A NOVA ONDA DO VIOLINO: ZACH BROCK

10 janeiro, 2016
Instrumento de origem clássica, o violino ampliou sua fronteira no século passado e se inseriu no jazz em várias formas. Desde Stuff Smith, violinista da era do swing, ao Quintette du Hot Club de France, liderado por Stephane Grapelli ao lado do guitarrista Django, que o instrumento vem ganhando novos rumos; e Grapelli, sem dúvida, tornou-se uma referência e influenciou as gerações seguintes, por sorte muita criativa, que deram nova textura ao movimento do jazz que insistia em se transformar e formar novos públicos. Na passagem dos anos 60 para os 70, o instrumento ganhou destaque nos nomes de Jerry Goodman, Jean-Luc Ponty e Zbigniew Seifert, que inflamaram a febre do jazz-rock nesse período. Mais tarde surgiram os nomes de Didier Lockwood, Daror Anger, Christian Howes, Nigel Kennedy e Regina Carter, entre outros, cada um na sua própria onda - do experimental ao jazz.


O contemporâneo violinista Zach Brock mantém esse legado, com o aval de Ponty, que não teve dúvidas ao citar o nome de Brock quando questionado pelo baixista Stanley Clarke sobre quem se destacava no instrumento no cenário atual.
Brock cresceu na cidade de Lexington, Kentucky, e começou o estudo do violino aos 4 anos de idade. Quase perdeu a vida ao ser atropelado quando andava de bicicleta, o que o levou a uma lenta recuperação deixando-o fisica e emocionalmente instável e sem estima pela vida e pela música. Mas ainda assim tinha o violino como uma válvula de escape enquanto recuperava-se na casa de seus pais.

Seu interesse pelo jazz o fez mudar-se para New York em 2005. Tomando gosto pelo violino de 5 cordas, instrumento transformado na onda do jazz-rock, recebeu de Stanley Clarke um vital conselho para que focasse no instrumento de 4 cordas, o padrão desde o século 16 quando o mesmo foi criado. Outras grandes inspirações de Brock são o guitarrista Pat Martino, que foi seu professor e quem o ensinou a se tornar mais expressivo com o instrumento e ser um verdadeiro líder de grupo, e o pianista Phil Markowitz, que mostrou a ele como compor fazendo a fusão do jazz com o clássico. Com Markowitz, gravou o álbum "Perpetuit" (2014), que contou com os baixistas Jay Anderson e Lincoln Goines, o baterista Obed Calvaire e o percussionista brasileiro Edson "Café".

Almost Never Was Serendipity Purple Sounds

Pela gravadora Criss Cross, lançou três álbuns geniais - "Almost Never Was" (2012), ao lado de Aaron Goldberg, Matt Penman e Eric Harland; "Purple Sounds" (2014), em uma referência aos trabalhos de violinistas com guitarristas na era jazz-rock, em que se destacam Ponty e Seifert, convidando o guitarrista Lage Lund ao lado de Matt Penman e Obed Calvaire; e "Serendipity" (2015), novamente com Goldberg, Penman e Harland, em um repertório que visita Ponty, Charlie Parker e Leonard Bernstein, além de temas autorais.


www.zachbrock.com/

A IGOR PRADO BAND É NOMEADA PARA A PREMIAÇÃO DO BLUES MUSIC AWARDS

18 dezembro, 2015
A edição 37 do Blues Music Award, que acontecerá em maio de 2016 em Memphis, terá pela primeira vez um tempero brasileiro na cerimônia de premiação – a Igor Prado Band está nomeada com o álbum Way Down South na eleição de destaque entre novos artistas, em que também concorrem os guitarristas Eddie Cotton, Mighty Mike Schermer, Mr. Sipp e Slam Allen.


Mais que merecida essa nomeação, afinal o guitarrista Igor Prado é uma referência brasileira no assunto na terra do blues; e Way Down South já encabeçou o ranking da audição nas rádios de blues americanas de acordo com a publicação Living Blues.
O álbum foi lançado pela Delta Groove Music, e é dedicado a Lynwood Slim, que faleceu em agosto de 2014; o próprio está presente em 2 faixas do álbum, que foi seu último registro em estúdio.
Parabéns Igor Prado, Yuri Prado e Rodrigo Mantovani.

O evento Blues Music Awards é promovido pela Blues Foundation, fundada em 1980, e tem como objetivo preservar a herança do blues e garantir o futuro desta forma de arte americana que influencia artistas de todo o mundo. A premiação elege os destaques em 24 categorias, entre álbuns históricos e contemporâneos, vozes, instrumentistas, canção e se estende também à soul music, além de reverenciar prêmios a B.B. King, Koko Taylor e Pinetop Perkins. É um grande evento.
Para mais informações sobre o Blues Music Awards, acesse www.blues.org

Conheça o álbum Way Down South -

Way Down South

A LIVRE FORMA DAS GUITARRAS

12 dezembro, 2015
A guitarra no jazz é algo fascinante, está sempre se renovando e, principalmente, inovando. Vários nomes surgem no cenário a todo momento, cada um com estilo e técnica muito particulares, e o melhor é que não se deixam levar em copiar aqueles que tanto os influenciaram.
Julian Lage e Mary Halvorson são dois desses nomes que me chamam atenção há um bom tempo. Ambos já tem identidade própria e, alcançados um nível elevado de maturidade musical, registraram álbuns de guitarra solo muito interessantes.

World's Fair Meltframe

Julian Lage foi um dos integrantes da nova geração promovida pelo vibrafonista Gary Burton, este que sempre abriu espaço para guitarristas no início de suas carreiras como Larry Coryell e Pat Metheny. O álbum “Generations” (2004) foi uma grande vitrine para Lage, que mais tarde ainda viria a participar nos álbuns “Next Generation” (2005), “Common Groud” (2011) e “Guided Tour” (2013).
Lage, além da sua formação clássica, é formado pela Berkelee, o que lhe dá uma grandeza de vocabulário jazzístico, rico em harmonias e dinâmicas. Além de seus trabalhos como líder – "Sounding Point" (2009) e "Gladwell" (2011), registrou duos com os pianistas Taylor Eigsti e Fred Hersch, e com o guitarrista Nels Cline em uma abordagem totalmente livre.
World´s Fair (2015) revela Lage como mais que um músico puramente jazzista, explorando o instrumento acústico em improvisações livres com uma abordagem impecável, abrindo mão dos tradicionais standards e revelando um trabalho bastante original. Para ele, o resultado foi inspiração do violonista espanhol Andres Segovia.
Nessa sessão, Lage usou um Martin 000-18, sem overdubs; e no repertório 12 composições em que viaja por lugares como  “Peru”, “Japan” e “Missouri”, e nos transporta pelo tempo e espaço em “Century”, “Day and Age” e “Where or When”. Um belo registro intimista em que a sonoridade acústica é protagonista.
www.julianlage.com/



Mary Halvorson é uma das fieis representantes da improvisação livre na guitarra contemporânea, o que torna sua música muito interessante pois, muito além da abordagem criativa, traz uma riqueza de intervenções melódica e harmonicamente complexas.
Sua relação com o instrumento começou na adolescência quando ouviu Hendrix, o que talvez explique a origem de sua forte pegada no instrumento. Sua aproximação com o jazz deu-se quando começou a ter aulas com um professor que tocava o estilo, e assim conheceu a música de Anthony Braxton, a quem ela tem como seu mentor e quem a ensinou a focar na criatividade e a encontrar sua própria voz.
Além de seus trabalhos como líder - "Reverse Blue" (2014), "Ghost Loop" (2013), "Illusionary Sea" (2013), "Bending Bridges" (2012), "Saturn Sings" (2010) e "Dragon’s Head" (2008), sua guitarra tem registro em uma extensa discografia, em diversas formações. Sempre questionada sobre a criação de um trabalho solo, Halvorson queria mais do que simplesmente realizar um álbum totalmente improvisado.
Meltframe (2015) é  resultado de um estudo introspectivo e da prática de arranjar temas que ela gosta para a guitarra solo, cujo repertório acabou se expandindo além dos tradicionais standards, sem composições autorais, desconstruindo e reconstruindo, do seu jeito, versões de Ellington, Ornette Coleman, Oliver Nelson, Annette Peacock, e Roscoe Mitchell. Sempre abraçada com sua archopt Guild Artist, Halvorson explora ao máximo a sonoridade acústica do instrumento, em que, além de microfonar seu amp Princeton Reverb, aplica os microfones sobre as cordas e no ambiente.
www.maryhalvorson.com/

CANÇÃO PARA TEMPOS MELHORES

02 dezembro, 2015

Genuinamente jazz.
Assim é o novo trabalho do trompetista Daniel D'Alcântara, intitulado Canção para Tempos Melhores.
Talento e criatividade não faltam para esse extraordinário músico, muito atuante no cenário instrumental brasileiro, que, além do seu trabalho solo, também é integrante da Soundscape Big Band.

Com uma família de origem muito musical, Daniel D'Alcântara tem em seu pai, também trompetista, uma grande influência, e é dele suas lembranças musicais mais antigas, afinal foi quem o ensinou solfejo e teoria musical quando tinha cinco anos de idade; e essa fonte de inspiração vem de gerações pois seus bisavós tocavam em salas de cinema mudo, o avô em orquestras de baile e os tios baterista e saxofonista.
Daniel formou-se no instrumento pela Escola de Comunicação e Artes da USP; e acredita que o estudo é fundamental para a excelência, diz ele – "Se o músico não gostar de ocupar muitas horas com sua música, e de descobrir sua maneira de tocar, não irá muito longe."

"Canção para Tempos Melhores" traz Daniel D’Alcântara ao lado de Vitor D’Alcântara, seu primo, no tenor e soprano, Edson Santana no piano Rhodes, Bruno Migotto no contrabaixo e Cuca Teixeira na bateria.
A formação em quinteto é a preferida de Daniel, carregando a influência dos quintetos de Miles Davis, primeiro e segundo, no hardbop de Horace Silver e no Jazz Messengers liderado por Art Blakey.
O grupo está muito entrosado, já tocam juntos há bastante tempo, inclusive na formação da Soundscape Big Band; e um repertório contagiante em 6 composições que Daniel assina 3 delas - "Samba Viscoso", "SanMagno" e "Ilha Bela"; as demais ficam com a assinatura de Bruno Migotto em "Bode On", Alexandre Mihanovich em "Nestico" e Gustavo Bugni no tema título.


danieldalcantara.com/

FELIZ DIA DO MÚSICO: 22 DE NOVEMBRO

22 novembro, 2015
"O que é bom já nasce feito,
e está perfeitamente inserido neste contexto divino
que é o dom de ser Músico"
(Hermeto Pascoal)

Àqueles que nos proporcionam momentos de pura beleza, magia e que fazem a trilha sonora da nossa vida.
Parabéns a todos os Músicos pela data de hoje !
22 de novembro, DIA DO MÚSICO

ADEMIR JUNIOR LANÇA SENSAÇÕES, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE CAMALEÃO

11 novembro, 2015
“Todos os seres vivos são tocados pelo poder das vibrações musicais. Ela tudo permeia e a todos ela sempre diz algo sem palavras.” É assim que o saxofonista Ademir Junior expressa a singularidade da Música.
Endorser dos saxofones Selmer e das palhetas Vandoren, marcas respeitadas no mundo dos sopros, Ademir faz jus ao reconhecimento pelo seu estilo vibrante, criativo e pela sua total fluência na linguagem do jazz.
Um músico extraordinário.
Em continuidade à série Camaleão, nos apresenta o espetacular álbum Sensações, o segundo volume da trilogia. Tocando tenor, clarineta e EWI, Ademir tem ao seu lado nessa sessão Moises Alves no trompete, Marcos Wander no trombone, Alex Carvalho na guitarra, Marcelo Corrêa no piano, Hamilton Pinheiro no baixo elétrico, Guilherme Santana na bateria e Carlos Pial na percussão; e os convidados especiais Mario Morejon El Indio e Sidmar Vieira nos trompetes e Junior Ferreira no acordeão.


Sensações traz um belo encarte baseado na literatura de cordel, representando a cultura nordestina em um livreto que, originalmente, tem a capa feita com xilogravura e textos impressos em tipografias.
Ademir detalha cada tema do álbum nas linhas do encarte, e reforça que a influência de ritmos brasileiros nas músicas tinha que estar impregnada também em todo o visual da capa e encarte, que tem o design gráfico de Karina Santiago.

No repertório, uma devoção a John Coltrane em “Nativos”, usando a essência da clássica “A Love Supreme”; traz a essência do blues em um baião cheio de groove em “Mexidão”, e ele misturado com texturas orientais em “Coisas de Lá”; faz a alternância de ritmos em “Andarilho”, inspirada no tema “Knozz-moe-King” de Wynton Marsalis, em que retrata no título a vida daquele de corre, cansa e volta a sua caminhada buscando folego para uma nova aventura. Tem balada em “Madrugada”, um apelo a reflexão às coisas simples da vida, um spiritual em 4 frases, onde as notas abordam o caminho da sinceridade, devoção e paz ao fim de cada dia; como um mantra,  filosofa em “Saudades do futuro”; e resgata um tema guardado há 6 anos, esperando a melodia, “Xote Candango”, inspirado em nossa festas juninas, crianças, fogueira e muita comida.
Mais inspiração em “Fasgroove” em um apanhado de estilos e propostas de grooves, harmonias modais e melodias rápidas, tema inspirado em Gillespie e Miles; e a homenagem a Michael Brecker na balda “Tributo MB”, composta no período dos últimos meses de sua vida como forma de gratidão ao legado e importância desse grande músico em sua trajetória como saxofonista.

Ademir é objetivo sobre esse novo trabalho, diz ele –
“Sensações são percepções inicias de tudo que ouvimos com os sons musicais, e é por meio delas que apreciamos, nos afastamos, gostamos, refletimos, nos inspiramos e podemos até tomar decisões sobre inúmeros assuntos de vida. A música é a passagem para o mundo perceptivo da mente, virtual, metafísico ou espiritual, como cada um prefere chamar, e é onde os 5 sentidos aguardam ansiosos suas novas Sensações.”


www.ademirjunior.com/

Leia também sobre o primeiro álbum da trilogia Camaleão -

Ademir Junior

MIDNIGHT MCCARTNEY

08 novembro, 2015
Um Beatle é sempre um Beatle.
Independente de época, a influência dos integrantes do quarteto de Liverpool vai aparecer em trabalhos diversos, e no jazz a fórmula é muito interessante.

Mais uma vez, John Pizzarelli resgata toda essa magia com mais um tributo - Midnight McCartney, uma coleção de temas originais de Paul McCartney da época pós Beatles.
Pizzarelli não esconde a admiração por McCartney, e faz questão de mostrar essa afinidade pelos álbuns solo do beatle "Pipes of Peace" (1983) e "Tug of War" (1984).

Eles já estiveram juntos no estúdio em "Kisses on the Bottom", álbum de McCartney de 2012, e daí surgiu a ideia de criarem um trabalho com novos arranjos, em um resgate do catálogo desde os tempos do Wings. McCartney sugeriu para Pizzarelli um repertório nem tão conhecido, como as canções "Junk", "Warm and Beautiful" e "My Valentine”; no final, foram selecionados 13 temas, que incluíram as clássicas "Coming Up", "Maybe I’m Amazed", "No More Lonely Nights", "With a Little Luck", “My Love”, "Some People Never Know" e "Silly Love Songs"

O álbum teve a co-produção de sua esposa Jessica Molaskey, que também participa nas vozes, e do pianista Larry Goldings; e traz Bucky Pizzarelli na guitarra, Martin Pizzarelli no contrabaixo, Konrad Paszkudzki no piano e Kevin Kanner na bateria, e convidados muito especiais como Helio Alves, Harry Allen, Michael McDonald e o arranjador Don Sebeski.


www.johnpizzarelli.com/

DOWNBEAT READERS POLL 2015

03 novembro, 2015

Saiu a lista da edição 80 da DownBeat Readers Poll, que teve a mais ampla votação da história deste evento.
Como afirmou Frank Alkyer, editor da revista, o resultado desse ano reflete uma grande diversidade de talentos na cena jazz atual.

Em destaque, a voz de Tony Bennett que, finalmente, ganhou seu lugar no Hall of Fame, e ainda levou a premiação na categoria vocal masculino. Chick Corea também aparece como pianista e álbum do ano com "Trilogy", ao lado de McBride e Brian Blade; Wayne Shorter destaca seu histórico álbum "Speak No Evil" e é o nome na categoria sax soprano; e Maria Schneider eleita novamente como arranjadora e compositora do ano.
Ainda, Pat Metheny, sempre genial, como guitarrista em destaque; e o jovem grupo Snarky Puppy com seu entusiamo e criatividade na sua fusão dentro do jazz. O blues marca presença na voz e guitarra de B.B.King, que nos deixou esse ano; e no álbum de Eric Clapton em tributo a J.J.Cale.

A lista completa está na edição de dezembro da Downbeat.


Hall of Fame: Tony Bennett
Jazz Artist: Chick Corea
Jazz Album: Chick Corea Trio, Trilogy (Stretch/Concord)
Historical Album: Wayne Shorter, Speak No Evil (Blue Note)
Jazz Group: Snarky Puppy
Big Band: Jazz at Lincoln Center Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Ornette Coleman
Tenor Saxophone: Chris Potter
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Herbie Hancock
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Poncho Sanchez
Vibraphone: Gary Burton
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Diana Krall
Male Vocalist: Tony Bennett
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: B.B. King
Blues Album: Eric Clapton & Friends, The Breeze: An Appreciation of JJ Cale (Bushbranch/Surfdog)
Beyond Artist or Group: Jeff Beck
Beyond Album: D’Angelo, Black Messiah (RCA)

www.downbeat.com

PÓ DE CAFÉ QUARTETO

18 outubro, 2015
O grupo paulista Pó de Café Quarteto mostra a força da música instrumental brasileira, sempre criativa e empolgante. Formado por Bruno Barbosa no contrabaixo, Marcelo Toledo no sax, Murilo Barbosa no piano elétrico e Duda Lazarini na bateria, o grupo tem origem no interior de SP, na cidade de Ribeirão Preto, e mesmo fora dos grandes centros, vem ganhando reconhecimento pelo excelente trabalho.

Amérika é o segundo álbum do grupo, e, como esclarece o contrabaixista Bruno Barbosa, o gosto pela improvisação não faz disso uma regra, e o quarteto sempre procura reforçar os grooves, as linhas de baixo, os acordes ostinato e os riffs. A adição do piano rhodes nessa sessão, pelas mãos do pianista Murilo Barbosa, deu ao grupo inspiração para buscar novas expressões e novas texturas.
Como convidados, estão o trompetista Rubinho Antunes, que também tocou do álbum de estreia do grupo, e o percussionista Neto Braz. No repertório, 8 composições autorais em um passeio pelo hard-bop, pelo balanço do samba-jazz e pelas texturas latinas.

Amérika

Com a palavra, o contrabaixista Bruno Barbosa, fundador do grupo -

GC: Como se formou o quarteto?
BB: O quarteto se formou em 2008, nós 4 já tínhamos alguns trabalhos em comum e resolvemos nos reunir para estudar Jazz. O grupo se consolidou mesmo quando iniciamos o projeto Jazz na Coisa em 2010, onde nos apresentávamos a cada quinze dias, sempre com ótimo público e repertório novo.

GC: A essência do Jazz predomina no som do grupo, sem perder a identidade com a música brasileira. Que influências você carrega?
BB: Cada um no grupo traz suas próprias influências e isso é o que define nosso som. Quando temos a oportunidade de gravar um disco, acredito que temos a obrigação de fazer algo novo, contemporâneo. Talvez essa seja a nossa maior essência jazzistica: a busca por uma identidade.

GC: Amérika traz novamente o trompetista Rubinho Antunes como convidado, e incorpora novos elementos como a percussão de Neto Braz e a sonoridade do piano rhodes.  Como você trabalha o processo de criação?
BB: A primeira definição do disco, antes mesmo do repertório, foi a sonoridade e formação - piano rhodes, baixo acústico, bateria, sax tenor, trompete e percussão. Com a inclusão da percussão, a intenção inicial era fazer um disco mais afro-brasileiro. A partir daí foram surgindo as composições, algumas antigas, outras novas. Apesar de sermos 3 os compositores desse disco, eu, Rubinho e Murilo, buscamos sempre uma unidade estética musical e o resultado final foi o “Amérika”, uma referência à musica do continente americano: do jazz dos Estados Unidos, da música afro-cubana, do samba-jazz, do tango, do baião, etc.

Po de Café Quarteto

GC: Diz-se que uma nota certa é como uma semente na composição, e, com ela, o som cresce. Há uma regra para a melodia e o improviso, ou os insights se mostram a melhor prática? 
BB: Todos no grupo gostam muito de improvisar, mas para esse trabalho buscamos nos conter um pouco, justamente para valorizar as composições e não deixar as músicas tão longas. Alguns arranjos deixam o improvisador mais livre e outros são em cima da forma da música. Nos shows a tendência é sempre haver mais espaço para improvisação.

GC: Como adquirir o álbum Amérika?
BB: Enviamos CD e Vinil para qualquer lugar do Brasil.
As encomendas são pelo facebook www.facebook/podecafequarteto. É possível ouvir o álbum nos canais e lojas virtuais como Spotify, Rdio, iTunes, ONErpm, Deezer e Amazon. O CD também está disponível para download gratuito no site do grupo www.podecafequarteto.com

Obrigado Bruno Barbosa, e sucesso.

O JAZZ-ROCK REVISTO PELO BATERISTA ALFREDO DIAS GOMES

03 outubro, 2015
Sem dúvida, a segunda metade do anos 60 revolucionou a forma de se fazer Jazz, em todos os sentidos, a improvisação livre, a mistura de ritmos e estilos e a eletrônica que chegou forte e trouxe os sintetizadores e efeitos dos pedais de guitarra.
Miles Davis deu o pontapé inicial e um novo universo se formou carregando músicos tradicionais do Jazz, criando uma nova escola que se desenvolveu fortemente ao longo da década seguinte.
O Jazz-Rock veio e ficou.


O baterista Alfredo Dias Gomes não esconde sua admiração pelo estilo, e nos apresenta um trabalho com novas leituras de clássicos do jazz-rock. Looking Back, o sexto álbum de sua discografia, traz 10 composições rearranjadas de forma muito particular, e é a oportunidade de reviver momentos que, com absoluta certeza, fizeram parte da audição dos amantes da boa música, independentemente de época.
Tony Willians, Billy Cobham e Jack DeJohnette foram os precursores na bateria do jazz-rock no grupo de Miles Davis, e são até hoje influências para Alfredo Dias Gomes, que ainda inclui na lista Steve Gadd, Alphonse Mouzon, Harvey Mason e os seus contemporâneos Dave Weckl, Dennis Chambers e Vinnie Colaiuta.

Em Looking Back, um super time está ao seu lado - na guitarra Yuval Ben Lior; nos sopros e arranjos de metais Widor Santiago; nos teclados Lulu Martin; no baixo elétrico participam Marco Bombom em "Red Baron", "Some Skunk Funk", "Silly Putty" e "Spain", Rogério Dy Castro em "Birdfingers", "Nite Sprite", "A Remark You Made" e "Birdland", e no contrabaixo acústico Augusto Mattoso em "Milestones" e "500 Miles High"; David Feldman nos teclados em "Some Skunk Funk" e "Silly Putty"; Guilherme Dias Gomes toca trompete em "Milestones" e trombone em "Silly Putty"; e Serginho Trombone aparece em "Birdland".

No repertório do álbum, uma verdadeira escola, e os seus ídolos sempre presentes -
"Birdfingers", que Larry Coryell gravou com o grupo Eleventh House (1975), aqui Alphonse Mouson nas baquetas; "Red Baron", original de um álbum clássico de Billy Cobham, Spectrum (1973); "Silly Putty" traz a potência do groove que Stanley Clarke colocou em Journey to Love (1975), que trazia George Duke, Jeff Beck e Steve Gadd.
Chick Corea aparece em "Nite Sprite", original do álbum The Leprechaun (1976), que também contou com Gadd nas baquetas; e "Spain" e "500 Miles High", ambas inseridas no fantástico Light as a Feather (1973), na formação do Return to Forever.
Joe Zawinul, sempre inspirador, se apresenta em "A Remark You Made" e "Birdland", dois temas gravados com o Weather Report no não menos fantástico álbum Heavy Weather (1977); e os irmãos Brecker, Randy e Michael, aparecem em "Some Skunk Funk", originalmente gravado em 2003 com a WDR Big Band.
Miles Davis, o mentor de todo esse movimento, nos brinda com o tema "Milestones", clássico do álbum homônimo de 1958 em seu primeiro quinteto; e aqui Alfredo faz uma interpretação com uma dinâmica que lhe é muito característica, fazendo a fusão do jazz com o funk e o rock nas acentuações do bumbo e da caixa.
Um discão.
Coloco em destaque também a guitarra de Yuval Ben Lior. Para Yuval, embarcar nesse projeto foi uma aventura musical divertida e desafiante. Usou uma guitarra custom made, amp fender com efeitos de compressão e distorção, conseguindo timbres autênticos.

Looking Back teve a produção de Alfredo Dias Gomes e foi gravado e mixado no ADG Studio.
A mixagem foi de Alfredo Dias Gomes e Thiago Proft; e a Masterização de Ricardo Garcia da Magic Master.

Com a palavra, Alfredo Dias Gomes -

GC: A que você credita a transformação do Jazz no final dos anos 60?
ADG: Nos anos 60, o rock, bem como o R&B e a soul music, explodiam no mundo inteiro, trazendo também transformações sociais e culturais. Era inevitável que os músicos de jazz, antenados com o que acontecia à sua volta, desenvolvessem uma fusão desses estilos com o jazz.
No fusion, o piano e o baixo, antes acústicos, foram substituídos pelos elétricos, a guitarra elétrica passou a se destacar como instrumento de solo e a bateria passou a ser tocada com uma pulsação mais funk-rock.
O LP de Miles Davis, Bitches Brew, de 1969, é considerado um marco do fusion. O meu vinil tá guardado até hoje e um dos bateristas que participou desse disco, Don Alias, foi meu professor de bateria. A primeira levada que ele me ensinou foi a música que dá nome ao disco, Bitches Brew. Perdi a conta de quantas vezes eu toquei junto com o disco.

GC: Como aconteceu sua descoberta com o jazz-rock?
ADG: Comecei ouvindo rock, como todo garoto de 9, 10 anos; daí fui apresentado à Mahavishnu Orchestra, que era formada por músicos de jazz como o guitarrista John McLaughlin e o baterista Billy Cobham, mas que tocavam um som que eu nunca tinha ouvido antes, com harmonias e melodias diferentes, ritmos quebrados, e eu fiquei extasiado com aquilo. A partir daí, fiquei fascinado por compassos compostos, então fui ouvir mais do trabalho desses músicos e acabei conhecendo Miles Davis, Larry Coryell & Eleventh House, Weather Report e Chick Corea.

GC: Foi desafiador idealizar um álbum com temas clássicos?
ADG: Claro que é sempre um desafio regravar músicas dos melhores artistas do mundo, mas como eu já tocava essas músicas desde sempre acabou fluindo muito naturalmente. Em algumas, como "Nite Sprit", por exemplo, apesar de não ouvir há bastante tempo, quando fui tocar ela estava inteirinha guardada na minha memória. Aliás, essa foi a música mais prazerosa que eu já gravei em toda a minha vida.

GC: Como você pensou os arranjos do álbum? 
ADG: Não tive nenhuma pretensão de fazer melhor que o original, pois isso seria impossível. Eu tenho uma concepção musical, facilmente identificável nos meus outros discos, todos autorais, em cima de solos de guitarra e sax, e de bateria, claro. Os dois solistas que estão nesse CD, Widor Santiago e Yuval Ben Lior, já tocam comigo há muito tempo e eu pensei em arranjar essas músicas para essa formação.

Obrigado Alfredo Dias Gomes, e Sucesso.

Looking Back está disponível na ArlequimCD Baby e no iTunes.
www.alfredodiasgomes.com.br/