MUTHSPIEL, GRENADIER E BLADE

28 julho, 2014
Driftwood
Brilhante o trabaho do trio liderado pelo guitarrista e violonista austríaco Wolfgang Muthspiel, ao lado do contrabaixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade - Driftwood.
Com uma ampla discografia, Muthspiel já realizou outros projetos com Blade e Grenadier, como em "Air, Love and Vitamins" (2004) e o ousado duo "Friendly Travelers" (2007) ao lado de Blade, e em "Drumfree" (2011) com Grenadier.

Driftwood é o primeiro registro do trio junto e a estréia do guitarrista na gravadora ECM, e o resultado foi espetacular, carregando a característica da atmosfera da gravadora.
São oito composições e Muthspiel alterna no violão acústico e guitarra realizando passagens melódicas ("Uptown" e "Madame Vonn"), instrospectivas ("Cambiata") e um tanto experimental ("Lichzele"e "Highline"), além das belíssimas homenagens para Joe Zawinul ("Joseph") e Michael Brecker ("Bossa for Michael Brecker").
Sobre este trabalho, Muthspiel afirma que quis realçar e ampliar o horizonte da guitarra e ao mesmo tempo aproximar as possibilidades de contraponto de um trio de piano.
Ouça aqui : player.ecmrecords.com/wolfgang-muthspiel--driftwood

Wolfgang Muthspiel nasceu na pequena cidade de Judenburg, Austria, em 1965. Começou estudando violino aos 6 anos e aos 15 abraçou a guitarra. Aos 21 anos partiu para a América, Boston, para estudar na New England Conservatory com o guitarrista Mick Goodrich. Mais tarde foi para Berklee onde gradou-se em 1989 com o título "Magna Cum Laude", com honras. E lá encontrou Gary Burton, que o convidou para integrar seu quinteto, vaga que foi ocupada por Pat Metheny 12 anos antes. Partiu para NY, onde morou entre 1995 e 2002. Junto com seu irmão, o pianista Christian Muthspiel, criou o selo Material Records.

"Wolfgang Muthspiel é uma luz brilhante da geração da guitarra Jazz contemporânea."
(The New Yorker)


OZ NOY LANÇA O SEGUNDO VOLUME DE TWISTED BLUES

17 julho, 2014
Oz Noy

"Se voce não entende o Blues, acho que o que voce está tocando não soará tão bem. É um vocabulário que voce tem que ter se quiser tocar qualquer coisa."

Assim explica o guitarrista Oz Noy, sobre o album Twisted Blues Volume 2.

Seguindo a mesma linha do primeiro volume, pegadas Rock, Blues e Funk predominam neste trabalho, e com convidados muito ilustres em cada uma das 10 faixas do album. Oz Noy está acompanhado por uma super seção rítmica invocada com os baixistas Will Lee e Roscoe Beck, os bateristas Chris Layton, Dave Weckl e Keith Carlock, e os organistas Reese Wynans e Jerry Z. Ainda Lew Soloff no trompete e o multi-instrumentista Giulio Carmassi na flauta.

E Oz Noy traz uma lista de convidados mais que especiais, que inclui Eric Johnson, Warren Haynes, Gregroire Maret, John Medeski, Allen Toussaint e Chick Corea, em uma verdadeira mistura de tendências que deram um colorido todo especial neste album.

E o que não faltou foi o bom groove, que se destaca nos temas "You Dig", reforçada com um super riff de funky-blues e a participação do slide de Greg Leisz; em "Just Groove Me", que traz Dave Weckl nas baquetas; e "Get Down". Uma inspiração em Stevie Wonder vem no tema "Let Your Love Come Down" e o auxílio luxuoso da harmônica de Gregroire Maret.
Ainda, mais Blues no melhor estilo texano em "Blue Ball Blues" e como convidado Warren Haynes; em "EJ Blues" colocou a assinatura de Eric Johnson; e o piano de Allen Toussaint em "Slow Grease".
Chick Corea ataca de rhodes em "Rumbha Tumba". E fechando o album uma verdadeira jam com um frenético John Medeski como protagonistao em "Freedom Jazz Dance".


oznoy.com/

Leia também sobre Oz Noy -

Oz Noy: É Jazz, mas não soa como

O VAZIO QUE VAI DEIXAR O CONTRABAIXISTA CHARLIE HADEN

14 julho, 2014

Não tem como não registrar algumas palavras sobre o contrabaixista Charlie Haden, que nos deixou aos 77 anos. Uma trajetória musical como poucos realizaram, e deixa um legado importante para os amantes do instrumento e da boa música. Eu o tinha como um poeta do instrumento, tendo a oportunidade de assistí-lo na edição 2006 do saudoso Tim Festival.

Comecei a ouvir Haden de verdade com seu Quartet West, grupo que também trazia o saxofonista Ernie Watts e o pianista Alan Broadbent, registrado nos albuns Haunted Heart (1992), Always Say Goodbye (1993) e Now is the Hour (1995), estes que jamais pararam de rodar por aqui.
No lançamento de Beyound the Missoury Sky (1996), em duo com Pat Metheny, estava ali mais um registro histórico, de beleza musical ímpar, e que deu a Haden seu primeiro Grammy em 1997. Haden já havia gravado com Metheny nos albuns 80-81 (1980), Rejoicing (1984) e Song X (1986), em formações variadas. Aliás, Song X, pra mim, foi uma porta de entrada para o universo da música livre, a qual Haden foi um dos pioneiros quando participou do album Free Jazz:A Collective Improvisation (1961), sob a liderança de Ornette Coleman com dois quartetos tocando ao mesmo tempo, um em cada canal - Haden estava em um deles ao lado de Freddie Hubbard, Eric Dolphy e Ed Blackwell, um album que só consegui perceber, e entender, musicalmente mais tarde.
A série de concertos ao vivo em Montreal foi outro marco de Haden, sessões registradas na edição do festival em 1989 em formação de trio, que teve o piano de Geri Allen e Gonzalo Rubalcaba, ambos com o baterista Paul Motian, e o ousado trio com o trompetista Don Cherry e novamente Ed Blackwell numa sessão incendiária sem instrumento harmônico de base.

Haden também fez belos trabalhos com nosso Egberto Gismonti, como o duo registrado ao vivo em Montreal (2001); o trio Mágico, que também trazia o sax de Jan Garbarek, no album homônimo lançado em 1979 e no registro perdido de uma apresentação em Munique no ano de 1981, Carta de Amor, lançado recentemente.
E o mestre também estava ao lado de Michael Brecker em Don't Try This at Home (1988) e o belíssimo Nearness of You: The Ballad Book (2000); com David Sanborn em Another Hand (1991); com John Scofield em Time on My Hands (1989) e Grace Under Pressure (1991); e no Blues com James Cotton em Deep in the Blues (1995).
E tem que destacar os registros com o pianista Keith Jarrett, com quem Haden talvez tenha mais gravado e com quem fez recentemente dois albuns sensacionais em duo - Jasmine (2010) e Last Dance (2014).

Enfim, em muito que eu ouvia, e ainda ouço, tem o contrabaixo de Charlie Haden desenhando melodias, walkings e improvisos. Vai deixar uma imensa lacuna no Jazz e na Música.

Charles Edward Haden nasceu na cidade Shenandoah, Iowa, em 6 de agosto de 1937.

Charlie Haden : 1937-2014

EDIÇÃO 2014 DO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES PROMOVE CONCURSO DE BANDAS

09 julho, 2014
O Rio das Ostras Jazz & Blues lança seu primeiro Concurso de Bandas, abrindo espaço para grupos de Jazz, Blues e Música Instrumental.
O vencedor será premiado com a apresentação de duas músicas autorais no palco principal na noite do dia 16 de agosto. Além disso, a banda vencedora tem presença garantida na edição de 2015.
O objetivo do concurso é abrir espaço para os músicos do Rio de Janeiro e a competição vai movimentar a cidade do Jazz, já que a população e os turistas poderão prestigiar apresentações de qualidade entre os dias 12 e 14 de agosto, período entre os dois finais de semana da programação principal.
Poderão se inscrever bandas do estado do Rio de Janeiro que sejam formadas por três a sete integrantes. Para a inscrição, os candidatos devem preencher a ficha disponível no site da Prefeitura de Rio das Ostras e enviar junto um CD contendo três músicas, sendo duas autorais e uma cover, dentro da proposta de gênero do grupo. O material deve ser entregue até 31 de julho via Correios ou diretamente na sede da Secretaria de Turismo de Rio das Ostras - Praça Prefeito Cláudio Ribeiro s/nº, Extensão do Bosque; e na Fundação de Cultura - Praça São Pedro 109, Centro.
Ao todo, serão 18 grupos selecionados por uma equipe técnica composta por cinco jurados. Seis bandas se apresentam por dia nos dias 12, 13 e 14, em shows de 18 minutos. Serão observados pelo júri os quesitos interação, letra em português ou inglês, melodia, harmonia, ritmo, criatividade, performance e a impressão geral dos jurados. O edital está disponível no site da prefeitura e na página do festival.
Mais informações pelo telefone da organização (22) 99819-6969.

E, como sempre, esta 12º edição do festival promete. O evento será realizado em 2 finais de semana do mês de agosto - dias 8, 9, 10 e 15, 16 e 17. Serão mais de 60 horas de música em mais de 30 shows gratuitos espalhados pelos quatro palcos da cidade - Praça São Pedro, Lagoa de Iriry, Praia da Tartaruga e o palco principal de Costazul.

Na programação deste ano, o Jazz contemporâneo com o baixista Marcus Miller e o trompete de Randy Brecker; a voz imponente de Al Jarreau, em um passeio por várias tendências; a fusão Jazz-Rock do power trio HBC formado por Billy Cobham, substituindo Dennis Chambers que não poderá vir por problemas de saúde, Scott Henderson e Jeff Berlin; o Blues na guitarra de Larry McCray e na harmônica de Rick Estrin & The Nightcats; e o peso Blues-Rock do guitarrista Popa Chubby.
No elenco nacional, Taryn Szpilman a frente da Rio Jazz Orquestra e um convidado muito especial - o guitarrista Toninho Horta; o violão de Badi Assad ao lado do percussionista Marcos Suzano; o sopro de Carlos Malta; e a guitarra incendiária de Pepeu Gomes.
E algumas novidades por aqui como o Funk holandes da The Jig, a onda Zydeco de Rockin Dopsie Jr e o cantor e violonista Raul Midón.


Confira a programação -

8 de agosto, sexta-feira
Costazul, 20h : Orquestra Kuarup; Carlos Malta e Pife Muderno; Marcus Miller; Pepeu Gomes

9 de agosto, sábado
Praça São Pedro, 11h15 : Duca Belintani
Iriry, 14h15 : Pepeu Gomes
Tartaruga, 17h15 : Marcus Miller
Costazul, 20h : Afro Jazz; Larry McCray; Raul Midón; Rick Estrin & The Nightcats

10 de agosto, domingo
Praça São Pedro, 11h15 : Angelo Nani
Iriry, 14h15 : Rick Estrin & The Nightcats
Tartaruga, 17h15 : Raul Midón

15 de agosto, sexta-feira
Costazul, 19h30h : Adriano Grineberg; Badi Assad e Marcos Suzano; The Jig; Randy Brecker; Popa Chubby

16 de agosto, sábado
Praça São Pedro, 11h15 : Zuzo Moussawer Trio
Iriry, 14h15 : Popa Chubby
Tartaruga, 17h15 : Randy Brecker
Costazul, 20h : Taryn, Rio Jazz Orquestra e Toninho Horta; HBC; Al Jarreau; Rockin' Dopsie Jr & Zydeco Twisters

17 de agosto, domingo
Praça São Pedro, 11h15 : Glaucus Linx & Ancestrais Fututros
Iriry, 14h15 : Rockin' Dopsie Jr & The Zydeco Twisters
Tartaruga, 17h15 : HBC

O evento também poderá ser assistido em tempo real pela web, iniciativa de muito sucesso disponibilizada na edição do ano passado e que teve acesso em mais de 39 países, com maior número dos Estados Unidos, seguido da Argentina, Japão, França e Portugal.
Ainda, um aplicativo para smartphone e tablet para que o público possa acompanhar todos os detalhes da programação, artistas e dados turísticos de Rio das Ostras, disponível na Apple Store e Google Play.

O Rio das Ostras Jazz & Blues é realizado pela Prefeitura Municipal de Rio das Ostras, por meio da Secretaria de Turismo, com produção da Azul Produções; é patrocinado pela Lei de Incentivo da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e conta com apoio cultural da Odebrecht, da Vallourec e da Caixa Econômica Federal.
http://www.riodasostrasjazzeblues.com/

HIROMI ALIVE

02 julho, 2014
Hiromi é ousada, empolgante, criativa e faz música com muita emoção. É a minha pianista preferida !

Alive é o nono album de sua discografia, lançamento Telarc, e o terceiro gravado ao lado do baixista Anthony Jackson e do baterista Simon Philips, o The Trio Project, grupo que, apesar de junto há apenas 4 anos, já tem uma identidade própria, resultado de uma química perfeita de integração e conjunto, e que foi citado pela DownBeat como um dos mais excitantes nessa formação em atividade hoje.

Sobre o album, Hiromi afirma que ele tem um duplo significado, pois ela queria escrever temas que fossem ao encontro com as coisas e emoções que encontramos na vida; e a palavra "Alive" pode também significar tocar com vida.
O album foi gravado ao vivo no estúdio, sem overdubs.

A intensidade das composições se mantém em todo o album, 9 temas com muitas passagens criativas.
Destaque para "Wanderer", que alterna dinâmica e vibração desenhados pelas mãos de Hiromi e um Anthony Jackson empurrando um invocado walking suportado pelos pratos de Simon Philips; e "Player", cujo tema inicia com uma cadência tradicional seguido por um frenético uptempo.
"Warrior" é outro tema denso, iniciado como balada e que ganha intensidade, e aí percebemos como o trio está em perfeita sintonia. Ainda tem espaço para duas belíssimas baladas, a melódica "Firefly", em interpretação solo; e "Spirit", em que Hiromi coloca uma roupagem clássica e dá espaço para o improviso de Anthony Jackson. O album fecha com a empolgante "Life Goes On".

Hiromi é categórica em suas palavras - "Minha habilidade de ouvir melhora a cada dia. Com o passar dos anos, aprendi como ouvir mais cuidadosamente, e responder musicalmente para o que está acontecendo no momento. Isso é o que faz meu trio brilhar como um time."


hiromimusic.com/

Leia também -

Hiromi: Move

DOWNBEAT CRITICS POLL 2014

24 junho, 2014

A cantora e compositora Cécile McLorin Salvant foi a grande revelação da edição 62 da Downbeat Critics Poll. Cecile foi premiada em 4 categorias - album do ano pelo trabalho Woman Child (Mack Avenue), destaque vocal feminino, e na seção de artistas em ascensão como revelação do Jazz e novamente como vocal feminino.

Para Frank Alkyer, editor da Downbeat, este foi um ano formidável para as vozes do Jazz - outro nome de destaque foi Gregory Porter.
Maria Schneider também foi outra grande premiada nesta edição nas categorias Big Band, Compositora e Arranjadora.
Ainda, a inclusão do guitarrista Jim Hall no Downbeat Hall of Fame, e os nomes do guitarrista Peter Bersntein e do saxofonista Wayne Scofery nos artistas em ascensão, dois músicos que sempre gostei muito.

Nesta edição foram 62 categorias premiadas e mais de 1200 artistas listados. A lista completa será publicada na edição de agosto da Downbeat.



Confira a lista  -

Hall of Fame: Jim Hall 
Veterans Committee Hall of Fame: Dinah Washington 
Veterans Committee Hall of Fame: Bing Crosby 
Jazz Artist: Gregory Porter
Jazz Album: Cécile McLorin Salvant, WomanChild (Mack Avenue)
Historical Album: Miles Davis, Miles At The Fillmore 1970 The Bootleg Series Vol.3 (Columbia/Legacy)
Jazz Group: Wayne Shorter Quartet 
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Ambrose Akinmusire
Trombone: Wycliffe Gordon
Soprano Saxophone: Jane Ira Bloom
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Joe Lovano 
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Vijay Iyer 
Keyboard: Robert Glasper 
Organ: Lonnie Smith
Guitar: Bill Frisell
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke 
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibraphone: Gary Burton 
Percussion: Hamid Drake 
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Male Vocalist: Gregory Porter
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant 
Composer: Maria Schneider 
Arranger: Maria Schneider 
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Buddy Guy
Blues Album: Buddy Guy, Rhythm & Blues (RCA/Silvertone)
Beyond Artist or Group: Robert Glasper Experiment
Beyond Album: Robert Glasper Experiment, Black Radio 2 (Blue Note)

Rising Stars

Jazz Artist: Cécile McLorin Salvant
Jazz Group: 3 Cohens 
Big Band: Ryan Truesdell Gil Evans Project
Trumpet: Jonathan Finlayson
Trombone: Vincent Gardner
Soprano Saxophone: Tia Fuller
Alto Saxophone: Jaleel Shaw
Tenor Saxophone: Wayne Escoffery
Baritone Saxophone: Colin Stetson
Clarinet: David Krakauer
Flute: Holly Hofmann
Piano: Fabian Almazan
Keyboard: Marc Cary
Organ: Brian Charette
Guitar: Peter Bernstein
Bass: Avishai Cohen
Electric Bass: Derrick Hodge 
Violin: Eyvind Kang
Drums: Rudy Royston
Vibraphone: Matt Moran
Percussion: Pedrito Martinez
Miscellaneous Instrument: Wycliffe Gordon (tuba)
Male Vocalist: Ed Reed
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant
Composer: Ben Allison
Arranger: Ryan Truesdell
Producer: Terri Lyne Carrington

downbeat.com/

Leia também as postagens aqui publicadas sobre Cécile McLoren Salvant e Gregory Porter -

A Voz e o Swing de Cécile McLoren Salvant O Soul e o Jazz na voz de Gregory Porter

MORRE HORACE SILVER AOS 85 ANOS

19 junho, 2014
fonte : Peter Keepnews, NY Times

O pianista Horace Silver, um dos mais influentes dos anos 50 e 60 e um dos protagonistas do movimento Hard Bop, morreu nesta quarta-feira, 18 de junho, aos 85 anos em sua casa em New Rochelle, NY.

Horace Silver começou liderando seu próprio grupo em meados de 1950, e rapidamente ganhou evidência por suas composições e pelo seu toque bluesy. Silver era um pianista que enfatizava a simplicidade melódica sobre harmonias complexas, e tinha em seu improviso uma sofisticação ímpar.

Horace Ward Martin Tavares Silver nasceu em 2 de setembro de 1928 em Norwalk, Connecticut.  Embora tenha iniciado o estudo do piano ainda criança, começou sua carreira profissional como saxofonista, retornando ao piano e sendo descoberto por Stan Getz, para quem trabalhou nos anos 50.
Assim ele descreve - “Eu tocava em um bar em Hartford e um dia Stan Getz chegou para tocar com meu grupo e disse que iria nos chamar para tocar com ele, mas eu não levei muito a sério. Algumas semanas depois ele me ligou e convidou o meu trio para se juntar a ele.”
Silver mudou-se para NY em 1951 e logo foi convidado para tocar com outros gigantes como Coleman Hawkins e Lester Young. Em 1953, formou com o baterista Art Blakey os Jazz Messengers, definindo o que viria se transformar no Hard Bop. Após dois anos, assinou com a gravadora Blue Note e deixou o grupo na liderança de Blakey, formando seu próprio quinteto, que tinha os sopros de Blue Mitchel e Junior Cook.
Assim como Blakey e Miles, Horace Silver tinha o dom de descobrir novos talentos, como os saxofonistas Hank Mobley, Joe Henderson e Michael Brecker, os trompetistas Art Farmer, Woody Shaw, Tom Harrell e Dave Douglas, e os baterista Louis Hayes e Billy Cobham.

Em 2005, Horace Silver recebeu da National Academy of Recording Arts and Sciences (NARAS) o título de President’s Merit Award (NARAS é uma organização de músicos, produtores e engenheiros de gravação dedicada a melhorar a qualidade de vida e condição cultural para a música)
Teve sua autobiografia registrada em "Let's Get to the Nitty Gritty: The Autobiography of Horace Silver", lançada pela University California Press.

Horace Silver gravou álbuns célebres como "Tokyo Blues" e "Song for my Father", meus preferidos, entre outros de sua extensa discografia.
A histórica foto de Art Kane - "Um grande dia no Harlem" - perde mais um grande músico.

"Sou um abençoado por estar ao lado e tocar com muitos dos grandes gênios desta música que apaixonadamente chamamos de Jazz. Espero que eu possa inspirar muitos dos jovens de hoje como esses músicos me inspiraram." - Horace Silver : 1928-2014

NEXT COLLECTIVE: OS NOVOS YOUNG LIONS

11 junho, 2014
Next Collective
O grupo Next Collective traz os young lions do Jazz contemporâneo juntos no album Cover Art, lançamento Concord Records.

Um privilégio contar com Ben Willians contrabaixo, Gerald Clayton piano, Walter Smith e Logan Richardson nos sopros, Matthew Stevens guitarra, Kris Bowers no Rhodes, Christian Scott no trompete e Jamire Williams bateria.
A iniciativa é do produtor Chris Dunn, que já produziu albuns de Christian Scott, Ben Willians, Kurt Elling e o quinteto Ninety Miles.
Dunn afirma que este trabalho começou como um meio de introduzir os novos artistas da gravadora, como Walter Smith e Matthew Stevens, que vem de diferentes estilos quando atuando como líder de grupo.

Apesar da proposta Jazz do album, os temas tem origem longe deste universo - D'Angelo (Africa), Meshell Ndegeocello (Come Smoke My Herb), Jay-Z (No Church in Wild), Stereolab (Refractions in the Plastic Pulse) e Pearl Jam (Oceans) são interpretados com uma roupagem bastante interessante e, com certeza, vai agradar os ouvidos mais exigentes. Aliás, essa é uma fórmula que dá certo e muito aplicada por nomes como The Bad Plus, Rachel Z, Jacob Karlson e muitos do mundo jazzístico.
Além da presença de Christian Scott, que faz uma interpretação quase bucólica do tema Marvin´s Room (Drake), tem que destacar o guitarrista Matthew Stevens, também integrante do quinteto de Scott, com uma linguagem moderna de fraseado e timbre, seguindo a linha dos seus contemporâneos residentes na big apple. Stevens recebeu a maior honra do departamento de guitarra da Berklee School.
Ainda Ben Willians, hoje integrante da Unity Group de Pat Metheny; e Gerald Clayton, filho do contrabaixista John Clayton, que vem se mostrando uma das grande revelações do piano.

Vale conferir !


nextcollectivemusic.com/

HOLLAND, GARRETT E SNARKY PUPPY CONTAGIAM A EDIÇÃO CARIOCA DO BMW

03 junho, 2014
Kenny Garrett
foto : Vinicius Pereira (Jornal do Brasil)

Não foi a melhor edição do maior evento de Jazz da capital carioca, mas trouxe, como sempre, atrações de peso e que, sem a menor dúvida, sensibilizou os amantes da boa música a irem até o Vivo Rio.
A noite de sábado abriu inspirada com o trio do contrabaixista Dave Holland, cuja expectativa era a apresentação do quarteto Prism, album homônimo lançado ano passado  e que foi assunto aqui.
As ausências do guitarrista Kevin Eubanks e do baterista Eric Harland, integrantes originais do quarteto, não tiraram o brilho da apresentação, e Holland ao lado do baterista Obed Calvaire e do pianista Craig Taborn, que chamou pra si a responsabilidade de preencher o espaço deixado pela guitarra de Eubanks.  O repertório do album Prism conduziu a apresentação, e Holland realmente muito à vontade, um gigante, esbanjou técnica em pontuações solo e teve ao lado um Taborn em noite inspirada, explorando o piano acústico e o Rhodes nos temas "Evolution", "The Meaning of Determination", "Breathe" e "The Watcher", esta que teve um diálogo empolgante entre Holland e Calvaire. Um super show e a noite de Jazz se encerrou aí !

A noite de domingo prometia com a abertura do pianista Ahmad Jamal, sempre escoltado pelo contrabaixista James Camack e, nesta apresentação, com o baterista Ben Riley e a adição do percussionista Manolo Bradena. É fato que Jamal não é o mesmo dos velhos discos, com aquela liberdade contagiante nas improvisações; mas sem dúvida é uma das lendas vivas do Jazz. Vale destacar a interpretação do tema "Poinciana".

E a noite ferveu quando Kenny Garrett subiu ao palco de forma arrasadora, em uma apresentação contagiante.
Acompanhado por Vernell Brown piano, Corcoran Holt contrabaixo, McClenty Hunter bateria e Rudy Bird percussão, Garrett apresentou um mainstream frenético, fez improvisações livres, colocou cadências latinas, vibrações coltraneanas, África, psicodelia, ritmo, tudo em uma intensidade absurda e ainda com direito a citações de Brown para It Don´t Mean a Thing (Ellington) e do líder para St.Thomas (Rollins). Até o gongo na parafernália percussiva de Bird soou original em um tema de fazer "pirar a cabeça" de muita gente.
Ao final, deixou rolar uma temática funky, puxou a platéia nas palmas e fez um final apoteótico, colocando todo mundo junto com a banda. Simplesmente sensacional !

A noite fechou com a garotada do Snarky Puppy, não à toa uma das grandes revelações do cenário musical contemporâneo. O grupo é originado do Brooklin, NY, e faz uma fusão contagiante do Jazz, do Funk e do Rock. Liderado pelo baixista Michael League e o pianista Bill Lawrence, a super banda ainda trouxe na formação o excelente tecladista Corey Harris, Chris Mcqueen na guitarra, Mike Maher no trompete, Justin Stanton revezando-se no trompete e teclados, Chris Bullock no tenor e flauta, Nate Werth percussão e Robert Searight na bateria.
No repertório, o album "We Like It Here", com destaque para os temas Lingus e What About Me; e League aproveitou para contar histórias, pontuou improvisos a la Jaco e, no ritmo de baião do tema "Tio Macaco", chamou ao palco o percussionista Bernardo Aguiar, que representou com maestria a nossa percussão com direito a um diálogo improvisado com Nate Werth e uma citação de "Asa Branca" na pele do pandeiro.
Um grupo fantástico, sem dúvida uma inspiração da atmosfera musical novaiorquina.

Ano que vem tem mais !

A CRIATIVIDADE NAS MÃOS DO GUITARRISTA MICHEL LEME

27 maio, 2014
Há dois elementos base quando falamos de Inovação - a Criatividade, o ato de criar; e a Aplicação, o ato de usar. Inovar tornou-se um mantra da modernidade, a palavra de ordem em um mundo onde a velocidade e volume de informação são cada vez mais intensos, e para processarmos todo esse conteúdo é necessário muita disciplina, atenção e dedicação.

Michel LemeA Música é um universo perfeito para se explorar a criatividade, a fluência das ideias em tempo real, o improviso, o improvável.

O guitarrista Michel Leme é, sem dúvida, um dos mais criativos e atuantes músicos em atividade. A guitarra é sempre protagonista e Michel constrói sua trajetória musical sem se prender a rótulos ou qualquer segmentação de estilo.
O lançamento do DVD Arquivos Vol.1, seu segundo DVD, registra esse cenário. O trabalho traz vasto material gravado ao vivo em apresentações realizadas entre os anos de 2010 e 2013. São mais de 100 minutos de música e Michel está acompanhado por Bruno Migotto no baixo e Bruno Tessele na bateria, "Os Brunos", um super trio que está em sintonia desde 2008.

Um trabalho totalmente autoral e, além de muito improviso, composições dos albuns 5° (2010) e Na Hora (2013). Como o próprio líder afirma, é o primeiro registro "pirata-oficial", que, inicialmente, era para ser um acervo pessoal, mas que agora torna-se disponível para os amantes da guitarra.

Os registros foram captados no auditório da EM&T, Café Piu-Piu, Sesc Ipiranga e Mind Expanding Festival; e foram filmados com apenas uma câmera por Flávio Tsutsumi da Sho-You, mas com ótima qualidade de imagem e áudio. A arte gráfica é da Taty Catelan.

Na entrevista abaixo, Michel Leme compartilha um pouco das suas idéias sobre Criatividade na Música, sobre como pensá-la e a importância do prazer de ouvir o que a gente gosta.

Gustavo Cunha: Vamos falar do improviso, que é um produto da criatividade, o resultado de ideias que surgem em tempo real. Como voce trabalha a criatividade ?
Michel Leme: A criatividade é a zona do inexplicável, como o quarto no filme "Stalker" de Tarkovsky, por exemplo. Não tenho como falar sobre a criatividade em si, mas posso arriscar-me a falar do que está em torno dela, do que pode alimentá-la. Uma das coisas que faço é ficar em contato com o meu instrumento e ficar atento em relação a diferentes manifestações artísticas, para abrir a mente. Estas práticas vão garantindo que eu fique mais confiante, tranquilo, alimentado e concentrado. No mais, eu tento fazer a lição de casa que aprendo com os mestres, como Sonny Rollins, por exemplo, que diz: "antes de tocar eu tento manter a mente em branco". Conceitos assim me ajudam a focar no que realmente é importante. A questão talvez seja criar condições para a criatividade fluir.

GC: Teorias, escalas formatadas, licks, modos, etc. Muito se fala sobre, mas na hora real do improviso, com a forte dinâmica da Música pulsando, não há tempo para pensar nessas coisas, tem que deixar as mãos levarem. Você concorda com isso e, ainda, que toda nossa história, tudo que a gente ouviu e ouve, é expressado de alguma forma?
ML: Não só deixar "as mãos levarem", mas você como um todo precisa estar alerta e presente ao máximo na música que toca. É realmente um acúmulo de toda a sua história, como você diz, e mais - as coisas que você ama tocar, o que voce sente no momento, considerar o que seus amigos estão tocando ao seu lado, o que voce pratica em sua vida diariamente, enfim, não é algo vazio como “se parecer com” ou “vou tocar tal coisa ou fazer tal gesto para impressionar”. Esta arte demanda compromisso e verdade, porque é profunda e tem o poder de transformar.

GC: O que você pensa quando toca?
ML: A música tocada é o foco. Então, o que tento fazer é não me iludir ou me envolver com pensamentos que possam atrapalhar no momento. Tento ter a música que está sendo tocada como guia, sempre voltando a minha concentração para ela. Várias coisas passam pela mente, a mente não para, mas a concentração e tornar-se cada vez mais honesto são fatores que direcionam as suas escolhas para o que é mais elevado, lógico e prazeroso. E não adianta se concentrar ou querer ser correto apenas no momento de tocar; voce toca o que voce é. Então, menos hipocrisia e mais auto-observação. Vejo muita gente escrevendo e falando bonito por aí – e até usando coisas que eu disse em outras entrevistas, porque vivem do aplauso de seus bajuladores, mas, na hora de tocar, eles perdem a oportunidade de construir música com seus companheiros, porque estão focados em “construir uma carreira”, e, assim, só se prestam a destruir. Isso é muito comum, infelizmente, porque tem muita gente sem noção, sem ética, sem autocrítica, sem consciência de classe, sem elegância, apenas com pose de artista. O nosso potencial não é para ser jogado no lixo desta maneira. Não dá pra trocar a elevação que a música proporciona progressivamente por qualquer outra coisa. É um presente poder tocar, então há que se valorizar esta dádiva, cada vez mais.

GC: Está comprovado que o estudo musical tem importância significativa em nosso comportamento - disciplina, introspecção, entre outras qualidades. Você também é um educador. Que recado você deixa para os que aprendem Música ?
ML: Tenham critérios e coloquem a música em primeiro lugar. Isso é um bom princípio. A música tem a ver com o que há de mais elevado, portanto temos que merecer estar em contato ela.

GC: 3 discos por Michel Leme. 
ML: Tudo do Miles Davis Quintet (1964-1967); tudo de Sonny Rollins, Joe Henderson, Wayne Shorter, John Coltrane; tudo dos compositores clássicos que você ouvir falar sobre; tudo da música oriental que você puder ouvir; tudo da música brasileira que você sentir que é honesto e bom.
Sei que isso passa dos três discos, mas não temos limite de caracteres, certo?

Com certeza, Michel Leme. Não há limite de caracteres e não há limite para a Música.
Um super Obrigado pela entrevista, e Sucesso !



Arquivos-Vol.1 tem apoio cultural dos parceiros D Addario, EM&T, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria.Net, Rotstage, Sho-You e Tecniforte.

Para adquirir o DVD, envie e-mail para michel@michelleme.com
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Confira também o primeiro DVD de Michel Leme "Na Montanha" -

Michel Leme DVD Na Montanha