzagão e companhia a vida toda. Acho que tudo se juntou na minha cabeça e saiu o que saiu. Adoro melodias e acho que consigo escrever coisas bonitas, gosto do que eu escrevo.
Então, minhas influencias musicais são musica de gente humilde mesmo, eu não me considero um músico sofisticado e não pretendo ser, gosto de coisas simples.

GC: As composições longas abrem um bom espaço para explorar o lado criativo. Você acredita que a improvisação livre é um caminho natural para expressar emoção no tempo em que a música ocorre?
IC: Pra mim, se uma melodia começa ela tem seu próprio curso pra ir aonde ela quer ir, e ninguém pode interromper isso. Penso como Carlos Drummond de Andrade, a poesia vem de uma estância maior, seja ela qual arte for, e nos improvisos a coisa pra mim é dessa maneira. A liberdade de criação nos improvisos requer muito estudo. Estudar os estilos musicais, as texturas, a historia da cultura de onde a música veio, e por ai vai.
Então, penso sim que o improviso é uma forma natural de se expressar com emoção, mas isso requer muito estudo, não da pra fazer isso do nada.

GC: Belíssima composição solo em "Trem de Cabedelo". O que o inspira nesses momentos intimistas?
IC: Uma Paisagem. La em João Pessoa, na cidade dos meus pais, tem um trem muito antigo que transita das cidades mais simples levando trabalhadores para João Pessoa, uma delas é a cidade de Cabedelo. O trem é periférico, pobre, feio, velho e mal tratado.
Se forem a João Pessoa, mais precisamente no centro velho, ao lado do Hotel Globo, vão entender minha inspiração. O trem passa entre construções antigas buzinando. Se quiser, pode ir a Cabedelo nele, é bem legal, é lindo. Isso me marcou. As coisas simples geralmente mexem muito comigo, e eu gosto de transpor isso para a música, a arte onde me coloco.

Obrigado Itamar Carneiro, e Sucesso !

Você pode adquirir o álbum Muy Poquito na Pops Discos.