DOWNBEAT CRITICS POLL 2016

01 julho, 2016

Divulgada a lista da edição 64 da Downbeat Critics Poll.
Nomes já consagrados figuram entre os vencedores, como Joe Lovano, Charles Lloyd e Wayne Shorter, mas o mais interessante nessas listas são as novidades, que aguçam nossos ouvidos para a busca de novos sons.

Assim como na edição anterior, dobradinha para o pianista Vijay Iyer, o contrabaixista Christian McBride, o saxofonista barítono Gary Smulyan, a clarinetista Anat Cohen e as vozes de Cécile McLorin Salvant e Gregory Porter.
Entre os destaques, o saxofonista Kamasi Washington, que ganhou muita força com o lançamento do seu álbum triplo "The Epic", eleito álbum do ano e artista em ascensão nas categorias jazz e sax tenor.
Ainda, o pianista Randy Weston eleito para o Hall of Fame; Maria Schneider, vencedora em 3 categorias - big band, arranjadora e compositora; e o blues de Buddy Guy.


A lista completa -

Hall of Fame: Randy Weston
Veterans Committee Hall of Fame: Hoagy Carmichael
Jazz Artist: Vijay Iyer
Jazz Album: Kamasi Washington, The Epic
Historical Album: Miles Davis, Miles Davis At Newport 1955–1975: The Bootleg Series Vol.4
Jazz Group: Charles Lloyd Quartet
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Ambrose Akinmusire
Trombone: Wycliffe Gordon
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Rudresh Mahanthappa
Tenor Saxophone: Joe Lovano
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Kenny Barron
Keyboard: Robert Glasper
Organ: Joey DeFrancesco, Dr. Lonnie Smith
Guitar: Bill Frisell
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Marcus Miller
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Hamid Drake
Vibraphone: Gary Burton
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Buddy Guy
Blues Album: Buddy Guy, Born To Play Guitar
Beyond Artist or Group: David Bowie
Beyond Album: David Bowie, Blackstar

Artistas em ascensão -

Jazz Artist: Kamasi Washington
Jazz Group: JD Allen Trio
Big Band: Christine Jensen Jazz Orchestra
Trumpet: Marquis Hill
Trombone: Michael Dease
Soprano Saxophone: Donny McCaslin
Alto Saxophone: Grace Kelly
Tenor Saxophone: Kamasi Washington
Baritone Saxophone: Lisa Parrott
Clarinet: Oran Etkin
Flute: Elena Pinderhughes
Piano: Joey Alexander
Keyboard: Nik Bärtsch, Sam Yahel
Organ: Pat Bianchi
Guitar: Liberty Ellman
Bass: Luques Curtis
Electric Bass: Tim Lefebvre
Violin: Mads Tolling
Drums: Mark Guiliana, Kendrick Scott
Percussion: Ches Smith
Vibraphone: Khan Jamal
Miscellaneous Instrument: Omer Avital
Female Vocalist: Kate McGarry
Male Vocalist: Ku-umba Frank Lacy
Composer: Christian Scott aTunde Adjuah
Arranger: Christine Jensen
Producer: Zev Feldman

A lista completa na edição de agosto/2016 da Downbeat.
www.downbeat.com

ALMA

22 junho, 2016
O guitarrista Michel Leme apresenta o décimo álbum da sua discografia, Alma.
Acompanhado pelo piano elétrico de Felipe Silveira, o contrabaixo de Bruno Migotto e a bateria de Bruno Tesselle, traz um trabalho autoral e gravado ao vivo, em um único take, com 5 temas bastante intensos em mais de 1h de muita inspiração e transpiração, mostrando que essa formação do quarteto se consolidou de forma singular, a mesma presente no álbum anterior “9” (2015).

Eu sou muito suspeito para falar da música de Michel Leme, e, particularmente, o resultado desse trabalho o coloca entre os meus preferidos. Dinâmica, improviso, groove - está tudo aí.
A arte da capa é do próprio Michel Leme, e o título do álbum, também atribuído a uma das faixas, não tem necessariamente um significado espiritual, e como Michel afirmou em outras entrevistas simplesmente pretende reforçar a ausência da alma nesses tempos de boçalidade generalizada.

Michel Leme Quarteto

Definitivamente, definir a música, sob qualquer perspectiva, é inútil. A usina criativa de sons que esse quarteto coloca nesse álbum realmente é de impressionar. Fazia tempo que não ouvia um quarteto com guitarra e rhodes tão eletrizante, e aqui os temas longos dão liberdade para os improvisos, que, por mim, deviam ser infinitos.

"Nave" introduz com um fraseado intenso de Michel, que logo abre caminhos para o walking de Migotto dar base ao improviso frenético de Felipe com muito swing. Destaque aqui para as pontuações de Tessele, que não abre mão do silêncio em determinadas passagens.
"Joaquim" mostra uma perfeita unidade, melodia marcante e o tema faz homenagem ao filho recém-nascido de Felipe; e Michel encadeia o solo com uma digitação primorosa, preciso, objetivo, fraseado intenso e livre; o solo de Felipe traz uma dinâmica mais cadenciada, mas não menos intenso, e tem que destacar as belas colocações da guitarra de Michel em contraposição ao solo do rhodes.
"O Biltres" traz uma quebradeira das boas. Um boogaloo, que Michel afirma gostar muito de tocar nessa onda. Ritmo latino por natureza, foi muito explorado no fusão do jazz setentão. Aqui Migotto abre os improvisos, seguido por um inspiradíssimo Felipe incendiando o rhodes com um groove estonteante, e ainda solos de Michel e Tessele, ao final dialogando.
O repertório repousa justamente em "Alma", coincidentemente ou não, e você dá o sentido à palavra. Com uma introdução introspectiva de Michel, o tema se desenvolve sobre uma melodia confortante, seguido dos solos de Felipe, Michel e Migotto. Fechando a caixa, “Celso Childs Blues Jr”, que traz o espírito do blues e cujo tema dá sequência ao tema registrado no DVD "Na Montanha". O título faz referência a um velho amigo de Michel que vive recluso e que curte fazer poemas sobre jazz.
Um disco obrigatório para os amantes da boa música.



Com a palavra, Michel Leme -

GC: Alma traz novamente o quarteto formado em “9”; e percebe-se uma integração ímpar do grupo, tanto que o registro dessa sessão deu-se espontaneamente, certo?
ML: O quarteto com Felipe Silveira (piano), Bruno Migotto (baixo) e Bruno Tessele (bateria) está atuando desde outubro de 2014, e vem sendo uma experiência além do que cada um de nós esperava.
Este grupo nunca ensaiou. Eu envio as partituras por e-mail e a gente estréia os temas tocando. Ensaiar é Ok, respeito a opção de cada um, mas para este grupo não funciona assim. Nós vivemos e observamos o processo ao vivo, o que é arriscado, porém mais natural e estimulante.
“Alma” foi gravado numa tarde, com apenas um take para cada faixa. Gravamos “Nave”, “Joaquim” e “Os biltres”, e aí paramos para tomar um café. Uma horinha depois, nós voltamos e gravamos “Alma” e “Celso Childs Jr”.
Como cito no encarte, a ordem que se ouve no disco é a mesma que aconteceu na gravação, e não há truques quaisquer de pós-produção. Gravamos no Táta Estúdio, na casa do Bruno Tessele, e a captação foi do Flávio “Tsunami” Tsutsumi da Sho’You Áudio & Vídeo.

GC: "Os biltres" traz um groove contagiante, que lembra um tanto aquele contexto da fusão do jazz setentão. Foi nesse espírito que se desenvolveu o tema?
ML: “Os biltres” é um tema que exige bastante de mim para improvisar; é composto apenas por acordes dominantes, em vários tons. O boogaloo, que já usei em outros temas, é um ritmo que surgiu na década de 60 e que aceita naturalmente outros ritmos, o que combina bastante com o que fazemos.
O contexto que você comenta também é verdade, e acho que principalmente pelo timbre que o Felipe usou e sobre o qual falaremos a seguir. Também sinto que “Os biltres” instiga nossos “palavrões” e coisas mais “safadas” musicalmente.

GC: "Joaquim" e "Alma" tem fortes traços melódicos. Há uma fronteira estabelecida entre a melodia, harmonia e improviso, e como você combina isso?
ML: Tudo acaba se fundindo conforme vamos tocando e ficando mais à vontade com os temas. A execução do tema de “Joaquim” no disco já difere de como está na partitura, porque já havíamos tocado antes e o momento me levou a tocar coisas diferentes. Isso mostra que a improvisação já está presente desde a própria execução do tema. A melodia do tema, por sua vez, é um alicerce importantíssimo para a improvisação. Se o ouvinte prestar atenção, a melodia principal (Fá Mi Re) está presente em vários momentos do meu solo - com variações, mas está lá. Quanto à harmonia, ela é negociável. O Felipe muda os acordes e o Migotto inverte os baixos em vários momentos. Eu confio na intuição deles e embarco na viagem, ao mesmo tempo em que estou atento ao caminho melódico que estou trilhando. Manter a coerência no discurso e, ao mesmo tempo, usar o que seus companheiros estão tocando é um grande desafio, mas que só aprofunda a experiência.

Bruno Migotto, Felipe Silveira, Michel Leme, Bruno Tessele

GC: O blues se mostra bem presente em "Nave" e "Celso Childs Jr". É fato afirmar que essa forma enraizada excita e ajuda a experimentar novas formas de expressão?
ML: Certa vez eu testemunhei alguns rapazes de linhagem aristocrática que estudaram em uma universidade muito cara no exterior referindo-se ao blues como algo risível. Aí me veio a pergunta: “se o blues é tão banal, porque não fazem música de fato sobre ele?”. Bem, a resposta é óbvia: “não fazem”. E, assim, o mundo perdeu excelentes médicos, advogados, contadores, etc. Menciono esta passagem apenas para mostrar um extremo acerca da questão “o que é fácil e o que é difícil?” ou “o que é básico e o que é avançado?”.
Pessoalmente, não vejo diferença em termos de dificuldade entre um tema como “Giant Steps” e um blues maior. As duas estruturas são desafiadoras, e fazer algo de que você realmente goste sobre elas demora muito tempo. Há muito que explorar nestas formas, e elas nos revelam verdadeiros tesouros. Mas aí se trata de respeitar a grandeza da música para merecer o que ela tem a oferecer, e isso não é todo mundo que enxerga, principalmente neste momento com tanto “gerenciamento de carreira”, “music business”, “jazz acadêmico” e, enfim, tantos escombros sobre a música.
Sinais de uma sociedade doente e das consequentes fraquezas de cada um ao ceder à ideologia dominante, aquela que transformou a sociedade num ringue onde a ganância e a competição nocautearam a solidariedade, e onde a estupidez e a boçalidade desclassificaram a elegância e o bom senso. Por outro lado, no ato de tocar ainda podemos atestar a verdade e a vida contidas em tratar o outro como igual, em ouvir de fato o que o outro diz, na liberdade de poder expressar aquilo que você é etc. Talvez seja por isso que a música real é tida como não-existente e os reais músicos tidos como párias, porque artistas de fato não são substituíveis como as marionetes das gravadoras, mídia e/ou grandes empresas. Enfim, a disseminação de tudo o que é reles vai construindo a imbecilização do ser humano, cada vez mais dominado, passivo e desprovido de senso crítico. Vivemos de exceções.

GC: O piano rhodes tem um registro próximo da guitarra, às vezes soa bem sujo, rústico. Como você enxerga essa sonoridade ao lado da guitarra?
ML: O Felipe usou um cabo que fez o teclado dele ficar distorcido em vários momentos, fato observado pelo Tsunami (Flávio Tsutsumi) durante a mix. Eu achei lindo, porque simplesmente foi o que aconteceu e algumas sujeiras são bem-vindas. Deixo a assepsia para quem acredita nela em se tratando de música.
Sobre a questão do timbre, já ouvi alguns discos onde o piano acústico engoliu a guitarra na mix. Claro que isso é possível de ser evitado; basta colocar volume na guitarra, coisa de que muitos técnicos têm medo - ou simplesmente não sabem ou não tem referência. Mas, assim como prefiro baixo elétrico - porque não traz todos as questões para captar o acústico, como o baixista ter que ficar numa sala separada do grupo etc.-, também prefiro o timbre de Fender Rhodes no teclado ao invés do piano acústico, pelo menos para este grupo.
E mesmo com o timbre de Rhodes sendo próximo da guitarra, como você bem ressaltou, um não “briga” com o outro. Eu e o Felipe, assim como todo o grupo, ouvimos tudo o que o outro toca, o que também faz a coisa dar certo, já que tentamos tocar de forma complementar.

GC: Entendo a criação de uma composição como um projeto, literalmente, um projeto de inovação, com início, meio e fim; e adicionado por elementos lúdicos, a veia artística e o instrumento como ferramenta. 
É exagero pensar dessa forma?
ML: Não vejo como exagero algum. Quando componho, o objetivo é criar um cenário para improvisar. Algumas composições vêm de uma provocação do tipo “e se...”, outras vêm de reaproveitar ou subverter alguma estrutura tradicional, enfim, as fontes variam. A questão é organizar estas idéias de forma que se tornem músicas tocáveis por um grupo, e que façam sentido.
É preciso ser honesto consigo mesmo para atestar se o que você escreveu é uma música para ser apresentada para o grupo ou apenas mais um estudo pelo qual você fica agradecido, claro, mas que apenas pertence à gaveta. Eu fico tocando sozinho cada tema até ter certeza de cada detalhe. E só envio para os caras depois de atestar que se trata de uma música de fato e que vamos, no mínimo, nos divertir tocando. E é importante dizer que, a partir daí, a partitura não é sacra, ou a “Tábua da Lei”. Há que se assimilar, memorizar e compreender o conteúdo, mas, daí em diante, tudo está subordinado ao momento.

Fico feliz ao ver que é possível ter um repertório de temas próprios que gere o mesmo prazer que temos ao tocar um standard. Comecei a entender isso assistindo a algumas apresentações por aí: quando o repertório era autoral estavam todos lendo e tocando tensos; quando era um standard, todos relaxavam e a música acontecia. Tento me lembrar disso para equilibrar as coisas ao compor.

GC: 10 álbuns na discografia, incluindo 2 DVDs. Para a música instrumental brasileira atual é mais que um número, e uma infinita satisfação para nós poder desfrutar de toda essa música. Para Michel Leme, é desafiador manter-se tão ativo, e mais, criativo?
ML: O desafio é constante, e sempre acompanhado de prazer e aprendizado. Sinto-me humildemente honrado e agradecido por tudo o que vem acontecendo na minha trajetória. E sigo tentando não atrapalhar a música. Um grande abraço a todos!

Obrigado Michel Leme, e sucesso.

www.michelleme.com

Você encontra "Alma" nas plataformas iTunesDeezer e Spotify, e pelo e-mail michel@michelleme.com.
"Alma" teve o apoio das marcas D’Addario, EM&T, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria, Rotstage, Sho’You Audio&Video e Poptical Banana Gourmet.

Mais Michel Leme -

Arquivos Vol.1 Na Montanha Michel Leme 9 Bruno Migotto In Set

BLACK HOLE QUARTET

05 junho, 2016
A cena italiana do jazz sempre muito forte, aqui apresentada pelo quarteto Black Hole formado por Daniele Cavallanti no sax, Walter Donatiello na guitarra, Michelangelo Flammia no contrabaixo e Tiziano Tononi na bateria. O grupo explora de forma muito fluente o experimentalismo e o livre improviso, criando uma música bem contemporânea, fazendo do jazz uma linguagem que vai além do tradicional.

O saxofonista Daniele Cavallanti é muito atuante no cenário jazz europeu, líder de várias formações entre duos, quartetos, sextetos e combos sem elementos harmônicos e ensembles, fazendo da música criativa o motor de suas composições. Sempre ao seu lado o baterista Tononi, fiel companheiro de jornadas musicais, com quem fundou nos anos 80 o grupo Nexus, inspirado na música de Charles Mingus, Ornette Coleman, John Coltrane, Albert Ayler e Don Cherry.
O guitarrista Walter Donatiello frequentou Berklee e teve mestres como Mick Goodrick, Joe Pass e Pat Metheny. Apaixonado pela raiz musical afro-americana, fonte de seus estudos e aspirações, mergulhou no estudo do ritmo e da música de vanguarda, o que o levou a conhecer os guitarristas Marc Ribot e Marc Ducret, expoentes da guitarra livre.
O contrabaixista Michelangelo Flammia carrega em sua formação músicos clássicos contemporâneos (Schoenberg e Cage) e representantes da musica minimalista (Philip Glass e Robert Fripp), e foi do encontro com o guitarrista Donatiello que deu o início da construção de um projeto que explorasse novas formas de composição e improvisação.

Black Ol' Blues é o segundo álbum do Black Hole Quartet, e foi gravado em julho de 2010 no Lab Service Studio, Milano, lançado pela gravadora Rudi Records.

SANTANA REVISITADO POR ELE MESMO

21 maio, 2016
É inegável a originalidade do registro da guitarra de Carlos Santana, uma marca que se faz evidente desde sua apresentação no festival de Woodstock e que se consolidou nos extraordinários primeiros álbuns de sua discografia – Santana (1969), Abraxas (1970) e Santana III (1971).
A época foi um momento de intensa explosão criativa, muito influenciada pela cultura do jazz que se unia com a energia do rock e a psicodelia fazendo emergir uma nova identidade musical que se desenvolveria por toda a década seguinte, transformando a música em surpreendentes viagens sonoras.

Desde o lançamento do álbum III, a música de Santana se transformou, se afastou do experimentalismo e se aproximou do pop e da música comercial, mas a assinatura de sua guitarra sempre esteve presente.
Passados 45 anos do lançamento de III, ele nos surpreende com Santana IV, trazendo de volta os músicos dos primeiros álbuns como o tecladista e vocalista Gregg Rolie, o baterista Michael Shrieve, o percussionista Mike Carabello e o guitarrista Neal Schon, este ainda muito jovem na época e que viria a participar também do álbum Caravanserai (1973).
A ideia desse encontro surgiu por iniciativa de Neal, que sugeriu ao líder que gravassem algo juntos, o que os levou a chamarem os amigos que participaram da sessões iniciais da época e rotularem o novo trabalho como sequência do último álbum gravado em 1973.
Lógico que, quase meio século depois, a textura do som desses caras carregaram diversas influências e nuances, mas ainda percebe-se que o romantismo criativo e lisérgico das improvisações ainda corre muito forte nas veias. 
Santana IV traz 16 composições incorporando todos os elementos que predominaram na música de Santana por todo esse tempo – os ritmos latinos, as pontuações vocais, muita percussão e muito improviso. Os fãs vão perceber muito do velho Santana e a energia chicana do timbre da sua guitarra.
A formação atual traz ainda Benny Rietveld no baixo, Karl Perazzo na percussão e Ronald Isley nas vozes.



www.santana.com/

BLUES MUSIC AWARDS 2016

07 maio, 2016
Blues Music Awards 2016
Mais uma edição do Blues Music Awards, que chega ao número 37 celebrando o blues e homenageando os artistas que promoveram o estilo ao longo do último ano.
Nossa maior expectativa girava em torno da nomeação da Igor Prado Band, concorrendo pela primeira vez na categoria de revelação do blues com o álbum “Way Down South”. Não foi dessa vez que o prêmio veio na bagagem, mas só pelo fato de Igor prado, Rodrigo Mantovani e Yuri Prado estarem lá já é motivo de muito orgulho para nós. Igor é, sem dúvida alguma, nossa maior referência do blues mundo afora.

Entre os destaques dessa edição, Buddy Guy que, aos 79 anos, levou o prêmio de melhor álbum do ano e melhor álbum de blues contemporâneo com “Born to Play Guitar”; Walter Trout, que recuperou-se de um transplante de fígado foi outro grande vencedor nas categorias de melhor álbum de rock-blues e melhor canção pelo álbum “Battle Scars”. Na linha do soul-blues, Otis Clay destacou-se como artista e álbum com “This Time for Real”; e Allen Toussaint, que nos deixou recentemente, homenageado com o prêmio Pinetop Perkins Piano Player of the Year.

Confira os premiados –

Acoustic Album: The Acoustic Blues & Roots of Duke Robillard – Duke Robillard
Acoustic Artist: Doug MacLeod
Album: Born to Play Guitar – Buddy Guy
B.B. King Entertainer: Victor Wainwright
Band: Victor Wainwright & the Wild Roots
Best New Artist Album: The Mississippi Blues Child – Mr. Sipp
Contemporary Blues Album: Born to Play Guitar – Buddy Guy
Contemporary Blues Female Artist: Shemekia Copeland
Contemporary Blues Male Artist: Joe Louis Walker
Historical: Buzzin’ the Blues by Slim Harpo (Bear Family Records)
Instrumentalist-Bass: Lisa Mann
Instrumentalist-Drums: Cedric Burnside
Instrumentalist-Guitar: Sonny Landreth
Instrumentalist-Harmonica: Kim Wilson
Instrumentalist-Horn: Terry Hanck
Koko Taylor Award: Ruthie Foster
Pinetop Perkins Piano Player: Allen Toussaint
Rock Blues Album: Battle Scars – Walter Trout
Song: “Gonna Live Again” – Walter Trout
Soul Blues Album: This Time for Real – Billy Price & Otis Clay
Soul Blues Female Artist: Bettye LaVette
Soul Blues Male Artist: Otis Clay                      
Traditional Blues Album: Descendants of Hill Country – Cedric Burnside Project
Traditional Blues Male Artist: John Primer

www.blues.org

A TRAJETÓRIA DO ROCK AO JAZZ DO GUITARRISTA JORGE SHY

18 março, 2016
O guitarrista Jorge Shy foi um dos protagonistas da cena rock nacional nos anos 80. O interesse pelo jazz o levou a ingressar na Berklee College of Music, em Boston, no início dos anos 90, época em que lá, como ele mesmo afirma, transpirava o estilo; afinal muitos grandes músicos embarcaram nessa experiência. Graduou-se em Jazz Composition e Film Scoring, e desde então carrega em sua música os elementos da improvisação e da experimentação, reservando as influências do rock, do jazz, da bossa e da música brasileira.

Somebody’s Waiting é o terceiro álbum de sua discografia, e Jorge Shy está acompanhado pelo seu habitual trio formado por Marcos Flo no contrabaixo e Caio Milan na bateria, juntos desde 2008, e conta com as participações de Rubinho Antunes no trompete, Ricardo Pacheco no piano, Israel Ring no sax, Rubens de La Corte no violino e Sandra Tornicce no violoncelo.
O álbum foi gravado entre julho de 2014 e março de 2015, e traz 8 composições em que Shy não se prende a uma busca de uma única definição estilística, ele quer oferecer aos amantes da música instrumental uma obra consistente, que se complementa a cada composição.


Com a palavra, Jorge Shy -

Como deu-se a sua ligação com a música instrumental e o jazz?
A minha ligação com a música instrumental vem de longa data. Ainda um roqueiro consciente, comecei a conhecer a música de Miles Davis, de John McLaughlin e a Mahavishnu Orchestra, e comecei a frequentar aquelas primeiras edições do Free Jazz Festival, onde assisti um show do Pat Metheny Group no Palace, acho que em 1983. Ali foi um divisor de águas para mim, e comecei a me interessar e estudar música mais a fundo.

Berklee é uma escola de referência, e você tem a formação em jazz por lá. Como você descreve essa experiência, e o quanto ela transformou sua forma de pensar música?
Berklee na minha época ainda transpirava jazz (nao sei hoje em dia), e o fato de você ouvir grandes músicos estudando e tocando nos bares é bastante estimulante; fora a competição saudável de todos em alcançar seus objetivos . Na verdade, tocar enquanto eu estava lá nunca foi a prioridade, eu queria escrever musica e fui pra Jazz Composition, Film Scoring, este tipo de coisa . Tocava sim, jazz, acid jazz que na epoca era "moda", música brasileira e estudava improvisação e piano. Acho que tudo isso fez com que eu ganhasse "estofo", e  diria que ficou armazenado e ainda está, pois ainda exploro ideias e conceitos de um época mágica. O tema "Somebody's Waiting foi composto e tocada lá, assim como "Campana".

Em “Somebody’s Waiting” você reforça algumas influências. Fale sobre a música que o inspira.
Verdade. Eu demorei para encontrar o meu som, vinha do rock e blues, estudei erudito, me envolvi com jazz, a música de Jobim e Toninho Horta; foi difícil colocar tudo isso em um liquidificador e resultar no que faco hoje em dia, que, na minha modesta opinião, é música contemporânea. Misturo minha veia de rock e blues nos solos e na pegada com a guitarra elétrica, e desenvolvo esee trabalho de violão que me permite utilizar outras influências como parte de composição, harmonia da música brasileira, folk e outros estilos .


Como formou-se o grupo que o acompanha nesse trabalho?
Comecei a tocar com o baixista Flo e a experimentar coisas novas, ele trouxe o baterista Caio Milan e começamos a fazer shows e experimentações no Souza Lima, onde leciono. Desde 2009 iniciamos esse processo e eles foram me ajudando e compreendendo o estilo. O mesmo aconteceu com o pianista Ricardo Pacheco, que conheço de Boston e tocamos muito juntos há muitos anos .

Que equipamentos usou nessa sessão?
Nesse trabalho utilizei Gibson Les Paul, Fender Telecaster modificada, Cort Jim Triggs e uma Stratocaster Bill Nash. Na parte de amplificação usei um Jazz Chorus antigo, do inicio dos anos 80, um valvulado Hughes and Kethner e um Fender Vibrolux. Na parte de violão utilizei um Martin DCP e um OM Greg Benett , alem de um violão do famoso luthier Virgilio (Sabara) e um violao de nylon espanhol Alhambra.

Como adquirir o álbum?
Nas lojas virtuais do iTunes e Amazon; e pode ouví-lo por streaming nos canais Soundcloud, Spotify, Deezer, além de outras mídias. O CD fisico está a venda em shows e por e-mail.
Estou fazendo uma coisa muito legal - para impulsionar o meu novo site - www.shymusic.com.br - a pessoa se cadastra, deixa o seu e-mail e ganha um CD de presente. Vale conferir.

Obrigado Jorge Shy, e sucesso.

VAI DEIXAR SAUDADE, NANA VASCONCELOS

09 março, 2016


A percussão brasileira sempre foi muito bem representada na música contemporânea pelas mãos de Nana Vasconcelos, que morreu nesta data, aos 72 anos, vítima de um câncer no pulmão.
Sem a menor dúvida a assinatura de Nana influenciou novas gerações de instrumentistas. Sua genialidade sempre se fez presente, dando seu talento e criatividade em diversos trabalhos ao lado de artistas grandiosos como Pat Metheny, Egberto Gismonti, Don Cherry e Jan Garbarek, entre tantos outros. Um músico sempre tão original e empolgante, o que o levou a estar, por diversas vezes, na lista dos melhores percussionistas do mundo pela revista Downbeat.

Pernambucano, iniciou na música nas bandas de maracatu, e ganhou o mundo.
Eu conheci sua música no fantástico “Dança Das Cabeças” (1977), registro gravado com Egberto Gismonti durante três dias em estúdio e que tornou-se a porta de entrada de Gismonti na gravadora ECM. Naná se projetou e colocou o berimbau definitivamente na rota da música moderna; ainda com Gismonti gravou “Sol do Meio Dia” (1978) e “Duas Vozes” (1984). No final dos anos 70, integrou um dos grupos mais experimentais do jazz contemporâneo, Codona, ao lado do trompetista Don Cherry e do citarista Collin Walcott, era uma música livre de formas e cujo trabalho rendeu 3 álbuns – “Codona 1” (1979), “Codona 2” (1981) e “Codona 3” (1983), também lançados pela ECM.

Minha conexão com a música de Nana se fortaleceu no trabalho ao lado do guitarrista Pat Metheny, em que destaco a intensidade de sua interpretação no tema “The Fields, The Sky”, inserido no álbum “Travels” (1982), gravado ao vivo, um intenso registro improvisado de berimbau e guitarra em um diálogo realmente impressionante. Naquele momento de audição, definitivamente, já o tive como uma referência. Nana é uma usina sonora, um mestre na arte da vocalização percussiva e que encontrou na música de Metheny um verdadeiro oásis para essa expressão, melódica e rítmica, como se ouve também nos extraordinários álbuns “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls” (1981) e Offramp (1982), todos também gravados pela ECM.

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu em Recife em 2 de agosto de 1944.
Nana Vasconcelos deixa uma extensa discografia, cuja música foi, é, e sempre será genial.

Nana Vasconcelos: 1944-2016

ANTÍTESE

22 fevereiro, 2016
Os guitarristas Ivan Barasnevicius e Rodrigo Chenta apresentam o álbum Antítese, o segundo do duo, trazendo um repertório totalmente autoral em que elementos experimentais são criados no momento da execução, fazendo uso de jogos de improvisação e aplicando partes literalmente livres.
Muita interação entre eles, passeando pelos ritmos brasileiros, a bossa, o jazz moderno, o samba e o groove. Como eles afirmam, a diversidade de timbres é uma das características mais marcantes do duo. Rodrigo Chenta, no canal esquerdo, prioriza a utilização do som acústico de seu instrumento; Ivan Barasnevicius, no canal direito, dá mais ênfase ao som do amplificador. O álbum foi gravado ao vivo, sem overdubs, e o resultado é espetacular, mostrando mais uma vez a nossa música instrumental em estado de excelência.


Com a palavra, Ivan Barasnevicus e Rodrigo Chenta -

“Antítese” é o segundo trabalho do duo. Que aprendizado vocês tiveram nesse tempo tocando juntos?
Rodrigo Chenta: ​Com este tipo de produção musical aprende-se muito sobre arranjo e as diversas possibilidades de execução de uma mesma música. As soluções para esta formação instrumental aparecem mais rapidamente com o tempo, e tudo parece sair mais naturalmente. De uma forma geral, tudo fica mais fácil com o tempo.
Ivan Barasnevicius: ​Certamente aprendemos a ter cada vez mais cuidado com a execução, pois neste tipo de situação tudo fica muito mais aparente. Desenvolvemos também novas soluções para os arranjos não se tornarem repetitivos. Essa busca, sem sombra de dúvida, adicionou bastante para a nossa vivência musical e estudo do instrumento. É algo contínuo, que vamos desenvolver
mais e mais.

Ritmos brasileiros, introspecção e improvisações livres se fazem muito presentes no repertório. Como se deu a concepção desse novo trabalho?
Rodrigo Chenta: Ao concluir que existiam três vertentes neste recente trabalho, como canções mineiras, jogos de improvisação e mais da estética abordada no primeiro álbum gravado, foi fácil chegar no conceito de antítese que já fazia parte do duo implicitamente. A parte gráfica do CD trabalha o conceito de antítese em vários pontos, como a troca das imagens dos integrantes do duo em relação ao logo na capa, as partituras escritas à mão e as com o uso de editores de partituras, os
tempos de duração das músicas, etc. No caso da improvisação livre, ela aconteceu somente na parte B da música “Crossfades”, que é um misto de jogo de improvisação com improvisação livre criado pelo Ivan.
Ivan Barasnevicius: ​De alguma maneira, esse é um retrato das nossas influências no momento da elaboração do trabalho, das coisas que estávamos ouvindo e pesquisando. Embora o conceito de antítese presente no disco seja bastante claro, trata-­se de um processo natural que aconteceu em nossas composições dessa época. Não é algo forçado, assim como a concepção do “Novos Caminhos” também não foi. Certamente o terceiro trabalho trará uma outra proposta, mas que, apesar de diferente das anteriores, certamente reforçará a identidade sonora do duo.

De que forma "Antítese" se relaciona com o primeiro álbum do duo “Novos Caminhos”?
Rodrigo Chenta: O álbum “Antítese” possui grandes diferenças quando comparado com o “Novos Caminhos”, mas possui mais do que aconteceu no primeiro CD como o distanciamento do tradicional formato standard nas execuções e improvisações, a preocupação com a diversidade timbrística dos instrumentos, o uso de estruturas muitos distintas dos respectivos temas na hora da improvisação, e outras coisas mais.
Ivan Barasnevicius: ​O disco “Antítese” apresenta um aprofundamento de algumas questões que já foram trazidas pelo duo em “Novos Caminhos”. Por exemplo, a improvisação mais livre já havia sido abordada na música “Contrastes”, peça solo do Rodrigo. Porém, não tínhamos feito experiências mais radicais, como fizemos no segundo disco com “Crossfades” e “Antítese”. A preocupação com a elaboração de melodias cantáveis já tinha acontecido em “Valsa para Ana” e “Novos Caminhos”, mas certamente aconteceu em maior escala no segundo trabalho, com os dois temas de “Suite#1”, “Faça­-se a luz!” e “Nove Horas”.

Ivan Barsnevicius Rodrigo Chenta

Há uma referência no título do tema “Suite #1” ao guitarrista Derek Bailey, um ícone da improvisação livre. O quanto esse movimento inspira a música de vocês? 
Rodrigo Chenta: Esta é uma homenagem do Ivan para o Derek Bailey, o guitarrista que mais levantou esta bandeira. Particularmente, me interessa bastante esta sonoridade muito abordada pelo ingleses como Evan Parker, Han Bennik, Gavin Bryars e todo o catálogo da gravadora britânica Incus. É uma proposta bastante radical na quebra de paradigmas e que leva a improvisação a um nível com muito mais liberdade. Já havia gravado no disco “Novos Caminhos” uma improvisação chamada “Contrastes”, que, apesar de ter alguns idiomas, é bastante livre quanto ao ritmo, notas, forma e convencionalidade na maneira de execução do instrumento. A citação de "Donna Lee" é uma brincadeira que os dois gostam muito de fazer. Somente para falar das minhas, na música “Novos caminhos 2” citei no meu primeiro solo “Fear of the Dark” do Iron Maiden, e no improviso da coda na mesma música citei “Question and Answer” do Pat Metheny e “Valsa para Ana” do Ivan Barasnevicius. Isso é muito comum de se ouvir nas improvisações aqui no Brasil. É uma brincadeira muito saudável.
Ivan Barasnevicius: ​Quando pesquisávamos sobre a sonoridade do Derek Bailey, um disco que chamou muito minha atenção foi Ballads (2002). Veja a maneira como ele trata tão conhecidos standards como “Body and Soul” e “Stella By Starlight”. Me parece mais ousada do que ele o que ele fez em discos como "Pieces for Guitar" (1966) ou "Guitar, Drums’n’Bass" (1996). É um tratamento bastante violento para estas belas composições sobre as quais os músicos normalmente gostam de fazer belos solos; e isso foi bastante impactante para mim. Quando estava compondo “Suite#1”, comecei a pensar de que forma poderia trazer a concepção de Derek Bailey para esta peça. A melodia do primeiro movimento é bastante marcante, e seria um chorus muito confortável para improvisar, mas essa seria uma solução usual. Então pensei em colocar no segundo movimento da “Suite#1” algo bastante caótico: uma guitarra improvisando frases rápidas e sem uma tonalidade pré­ definida, enquanto que a outra deve improvisar utilizando apenas harmônicos naturais. Tudo sem nenhuma relação aparente com o tema inicial. A minha citação de "Donna Lee" acontece de forma proposital, e funciona como um aviso: a partir dela, o Rodrigo deve improvisar utilizando somente harmônicos naturais. Vale lembrar também um procedimento presente nessa composição que remete ao conceito não-­standard citado pelo Rodrigo anteriormente. Se olharmos para “Suite#1 (For Derek Bailey)” como uma peça só, veremos que temos um tema no começo, um jogo de improvisação no meio e no final outro tema diferente do existente no começo da peça, ou seja, o oposto do que acontece normalmente, quando o mesmo tema é tocado no início e no fim da peça.

Para essa sessão, como se deu o processo de gravação e que equipamentos usaram? 
Rodrigo Chenta: Usei uma guitarra acústica com encordoamento flat .013 e com ação das cordas bastante alta. Isso reflete na tocabilidade do instrumento e na sonoridade almejada. Foi utilizado um amplificador transistor microfonado mais o som de linha apenas para acrescentar se necessário. No entanto, o som no meu caso, veio principalmente dos microfones sendo um na frente da guitarra para que houvesse a captação do som acústico do instrumento e outro para ambiência da sala. Gravamos tudo ao vivo mas em salas separadas para preservar ao máximo o timbre de cada guitarra e não ter vazamentos indesejados. Em relação aos efeitos usamos apenas um leve reverb.
Ivan Barasnevicius: ​Utilizei uma única guitarra acústica com encordoamento do tipo flat .011. Utilizo a ação das cordas baixa, de forma a facilitar o meu trabalho, mas não em um nível onde tudo fica muito fácil de trastejar. Gravei o disco todo com apenas um amplificador transistorizado de 130w com dois falantes de 12”. Embora o André Ferraz tenha usado um microfone para captar a ambiência da sala, um na frente da guitarra e mais um na frente do amplificador, este último teve de longe a maior importância. Muitos guitarristas de jazz costumam fechar o tone da guitarra para obter um som mais aveludado e utilizar em diferentes níveis o botão de volume da guitarra para alterar o ganho. Normalmente utilizo o tone e o volume sempre abertos, e neste trabalho com o duo o captador utilizado é sempre o do braço. Uso apenas a mão direita para variar a dinâmica.

Obrigado Ivan e Rodrigo, e sucesso.



Você pode adquirir o álbum na CDBaby,com
www.rodrigochentaeivanbarasneviciusduo.com

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Novos Caminhos O espaço-tempo de Ivan Barasnevicius

PAISAGEM SONORA, PELAS MÃOS DO GUITARRISTA EUDES CARVALHO

13 fevereiro, 2016
A palavra soundscape, de origem inglesa, refere-se a um dos elementos da ambientação acústica. O termo foi criado pelo compositor e ambientalista canadense Murray Schafer, cuja ideia consiste, em resumo, na percepção dos sons naturais, nas expressões sonoras dos seres vivos e os sons originados pela indústria tecnológica; enfim, tudo que pode ser sensibilizado pelo ouvido humano. A definição do termo foi padronizada pela ISO (International Organization for Standardization) em 2014.

Eudes Carvalho, guitarrista, violonista e compositor, protagoniza essas formas sonoras com o lançamento de seu primeiro álbum solo, Paisagem Sonora.
Natural de Brasília, iniciou na música ainda adolescente guiado pelo som do rock, da mpb e do pop, mas foi na Escola de Música de Brasília que descobriu o jazz e fez dele seu principal meio de expressão. Mestre pela própria universidade, partiu para a América e ingressou na University of Louisville, motivado por um programa de intercâmbio do governo brasileiro, e lá teve a oportunidade de estudar ao lado de Eddie Gomez, Lionel Loueke e Jamey Aebersold, entre outros.
Eudes também é integrante do grupo BeJazz.


Com pleno domínio da linguagem do jazz e com registro bem clean da sua guitarra, Eudes Carvalho apresenta em Paisagem Sonora um repertório de 11 composições, 7 autorais, em que mostra a força do nosso instrumental contemporâneo nos temas "Seu Olhar", "Amanhã" e "O Prazer de Viver" (Eudimar Braga, Eudes Carvalho); e nas belíssimas baladas "Saudade", "Novembro" (Naiara Lima) e "Bye Bye Brasilia" (Paulo André Tavares). O traço jazzístico aparece forte em "Avenida Sucupira", "SG4" e "4th St"; carrega o blues a la Wes em "Terça na Pinguela" (Jonathan Gardner); e traz um ar mineiro em "Minha Fotografia da Serra Dourada" (Hamilton Pinheiro).
Um belo registro da nossa música instrumental, em que Eudes Carvalho traz ao seu lado o contrabaixista Oswaldo Amorim, o pianista Misael Silvestre e o baterista Pedro Almeida.

Com a palavra, Eudes Carvalho -

O quanto é desafiador lançar um álbum de música instrumental por aqui?
Lançar um disco instrumental no Brasil é um desafio gigantesco, quem já viveu isso sabe do que estou falando. Este desafio começa na captação de recursos financeiros, e se estende por todo o processo - desde a gravação até a prensagem do CD e durante a divulgação e lançamento do trabalho, fase esta na qual me encontro no momento. Neste trabalho contei com a ajuda de muitos amigos e de pessoas que realmente acreditaram no meu som. Tenho que ressaltar  também a importância da Secretaria de Cultura e do Fundo de Amparo a Cultura do Distrito Federal (FAC-DF); fui contemplado no Edital Cassia Eller e isto me ajudou na captação de recursos financeiros para a realização do projeto.

Fale um pouco sobre os músicos que o acompanham no álbum.
São grandes amigos e a participação deles na gravação deu um toque especial. O responsável pelos pianos, Misael Silvestre, é um grande músico da cidade e possui uma forma pessoal de tocar e se expressar; na bateria, Pedro Almeida trouxe toda a fluência musical que possui, o que ajudou na construção da concepção do trabalho; e Oswaldo Amorim no contrabaixo acústico, intitulado entre os melhores contrabaixistas do Brasil, músico ativo no cenário musical brasiliense, foi meu professor na Escola de Música de Brasília e teve papel fundamental na minha formação musical.


O jazz se tornou predominante na sua formação. Que influências você carrega na sua música?
Eu tive meu primeiro contato com a música por volta dos 16 anos ouvindo rock e mpb, mas foi na Escola de Música de Brasília (EMB) por influência do professor Genil de Castro que descobri o jazz e comecei a me dedicar ao estilo. Mais pro fim do curso na EMB, tive contato com outro músico aqui de Brasília muito importante na minha formação chamado Paulo André Tavares, ele trouxe o lado do violão brasileiro me apresentando músicos como Toninho Horta, Hélio Delmiro e Lula Galvão. As minhas principais influências são os grandes músicos de jazz como Bill Evans, Jon Coltrane e Miles Davis, mas não posso deixar de lado músicos brasileiros como Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Victor Assis Brasil, Milton Nascimento e Toninho Horta, que sempre me fascinaram com suas composições. Sobre os guitarristas de jazz sempre me chamou muita atenção aqueles que tocam com guitarras acústicas ou artchops estilo 175 ou L5. Acredito que, principalmente, por causa da sonoridade clássica da guitarra jazz. Os mais importantes na minha formação são Wes Montgomery, Jim Hall, George Benson e Pat Metheny, sendo que ultimamente tenho ouvido muito Peter Bernestein e Lage Lund.

Muito importante ter composições próprias, é a veia criativa em processo de transformação.
Como você trabalha o processo de composição?
Grande parte das minhas composições acontecem quando estou praticando. Geralmente a composição nasce a partir de algum motivo melódico, rítmico ou sequencia harmônica que chama a  minha atenção. A partir disso começo  a desenvolver a composição, realizo diferentes harmonizações para a mesma melodia até chegar a uma combinação que soe bem aos meus ouvidos. Procuro então, uma forma para a composição que me agrade e escrevo na partitura. Ao ouvir o trabalho, as pessoas mais acostumadas a ouvir musica instrumental e jazz vão perceber que algumas das composições possuem os formatos clássicos de standards de jazz. Além da consagrada forma AABA, algumas composições possuem o formato dos standards de jazz de 32 compassos ou do blues de 12 compassos; em outras faixas eu simplesmente optei em não seguir forma alguma deixando a música acontecer, realizando assim uma mistura de compassos e formas.

Que equipamentos usou nessa sessão de gravação?
Eu utilizei basicamente duas guitarras - uma Ibanez AF 105 com ponte de madeira e uma Gibson 175. Em uma das faixas gravei com um violão Godin Grand Concert Duet Ambiance, Sobre efeitos, utilizei um reverb Holy Grail da Electro Harmonix e em algumas faixas um delay Kronos da Fire. Utilizei amplificadores Fender e Roland.

Obrigado Eudes Carvalho, e sucesso.

Você encontra o álbum Paisagem Sonora nas principais plataformas digitais como iTunes, Google Play, Amazon. O disco físico pode ser adquirido entrando em contato direto com Eudes pelo site www.eudescarvalho.com

A NOVA ONDA DO VIOLINO: ZACH BROCK

10 janeiro, 2016
Instrumento de origem clássica, o violino ampliou sua fronteira no século passado e se inseriu no jazz em várias formas. Desde Stuff Smith, violinista da era do swing, ao Quintette du Hot Club de France liderado por Stephane Grapelli ao lado do guitarrista Django, que o instrumento vem ganhando novos rumos; e Grapelli, sem dúvida, tornou-se uma referência e influenciou as gerações seguintes, por sorte muita criativa, que deram nova textura ao movimento do jazz que insistia em se transformar e formar novos públicos. Na passagem dos anos 60 para os 70, o instrumento ganhou destaque nos nomes de Jerry Goodman, Jean-Luc Ponty e Zbigniew Seifert, que inflamaram a febre do jazz-rock nesse período. Mais tarde surgiram os nomes de Didier Lockwood, Daror Anger, Christian Howes, Nigel Kennedy e Regina Carter, entre outros, cada um na sua própria onda - do experimental ao jazz.


O contemporâneo violinista Zach Brock mantém esse legado, com o aval de Ponty, que não teve dúvidas ao citar o nome de Brock quando questionado pelo baixista Stanley Clarke sobre quem se destacava no instrumento no cenário atual.
Brock cresceu na cidade de Lexington, Kentucky, e começou o estudo do violino aos 4 anos de idade. Quase perdeu a vida ao ser atropelado quando andava de bicicleta, o que o levou a uma lenta recuperação deixando-o fisica e emocionalmente instável e sem estima pela vida e pela música. Mas ainda assim tinha o violino como uma válvula de escape enquanto recuperava-se na casa de seus pais.

Seu interesse pelo jazz o fez mudar-se para New York em 2005. Tomando gosto pelo violino de 5 cordas, instrumento transformado na onda do jazz-rock, recebeu de Stanley Clarke um vital conselho para que focasse no instrumento de 4 cordas, o padrão desde o século 16 quando o mesmo foi criado. Outras grandes inspirações de Brock são o guitarrista Pat Martino, que foi seu professor e quem o ensinou a se tornar mais expressivo com o instrumento e ser um verdadeiro líder de grupo, e o pianista Phil Markowitz, que mostrou a ele como compor fazendo a fusão do jazz com o clássico. Com Markowitz, gravou o álbum "Perpetuit" (2014), que contou com os baixistas Jay Anderson e Lincoln Goines, o baterista Obed Calvaire e o percussionista brasileiro Edson "Café".

Almost Never Was Serendipity Purple Sounds

Pela gravadora Criss Cross, lançou três álbuns geniais - "Almost Never Was" (2012), ao lado de Aaron Goldberg, Matt Penman e Eric Harland; "Purple Sounds" (2014), em uma referência aos trabalhos de violinistas com guitarristas na era jazz-rock, em que se destacam Ponty e Seifert, convidando o guitarrista Lage Lund ao lado de Matt Penman e Obed Calvaire; e "Serendipity" (2015), novamente com Goldberg, Penman e Harland, em um repertório que visita Ponty, Charlie Parker e Leonard Bernstein, além de temas autorais.


www.zachbrock.com/