ELAS : IMELDA MAY

05 abril, 2014
Eu conheci essa moça no video em homenagem a Les Paul, Rock'n'Roll Party, liderado pelo guitarrista Jeff Beck, gravado ao vivo no Iridium, NY, em 9 de junho de 2010, data que celebraria os 95 anos de Les Paul.
Imelday May era a voz a frente de um super grupo que ainda contou com as participações de Brian Setzer e Trombone Shorty em um repertório dos anos 50 e 60, com direito a uma arrepiante interpretação de Cry me a River além de muitas composições do homenageado.

Imelda Mary Higham é irlandesa, cresceu em Dublin, é a mais nova de cinco irmãos, e recebeu muito da influência musical que eles ouviam em casa, principalmente Elvis, que era o preferido de um deles. Aos 4 anos de idade já estava cantando com sua irmã na igreja e não parou mais, até que aos 9 anos apaixonou-se pelo Rockabilly e pelo Blues.
Sua carreira musical como cantora iniciou de verdade aos 16 anos, se apresentando no circuito de bares locais. Na época, já tinha fôlego de cantora. Certa vez, seu pai, a vendo triste por ter sido largada pelo namorado, pergunta a ela se seu coração está quebrado e, com a afirmação dela, diz ele, muito enfático - "Então agora voce pode cantar Blues"; e Imelda se entregou e carregou consigo a influencia do Blues de Elmore James e Billie Holiday e do Rockabilly de Buddy Holly e Eddie Cochran. E esse estilo reflete em seu visual e vestuário. Que bela moça !
Ao lançar seu primeiro album, No Turning Back (2003), muda-se para Londres com o marido e guitarrista Darrel Higham e forma seu próprio grupo, que hoje ainda conta com o baixista Al Gare e o baterista Steve Rushton. Seu segundo album, Love Tatoo (2007), foi muito bem recebido pela crítica e alcançou o primeiro lugar nas paradas irlandesas e esse destaque chamou a atenção do apresentador Jools Holland, que a convidou para participar de seu programa e conquistou uma super audiência.
Após receber o prêmio de "Female Artist of the Year" pela Meteor Awards em 2009, partiu em turnê pela América e apresentou-se na edição do Grammy no ano seguinte realizando uma homenagem a Les Paul.
Com seu terceiro album nas mãos, Mayhem (2010), Imelda reforça sua marca no som Rockabilly e alcança a posição número 1 nas paradas, o album chegou na marca do meio milhão de vendas e deu a ela um status de "superstar", e novamente aproveitou a mídia da TV para lançar o album no programa "Tonight Show with Jay Leno".
E já tem album novo a caminho, Tribal, com previsão de lançamento para junho de 2014.

Mais sobre Imelda May em  imeldamay.co.uk/

O SUCESSO DO SAXOFONE BRASILEIRO NA FRANÇA

24 março, 2014
O músico brasileiro, mais uma vez, se inclui na extensa lista de representantes no exterior.
Os saxofonistas Ademir Junior e Carlos Gontijo, representando o saxofone no Jazz e no Erudito, selam contrato com a mais importante e tradicional fábrica de saxofones do mundo, Selmer Paris. Além de terem se tornado artistas Selmer, também fecharam como artistas Vandoren, a mais conceituada marca de palhetas do mundo.
As empresas enxergaram nos dois músicos grandes potenciais para representá-las no Brasil e na América Latina. Ambos foram convidados para participar do Festival Portes Ouvertes em Rouen, e, pela primeira vez em mais de 50 anos de existência do festival, um artista brasileiro marca presença divulgando a nossa música.
Ademir Junior ainda lecionou dois workshops de música brasileira - um para uma classe de improvisação e outro para uma classe de Big Band. Em Paris fizeram a “Noite Brasileira” na Selmer, show que celebrou o contrato como artistas da fabricante, como resume Ademir Junior -
"O publico aplaudiu muito, foi caloroso e curtiu cada momento, principalmente nas musicas brasileiras, quando mexiam o corpo sugerindo o ritmo da musica executada. Foi um dos melhores shows da minha vida".
Carlos Gontijo também ficou impressionado com a recepção do público, diz ele -
Tivemos muitos elogios e o mais marcante foi o elogio de dois compositores de Paris que achou a 'música clássica' brasileira extremamente refinada e que nossa interpretação foi impecável. Um deles pegou meus contatos e disse que iria escrever uma peça para mim."

Ademir Junior testando os saxofones Selmer

A Vandoren foi procurada por muitos formadores de opinião que estavam presentes, e afirmaram que aqueles dois músicos brasileiros que tocaram na Selmer também deveriam ser artistas Vandoren. Um dia depois foi fechado o acordo.
O diretor do Conservatório de Rouen, Claude Brendel, afirmou que, apesar de extremamente bela, a música brasileira é muito rica em aspectos rítmicos, e para eles, franceses, tem contextos de partituras que são extremamente complicados para se interpretar.
Ademir nos conta que a receptividade na Selmer foi surpreendente e, apresentado ao diretor comercial Florent Milhaud, ficou super a vontade para testar os diversos saxofones. Ademir escolheu um
para tocar no concerto e no outro dia acabou  ficando com outro. Ainda afirma que percebeu que há uma carência dentro e fora do Brasil com relação ao conhecimento da nossa música, técnico e acadêmico.
"Nós estudamos a música europeia e americana, enquanto os americanos e europeus desejam estudar a nossa música. A nossa música em geral ainda é gerada de forma popular, mas não estudada profundamente como deveria. Não temos muitas escolas de música no país que mostrem os valores e o legado que já existe em nossa música.", diz Ademir.

Encerrando a viagem, já reunidos como artistas da Vandoren, foram abençoados pelo grande Jean-Paul Gauvin, que os brindou com a oportunidade de representar essa excelente marca de palhetas, boquilhas e acessórios musicas. Uma grande oportunidade de representar essas duas excelentes marcas e também representar o Brasil e a nossa música em cada oportunidade por meio das portas que se abrirão.

Valeu Ademir Junior e Carlos Gontijo. Sucesso !

Não deixe de ler sobre o album Camaleão de Ademir Junior -

Ademir Junior

ENSIMESMADO

19 março, 2014
Estar ensimesmado é colocar-se em estado de introspecção, voltar-se para dentro de si mesmo, recolher-se em um olhar interior. Um termo que, talvez, tenha que ser encarado de forma romanceada. Visto de fora, muitos podem não compreender, mas, verdadeiramente, é um momento em que se promove a inspiração.

Ensimesmado é o título do album de estreia do violonista e guitarrista Daniel Guimarães.
Um belíssimo trabalho totalmente autoral, cujo título retrata o estado de espírito do músico na época da criação dos arranjos do album, em que expressa, em cordas, melodias e harmonias que nos transpõem em uma simples porém intensa viagem sonora.
Daniel está acompanhado pelo contrabaixista Auriu Irigoite e pela baterista Georgia Camara, e traz como convidados o violonista Felipe Machado e os acordeonistas Gabriel Geszti e Ricardo Rito.

Ensimesmado

O tema de abertura, "Revoada", traz um ar setentão, uma mistura mineira com nuances da música progressiva e cuja melodia, daquelas que ecoam na nossa cabeça, ganha um certo ar de nostalgia reforçado pelo vocalize de Daniel. Um prático exemplo sobre estar ensimesmado se retrata no tema título, um momento introspectivo em que Daniel dialoga só com seu violão, realizando traços que lembram a textura de um Ralph Towner, mas com uma roupagem muito particular e muito brasileira. Uma bela interpretação!
E o toque mineiro se faz presente em "Valsa Antiga", que ganha a presença do acordeon de Gabriel Geszti suportado pela base do violão de Daniel e o colorido da bateria de Georgia Camara. O acordeon volta em destaque novamente na bela composição "Vida e Despedida", aqui nas mãos de Ricardo Vito.
Daniel coloca a guitarra em primeiro plano em "Como se fosse sombra", e mais uma vez colorindo o tema com seu vocalize e um intenso improviso, em que se percebe algumas de suas influências.
"Limbo" se introduz um tanto psicodélica, mas logo se transforma em frevo e, aqui, Daniel coloca o bandolim como protagonista. "Nossa Valsa" põe uma atmosfera jazzy pontuada pelo walking do contrabaixo de Auriu Irigoite, com Daniel revezando-se no violão e guitarra, entre melodia e improviso, e novamente o forte traço mineiro.
"Trinta anos" promove um belo duo de violões ao lado de Felipe Machado, em um tema recheado por uma melodia chorosa e ar seresteiro, e aqui percebe-se a transpiração do mestre na condução do tema. E o próprio Felipe Machado é o homenageado no samba improvisado e contagiante "Carnaval no Andaraí".
O album fecha na voz de Daniel no tema "Ao que virá", mais um bela composição em que o mestre solta o canto e assim "pede pro céu um sim, a cantar um sonho bom".
Nós também pedimos, Mestre !

Com a palavra, Daniel Guimarães -

Gustavo Cunha: Fale sobre sua formação musical.
Daniel Guimarães: Sou Petropolitano, mas fui criado em Angra dos Reis.
Meu primeiro contato sério com o violão aconteceu quando um primo meu de Belo Horizonte veio passar as férias em minha casa em Angra dos Reis, e se dispôs a me ensinar alguns acordes. Eu tinha 14 anos e segui dali, primeiro com revistas como aprendendo musica Pop em geral e depois Rock pesado e o Progressivo até chegar na Música Instrumental e o Jazz, isso quando já havia me mudado de Angra para Belo Horizonte.
Em Belo Horizonte, na década de 90, comecei a estudar música de forma mais séria e tive a sorte de viver um momento muito musical por lá, tanto de Rock quanto de Jazz e música mineira. Meu professor foi o Magno Alexandre, um grande instrumentista mineiro.
De Minas fui pro Rio, no final da década de 90 , já perseguindo uma carreira em Música, aí tive vários professores de harmonia e improvisação, e ingressei na faculdade de música da UniRio. Desde então tenho trabalhado em diversas áreas - teatro, gravações, aulas e apresentações sempre focando no Jazz ou nos trabalhos autorais.

GC: Ensimesmado é um album belíssimo em que percebemos a forte presença do traço musical mineiro e o violão contemporâneo. Até onde voce carregou suas influências musicais nesse trabalho?
DG: Você acertou em cheio! É bem essa mistura da música mineira com o Jazz europeu da ECM, que sempre me encantou. Na guitarra e no violão minhas maiores influências são Toninho Horta, Pat Metheny, Ulisses Rocha, Guinga e Ralph Towner. Ouço também muito Blues e Blues-Rock dos anos 60 e 70.

GC: Fale sobre o grupo que o acompanha no album.
DG: Chamei dois amigos dos tempos da faculdade com quem sempre me identifiquei musicalmente - Auriu Irigoite no baixo e Georgia Camara na bateria, que realmente fizeram a diferença e soaram muito bem juntos. Não procuro músicos virtuosos mas aqueles que são musicais.
O Felipe Machado, outro colega dos tempos de faculdade e parceiro em duas músicas, também participou com seu violão maravilhoso; e ainda pude contar a participação dos grandes Gabriel Geszti e do Ricardo Rito, ambos no acordeon.

GC: No tema "Ao que Virá" voce coloca sua voz em primeiro plano. É uma tendência que voce pretende explorar? 
DG: As pessoas que ouviram elogiaram bastante e sempre perguntam quem é o cantor. Gosto muito de canções também, gostaria de fazer um album só delas.

GC: Que equipamentos voce usa e o que está presente no album?
DG: Meu equipamento é bem simples - guitarra Gibson 335, um violão de luthier, os bandolins e um violão Godin para palco. Na época da gravação do disco, 5 anos já se passaram, eu usei também uma guitarra cítara Danelectro, uma Telecarter Reissue 72 e alguns pedais, como o Boss RT 20 para simular sons de hammond.

GC: Voce tem um estilo de tocar muito particular, fingerstyle, o tocar com os dedos em vez da palheta. Como voce se identificou com esse estilo?
DG: Quando eu tocava mais Rock usava palheta, mas minha técnica nunca foi boa. Ainda uso palheta para tocar bandolim, mas para guitarra e violão prefiro dedo por ter a liberdade de tocar melodias e acordes ao mesmo tempo.

GC: Voce é um Mestre, um educador musical. Como voce percebe essa nova geração de músicos em um mundo de mídia tão popular e tão pouco criativo?
DG: O professor esta virando um intermediário entre o que chega da internet e o aluno. Isso é bom e ruim. De um lado as pessoas podem aprender  muita coisa, mas o lado ruim é que maioria delas não sabe o que esta aprendendo. Eu acho que ainda prefiro o modo antigo.

GC: 3 albuns essenciais, por Daniel Guimarâes.
DG: Staircase (Keith Jarret); Terra dos Pássaros (Toninho Horta); Rubber Soul (Beatles)

Obrigado Daniel Guimarães, e Sucesso !

Voce pode adquirir o album diretamente com Daniel Guimarães -
pelo e-Mail daniguitarguimas@gmail.com e pelo telefone 21 9 99697604
www.danielguimaraes.net

AS MÚLTIPLAS FORMAS DE KIN

16 março, 2014
Quando é anunciado um novo album de Pat Metheny, a comunidade de adoradores de sua música pelo planeta fica ansiosa, afinal é certeza de mais um trabalho de grande magnitude.
Lógico que sempre existe um ponta de esperança de um dia ouvirmos novamente a formação do Metheny Group, aquela sonoridade tão particular, contagiante, quase que cinematográfica, e que selou eternamente a química músical de Metheny com o pianista Lyle Mays.
O último trabalho do Metheny Group data de 2005, The Way Up, e desde esse tempo Metheny realizou diversos trabalhos solo, extraordinários, como o fantástico What´s All About, o ousado Orchestrion e o inesperado Tap: Book of Angels, além da criação da Unity Band.


KIN(←→) é o título do novo album, que agora se forma como Unity Group.
O grupo mantém a base da Unity Band, formada em 2012 - Cris Potter, Ben Willians e Antonio Sanchez, e agora ganha o reforço do multi-instrumentista italiano Giulio Carmassi.
Apesar que muitos afirmam ser o Unity Group uma nova edição do saudoso Metheny Group, é fato que isso não é possível sem a presença da assinatura de Lyle, mas a entrada de Carmassi resgatou um pouco daquela atmosfera, com a adição de piano, vozes e sopros. É uma nova roupagem, sem dúvida, e traz passagens de outros momentos da trajetória de Metheny, como com as registradas com Charlie Haden, Ornette Coleman e Michael Brecker.
KIN(←→) é espetacular. Ponto.

A imagem que ilustra a capa ao album, desenhada pelo artista Stephen Doyle, rendeu uma exposição na Azart Gallery em NY, intitulada "The Many Faces of KIN (←→)”, com uma coleção de 20 impressões que capturaram a evolução da arte da capa.
É fato que as capas dos albuns de Metheny sempre tiveram uma identidade com a música inserida nos albuns; e Kin não foi diferente, o objetivo foi criar uma face recortada representando todas as raças e culturas.

O album traz 9 composições e o tema de abertura, "One Day One", é um suspiro nostálgico em intensos 15 minutos, introduzido por intervenções percussivas e um improviso invocado de Metheny, ganhando novas nuances no andamento do tema para deleite de Potter, Willians e um epílogo com as vozes de Carmassi. Nessa mesma onda vem "Rise Up", em mais 10 minutos de composição que vão alimentar os ouvidos mais saudosistas, alimentados pela base acústica de Metheny, o piano mais presente de Carmassi, além dos contagiantes improvisos do líder e Porter. Impressionante a base rítmica imposta por Sanchez e Willians nesses dois temas.
E não fica por aí, "Sign of the Season" ganha o reforço do piano de Carmassi e o timbre característico de Metheny, e Porter ataca de soprano, com destaque ainda para improvisos de Willians e Sanchez que, como sempre, dá o colorido todo especial. É surpreendente como Sanchez se encaixou tão perfeitamente na linguagem da música de Metheny, e Cris Porter, que Metheny não esconde sua admiração, afirmando que esperou por 30 anos até que outro músico o inspirasse do mesmo jeito que fizeram Michael Brecker e Dewey Redman.
O tema título nos resgata para uma viagem de guitarra sintetizada, aquela sonoridade tão original pelas mãos de Metheny e que ficou eternizada com "Are You Going with Me".
Particularmente, o ápice do album é a balada "Born", de uma beleza melódica estonteante, quase um hino, nos elevando para a atmosfera de Missouri Sky, trabalho que Metheny realizou com Haden, uma semelhança sonora impossível de não ser percebida. Mais baladas com "Adagia", introduzida pelo violão de Metheny e desenvolvida no sopro de Potter; e "Kqu", com roupagem mais jazzy e com melodia desenhada pelas vozes de Metheny e Porter. "Genealogy" traz uma pontuação free, na onda do Song X, album de Metheny com Ornette Coleman; e ainda uma levada smooth em "We Go On".

Um discão.
Obrigatório !


       www.nonesuch.com/albums/kin

RETRATOS

06 março, 2014
Uma nota que soa em um suspiro quase que solitário. Não há nota em vão.
Na ausência do silêncio, faz-se o cenário de uma nostalgia que parece não ter fim.
Se há uma razão, foi por escolha, por tentação. Escolhido o caminho, não há volta.
E são caminhos que se desenham por notas, e mais notas, e mais notas.
Em altos e baixos, sempre a certeza de ser intenso, sem hesitação.
Essas escolhas definem o rumo da harmonia, da melodia. Inquietação.
As notas tem um preço, se formam em intervalos como ondas, aumentadas, diminutas, justas.
Uma peça única, definitivamente não há outra.
A construção da imagem é lenta, às vezes pode não ser percebida, mas há uma forma oculta por tras dessa vibração. O desafio é encontrar sensibilidade para interpretá-la, de qualquer perspectiva.
Melancólico, sutil, contagiante, terno.

Christoph Adams: Portraits in Black & White

O piano, assim como qualquer outro instrumento em execução solo, é mais ou menos assim - uma viagem solitária, em que a criatividade se desenvolve e se conecta em tempo real.
O registro do pianista Christoph AdamsPortraits in Black & White, é um exemplo dessa viagem.
O album parece uma produção independente, em registro duplo, gravado nos meses de janeiro de 1996 e 1997. Este exemplar raro foi garimpado na loja Jazz Record Center, no coração da big apple, perdido no meio de tantos outros. O quão oculto é o autor, assim não é a obra, cujo repertório se constrói em tributo aos gigantes que fizeram a história do Jazz, incorporando nos temas um medley de composições de cada autor, não necessariamente pianistas, um puro improviso em uma atmosfera totalmente instrospectiva.
Das 10 composições, somente 1 tema autoral, Self Portrait.
O repertório, seguindo os mestres -
Portrait Of Thelonious Monk (Misterioso, Evidence e Monk´s Mood);
Portrait of Herbie Hancock (Maiden Voyage e Dolphin Dance);
Portrait of Ornette Coleman (The Blessing, Beauty is a Rare Thing e Peace)
Carla Bley Medley (Closer, Batterie e Vashkar);
Portrait of Bill Evans (Prologue, College e Epilogue)
Portrait of Keith Jarrett (In Front e Everything that Lives Laments)
Portrait of Miles Davis (Bitches Brew, So What, Miles Ahead e Human Nature)
Portrait of Geri Allen (Drummer´s Song e When Kabuya Dances);
Lennie Tristano (Complex First Movement, Second Movement e Third Movement).


Portrait Of Miles Davis from Christoph Adams on MySpace

UMA MENSAGEM PARA PACO DE LUCIA

27 fevereiro, 2014
Morre Paco de Lucia, um mestre na arte do violão flamenco, vítima de infarto aos 66 anos.
Perda irreparável para a Música.

Abaixo, transcrevo o belíssimo e emocionante texto do músico Lulla "10 cordas" Oliveira.
A mensagem de quem um dia apreciou e viveu, e sempre viverá, intensamente a música do seu Mestre.
Saiba mais sobre Lulla Oliveira -
myspace.com/lullaoliveira/music/songs
www.facebook.com/LullaOliveira


abre aspas

Quando um Leão se põe, nasce um Sol
Para Paco de Lucia
por Lulla "10 cordas" Oliveira

Que tipo de sentimento é capaz de fazer um homem adulto chorar? Quando morre alguém que ele nunca conheceu pessoalmente ou alguém com quem nunca conviveu em sua intimidade e com o qual, em nenhum momento pode trocar um simples aperto de mão, ou sequer um olhar?
Este sentimento decorre do fato da expressão artística da alma do homem falecido ter alimentado, incentivado e direcionado a alma artística e a expressão sentimental do homem que chora durante toda sua vida.
Determinadas coisas da vida apenas nos damos conta quando surge a maturidade. Hoje, sei que quando eu era um moleque pré adolecente e que precisava de um referencial sobre o que era ser um homem forte e viril, era a guitarra de Paco de Lucia que me ensinava. O Vigor de suas notas intensas e apaixonadas, sua aparência física de um Leão Corajoso e ao mesmo tempo sensível.
Com sua morte, sem querer percebi que muito do homem que sou hoje como adulto, foi primeiramente forjado na figura e na paixão da música de Paco de Lucia.
Uma outra cultura, outra língua, a expressão de uma alma mais velha e distante, mas ao mesmo tempo tão irmã e tão paterna. Hoje constatei que quando toquei minha primeira vez a corda de um violão e a pele de uma mulher, muito do espírito "Duende Flamenco" já estava em minha alma, em minha sensibilidade. Eu já havia sido contaminado e abençoado pelo espírito feroz do Leão Espanhol chamado Paco de Lucia.
Engraçado é que apenas hoje, com sua Morte, é que me dei conta disto.
Depois, quando fiquei adulto e me tornei um "Homem", tendo que batalhar pela vida e desbravar novos caminhos, foi a figura de Paco de Lucia, inseguro, com dores de cabeça na hora dos solos, duvidando de sua própria capacidade, tocando ao lado de John Mclaughlin e Al di Meola ou tocando o Concerto de Aranjuez com orquestra, sem saber sequer ler uma nota da partitura, mas derramando sua alma generosa e apaixonadamente melancólica, que me ensinou que, apesar das inseguranças e dúvidas, nunca podemos perder o foco, sempre temos que ter coragem para enfrentar os desafios e aproveitar as chances que a vida nos oferece ou cobra. E mesmo que nunca sejamos os melhores, sempre seremos únicos!
É justamente nisso que está nossa maior Glória, o melhor de nós mesmos, naquilo que somos únicos, como o Sol de nós mesmos.

Quando tive a oportunidade de ver Paco de Lucia tocar aqui no Brasil recentemente, fui excitado para ver e ouvir o Maestro que me embalara nos momentos de dor, que me fortalecia nas horas de dúvidas, que me inspirava quando me sentia frio e seco, que me iluminava com a sua figura de Leão e o seu brilho Solar nas horas em que eu precisava de calor e paixão nos momentos de entrega e solidão.
Percebi imediatamente que o Leão estava cansado, como se não quisesse estar ali. Estava frio, longe. Vi a sombra de um Gigante, que por ser enorme me fez sair do show preocupado por ele. "Mas como?", eu me perguntava. Que pensamento louco. Por que eu tinha este sentimento por alguém que nem conhecia?
Afinal de contas, era apenas mais um show.
Hoje percebi que eu era íntimo dele e ele de mim, pois sua arte era tão forte que alimentava almas, inspirava caráter e fortalecia convicções. Foi isso que a música de Paco de Lucia fez por mim, por toda minha vida, e eu sequer me dava conta disso, até o dia de hoje, dia de sua Morte.
Hoje foi o dia em Paco de Lucia morreu, e para minha surpresa chorei. Só hoje me dei conta que perdi mais uma vez um Pai. Um Pai que não me conheceu e nem eu a ele, um Pai de alma e arte, de espírito e verdade, de Paixão & Afago.
Hoje, quando um Leão morreu, nasceu em mim um Sol, e todas a guitarras do planeta ficaram sem cordas.
Eu também fiquei assim, sem cordas, o dia inteiro, e acho que vou ficar por um bom tempo.

fecha aspas

Paco de Lucia : 1947-2014

LOWDOWN BOOGIE

25 fevereiro, 2014
Reunir dois dos nossos maiores expoentes do Blues no planeta em um mesmo album é mais que garantia de qualidade, sem exagero, é a certeza de que a Música vai soar do jeito que a gente gosta, com muito improviso e muito groove.
Assim é Lowdown Boogie, protagonizado pela guitarra de Igor Prado e o piano de Ari Borger, mais um lançamento Chico Blues Records. Acompanhados pelo contrabaixo de Rodrigo Mantovani e a bateria de Yuri Prado, a dupla traz convidados muito especiais - o guitarrista Junior Watson e os sopros de Denilson Martins e Sax Gordon.
O Boggie é a temática deste projeto e é a oportunidade de resgate de compositores da primeira metade do século passado nas teclas de Edgar Hayes, Jimmy Yancey e Lil Armstrong, nos sopros de Lee Allen, John Hardee e Morris Lane e o eletrizante Chuck Berry.
Piano Blues, R&B e Rock´n´Roll bem primitivos em uma fusão com sonoridade bastante original.
O album foi gravado de forma totalmente analógica utilizando tapes de rolo, sem overdubs, justamente para se obter o calor autêntico dessas gravações.


O Boogie foi muito popular na década de 30 e é um estilo pianístico de execução do Blues caracterizado por figuras de baixo na mão esquerda, no formato de riffs, enquanto a mão direita improvisa uma linha melódica sincopada, assim define o Glossário do Jazz (Mario Jorge Jacques). Segundo historiadores, o ritmo referia-se aos passos de uma dança afroamericana, o shuffle.
E ninguém melhor que Ari Borger para representar o estilo em nossas terras, um especialista, e esse reconhecimento o levou ao palco Piano Boogie no Cincy Blues Festival edição 2013 junto com outros pianistas do estilo. Nem preciso falar sobre Igor Prado, nosso embaixador do Blues e do Jump Blues, sempre presente em publicações especializadas do estilo como a Living Blues e a Blues Revue. É "o cara" !

Lowdown Boggie abre bem no estilo cinquentão com "Fat Meals & Greens", tema de Edgar Hayes, e já coloca o convidado Junior Watson em cena. Essa atmosfera primitiva continua em "Newborn Shuffle", tema de Igor Prado, que abre o improviso seguido por Borger e pelo jovem Denilson Martins, que rasga o sopro com uma energia que por pouco não nos teletransporta para os inferninhos de época.
"Joogie Boogie" resgata Lil Armstrong, ela que foi a segunda esposa de Louis Armstrong e que teve grande influência nas sessões de Hot Five and Hot Seven, grupo do trompetista na época, participando como pianista e cantora. No tema, um contagiante improviso de Borger e novamente Denilson Martins tomando conta do espaço.
O tema título do album é uma composição de Borger e retrata bem o estilo, e ele, como sempre, muito à vontade, e ainda espaço para os desenhos de Igor. Ainda nessa onda, "Boogie Oogie Barbecue", composição de John Hardee, um flerte com o R&B e um toque primitivo de Jazz no sopro de Denilson.
Borger coloca o hammond em foco em "Bee Hive", composição de Lee Allen, e Denilson novamente toma a frente com belo improviso. "Rocking at the Philarmonic" traz uma composição de Chuck Berry, e agora Igor é o dono da bola, desfilando riffs no melhor estilo e uma pegada invocada.
"Blues for Rafa" é outra composição de Borger, um Slow Blues envenenenado, protagonizado pelo piano e ainda espaço para um estonteante improviso de Igor. Ainda no melhor estilo da época, "Blue Jeans", composição de Morris Lane, que foi integrante da banda de Lionel Hampton nos anos 40, e mais um convidado aparece em cena, Sax Gordon, que também aparece em "Rock It", um clássico dos Rocking Brothers, grupo pioneiro da era Rock´n´Roll nos anos 50.
O album ainda traz duas faixas bonus - "Getting Fat" (Igor Prado) e "Yancey Special" (Jimmy Yancey); e quando voce acha que o album chegou ao fim, tem uma surpresa pra voce ...

Cada faixa desse trabalho é uma viagem sonora.
Lowdown Boogie foi eleito o album instrumental do ano pela Blues Junction.
Obrigatório !



Não deixe de ler as outras matérias sobre Igor Prado  -

Igor Prado Band Donny Nichilo

NO ESPÍRITO DE GREGORY PORTER

20 fevereiro, 2014
Gregory Porter
A estrada está só começando para Gregory Porter.
Com 3 albuns em sua discografia, já recebeu duas nomeações para o Grammy por melhor album de Jazz vocal por Water (2010) e por melhor performance de R&B com o tema "Real Good Hands" do album Be Good (2012), ambos lançados pela Motema; e foi finalmente premiado na última edição com Liquid Spirit (2013), sua estréia pela gravadora Blue Note, como melhor album de Jazz vocal, concorrendo com talentos como Andy Bey, a também emergente Cecile McLoren Salvant e Tierney Sutton, além de ainda ter sido novamente nomeado por melhor performance de R&B com o tema "Hey Laura".

Merecido, afinal Gregory Porter é uma das vozes de maior expressão na atualidade, não por menos ganhou destaque na capa da edição da Downbeat em outubro passado.

Em Liquid Spirit, Porter está acompanhado pelo mesmo quinteto do album anterior, Be Good, com os sopros de Yosuke Sato e Tivon Pennicott, o piano de Chip Crawford, o contrabaixo de Aaron James e a bateria de Emanuel Harold,  além das participações especiais do trompetista Curtis Taylor e do organista Glenn Patscha.
É justamente essa inspiração no Jazz, Blues, R&B e Soul que faz Porter ser um cantor tão popular, somada a sua bela e potente intensidade vocal e uma sensibilidade que pouco se ouve nos cantores nestes últimos tempos.

Confira dois temas do album Liquid Spirit - Hey Laura e o tema título, em modo intimista, somente acompanhado pelo piano de Chip Crawford em uma sessão na BBC Studios, Londres, em 14 de janeiro último, ambas versões bootleg.



Leia também -

O Soul e o Jazz na voz de Gregory Porter

JACOB KARLSON

11 fevereiro, 2014
País que faz fronteira com a Noruega e Dinamarca, a Suécia insere-se geografica e históricamente no território que era conhecido como Escandinávia, terra dos lendários Vikings.
Hoje, tempos modernos, a região é berço de grandes músicos e o Jazz tem forte presença, principalmente nos pianistas, como o saudoso Esbjorn Svensson, Bobo Stenson, Jan Lundgren, além da bela voz da emergente Viktoria Tolstoy; muitos promovidos pela gravadora alemã ACT.

Aqui em foco, mais um deles - o pianista Jacob Karlson, cuja música se coloca na intersecção entre a melancolia e a sensibilidade, em uma combinação calorosa e apaixonada.
Um improvisador nato, possuidor de técnica e complexidade rítmica e harmônica, o que exalta comparações ao nível de Keith Jarrett e Bill Evans. Parece exagero, mas não é.

Karlson é enfático quando fala sobre sua música -
"Somos modernos, mas temos uma história, e é precisamente isso sobre o qual é refletida a minha música. Sou fascinado pela possibilidade de novas tecnologias. No entanto, também preciso do calor humano e da conexão com a terra a fim de me sentir feliz."

Sua musicalidade o fez muito popular, tornando-se um requisitado sideman já no início de sua carreira, atuando ao lado Nils Landgren, Viktoria Tolstoy, Billy Cobham e Kenny Wheeler, entre outros, reconhecimento este que impulsionou seus próprios projetos.
Em 2010, foi premiado na cerimônica Django d'Or como um artista em ascenção no Jazz contemporâneo e nomeado como músico de Jazz do ano pela Swedish Radio. Em 2012, foi eleito para o renomado grupo Steinway-Artists, cuja aceitação representa um verdadeiro reconhecimento pela excelência musical e pela confiança e dedicação ao instrumento da marca.

Jacob Karlson possui 8 albuns em sua discografia - More (2012), The Big Picture (2011), Heat (2009), Improvisational (2008), Big5 (2003), Today (2002), Going Places (1998) e Take your Time (1996).
Jazz contemporâneo, que se complementa com um repertório eclético - do evidente entusiasmo por Maurice Ravel, passando pelo Rock do U2 em "In God´s Country" (Joshua Tree) até uma versão ousada e jazzística do clássico do Pop "Maniac", tema do badalado filme Flashdance.
Seu atual trio, JK3, traz Hans Andersson no contrabaixo e Robert Mehmet Ikiz na bateria.

Mais sobre Jacob Karlson em  www.jacobkarlzon.com

ELAS : DEBORAH COLEMAN

29 janeiro, 2014
Deborah Coleman nasceu em Portsmouth, Virginia, e cresceu ouvindo música. O pai tocava piano, seus dois irmãos tocavam guitarra e sua irmã tocava teclados, não tinha como ser diferente, naturalmente Deborah tratou de colocar um instrumento em suas mãos e, aos 8 anos abraçou a guitarra.
Aos 15 anos, começou a participar de grupos locais, muito impressionada com o som de Hendrix.

A guitarra realmente fez sua cabeça e logo já estava familiarizada com o som dos Yardbirds, Cream, Jimi Page e Jeff Beck, este, um dos seus favoritos. O ápice deste encantamento pela guitarra deu-se quando, aos 21 anos, foi a um concerto em que na mesma noite estariam no palco Muddy Waters e John Lee Hooker.
Era, definitivamente, o início de uma história.

A inspiração de sua voz vem de Chrissie Hynde, Patti Smith e o lado Blues de Bessie Smith, Janis Joplin e Alberta Hunter.
Inquestionavelmente, Deborah tornou-se uma das mais vibrantes guitarristas femininas, reputação dada a sua energia no instrumento. No início de sua carreira foi premiada com o título de National Amateur Talent Search, evento promovido pelo Charleston Blues Festival, o que  lhe rendeu um contrato com a New Moon Records, onde gravou seu primeiro album solo. Era o primeiro passo antes de assinar com a Blind Pig Records por onde lançou mais cinco albuns, entre eles seu primeiro e fantástico album ao vivo intitulado Soul it Be!
Deborah também foi integrante do projeto promovido pela Ruf Records intitulado Blues Caravan - em 2007 ao lado de Roxanne Potvin e Sue Foley 2007 com a temática Blues Guitar Women; e em 2008 com Dani Wilde e Candye Kane com a temática Guitars & Geathers.
Foi premiada como melhor guitarrista feminina pela Orville Gibson Award e nomeada por seis vezes para o W.C. Handy Blues Music Award; além de ganhar destaque em publicações especializadas como a Blues Revue, Living Blues e Downbeat.

Aos 25 anos, Deborah casou-se e colocou a carreira musical em segundo plano para dedicar-se na educação da sua filha.

Assista o tema Don´t Lie to Me, registro do Berm Festival, Suiça, em 2002 -