9 VEZES MICHEL LEME

11 dezembro, 2014
É sempre uma enorme satisfação ouvir o guitarrista Michel Leme, músico que transpira emoção, intensidade e prazer no tocar. É a Música pela Música.
E nos apresenta mais um excelente trabalho, 9, cujo título representa o nono álbum de sua discografia, que também conta com 2 DVDs gravados ao vivo - "Arquivos Vol.1" e "Na Montanha".
Neste trabalho, a base do trio se mantém com Bruno Migotto no baixo e Bruno Tessele na bateria, "os Brunos", e um convidado muito especial vem somar ao grupo - o pianista Felipe Silveira, que, aqui, coloca o Piano Rhodes como protagonista.

Michel Leme 9

O álbum foi gravado ao vivo, sem overdubs e sem efeitos, com um repertório autoral em seis composições, totalizando pouco mais de 50 minutos de muita pressão.
A abertura é uma breve composição de 55 segundos, "Abrindo as Portas", como um portal que nos levará a momentos de espontaneidade, virtuosismo e perfeita interação de grupo.
"Gentleman", originalmente tocada em trio, coloca Migotto em foco na primeira parte do tema, seguido pelos improvisos de Michel e Felipe. A formação de quarteto deu outra dinâmica ao grupo e está contagiante nos temas "Elvin Jones" e "Siga Aquele Diploma!". A primeira traz a forma Blues em andamento rápido desenhado pelo walking de Migotto, e não faltou inspiração para Felipe e seu Rhodes dando um colorido todo especial não só no seu improviso como também nos desenhos de base sob a improvisação livre de Michel. E pela referência ao título do tema, de baterista para baterista, Tessele também deu seu recado solo.
Assim como em "Siga Aquele Diploma!", que se desenvolve sobre a forte pulsação de Migotto e Tessele, com Michel e Felipe inspiradíssimos e um intenso diálogo entre todos ao final do tema.
"14" é uma belíssima balada, intensamente melódica. Um deleite para a pontuação solo de Migotto e o improviso de Felipe, criando o perfeito mood, como uma lavagem na alma, um verdadeiro estado de transpiração.
"70" fecha o álbum em 16 minutos com a atmosfera característica que muitos mergulharam nos anos 70, aquela mistura de elementos livres do Jazz e da pulsação do Rock e Progressivo que sempre se registrou em longos temas, em que, frequentemente, faz surgir grandes insights para a improvisação. O registro cru da guitarra de Michel e o Rhodes de Felipe contribuiram muito para essa assinatura sonora. Uma verdadeira viagem, e, aqui, com a nossa identidade.

E sobre essa exposição de temas mais longos dar mais inspiração para o improviso, Michel diz -
"Não há táticas quanto a favorecer a inspiração. Para este grupo, basta cada um estar lá que o ímpeto de criar música juntos estará também."

Que o 9 se multiplique exponencialmente.
Uma aula de Jazz, na forma em que se apresenta. Uma aula de Música.
Obrigatório !

E Michel Leme nos conta sobre o quarteto e as composições deste trabalho -

Gustavo Cunha: O álbum 9 mantém a formação base com "Os Brunos" e agora com o piano de Felipe Silveira. Como surgiu a formação do quarteto?
Michel Leme: Depois de gravar o CD "Na Hora", lançado em 2013, e de lançar o DVD "Arquivos - Vol. 1" em maio deste ano, eu senti a vontade de colocar alguém tocando teclado com timbre de Fender Rhodes nesse grupo. Desde o começo eu pensei no Felipe Silveira pra preencher este espaço. Nós tocamos juntos desde 2008 - não tão frequentemente como eu gostaria, porque ele mora em Campinas - e ele sempre se mostrou um músico que realmente gosta de ouvir e tocar em relação ao que está acontecendo na hora, além, é claro, do conhecimento, honestidade e capacidade. Quando comentei com o Tessele e o Migotto sobre convidá-lo para o grupo ambos tiveram reações no mínimo entusiasmadas. Aí foi só ligar pro Felipe e convidá-lo para o trabalho com o qual ele irá ganhar menos dinheiro em toda sua vida - e ele topou rapidamente.

GC: A soma de um instrumento harmônico dá à guitarra mais possibilidades, libertando-a um pouco da harmonia e melodia. Pode-se afirmar isso?  
ML:  Ao tocar em trio, o guitarrista tem a responsa de deixar as exposições dos temas bem claras e também preencher harmonicamente as melodias (seja do tema ou dos solos) quando sentir a necessidade. Eu, particularmente, adoro este papel e trio é a formação que mais tem registros meus tocando por aí.
Neste trabalho com o Migotto e o Tessele, que é mais um som do qual tenho a boa sorte de fazer parte, mas com a diferença do repertório ser formado apenas por minhas composições, eu senti que o Felipe traria mais riqueza harmônica e poderíamos, por exemplo, tocar acordes juntos sem prévios combinados que soassem cada vez mais intrigantes, assim como eu poderia expor as melodias como faria um instrumento de sopro. No primeiro acorde que ele tocou com a gente a coisa já soou como eu imaginava – tem um take de “Gentleman” no Sagrada Música (ver vídeo abaixo) que foi a primeira apresentação com a nova formação; depois de cinco dias nós gravamos o disco.
Ainda quanto ao piano, nos meus solos eu não deixo de tocar em bloco nos momentos em que sinto que devo tocar, assim como eu não deixo de acompanhar os solos do Felipe. Eu acho uma perda de tempo o combinado entre guitarristas e pianistas que tocam juntos que consiste em "no seu solo eu não toco". Oras, se é pra ouvir o outro, porque não somar com o outro? Claro, o problema, tanto de guitarristas quanto de pianistas, é ser chato ao acompanhar e raras são as exceções, mas, neste caso, quanto mais tocamos juntos, mais legal fica.


Sobre as composições do álbum -

GC: "Abrindo as portas". Qual a inspiração, ou mesmo aspiração, implícita no título da composição?
ML: Eu estava tocando com o Nino Nascimento e o Ivan de Castro na Luthieria quando, no final de um rhythm-changes, eu fiz o tema principal do que viria a ser "Abrindo as portas". O video está disponível no youtube, dá pra sacar claramente o momento do seu nascimento. Quando comecei a pensar no "9", eu sabia que iria usar essa melodia, porque ela tem um clima diferente, e acabou servindo como introdução.
O título pode ser uma alusão a "abrir as portas da percepção", que é, talvez, uma das possíveis salvações para a nossa sanidade mental neste mundo governado pela mais abjeta e galopante estupidez. Também é uma alusão a um termo que a prima de John Coltrane cita no final do livro "A Love Supreme" de Ashley Khan, quando Coltrane se levanta pra se unir à igreja, uma simbologia e tal. E, como nós gravamos o “9” no salão da igreja Betesda de Diadema – muitíssimo bem-recebidos pelo querido Miguel Garcia e sua esposa, importante dizer - acho que tem muito a ver.

GC: "Gentleman". Uma homenagem a alguém especial?
ML: De minha parte, é uma homenagem ao Edgard Teixeira, músico, baterista, marido da Sara Chrétien, pai do Cuca e do Wilson Teixeira. Ele foi um verdadeiro gentleman, não no sentido de afetação quanto a normas sociais, mas quanto a ter o espírito de um real cavalheiro. Só tenho as melhores lembranças dele, e quando estava tocando o tema antes de concluí-lo e apresentar para os caras, o Edgard era sempre o inevitável homenageado.
"Gentleman" também representa um valor a não ser esquecido, afinal, cavalheirismo nunca é demais.

GC: "Elvin Jones". Um ícone da bateria no Jazz, o motor do lendário quarteto de Coltrane. É uma referência?
ML: Total. Elvin Jones é um dos mestres que nos ensinam o real espírito da coisa, o espírito que ainda habita apenas em alguns. E estes poucos tem e terão o desafio de viver com as migalhas da sociedade caso escolham ser íntegros. É o que diz a frase de Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Ou seja, você tem o espírito? Então será colocado à margem, porque o que está na via principal neste modo de vida é apenas morte. Estamos vivendo a inversão de valores num de seus picos mais surreais. Exagero? Observe ao redor e me diga.
Coloquei este título porque o tema, a estrutura, enfim, o clima me remeteu a ele. Elvin Jones é daqueles caras que eu ouço em qualquer situação e fico com vontade de tocar guitarra e melhorar como músico e como pessoa.

GC: "Siga aquele diploma!". O diploma é o nosso sonho?
ML: Espero que não. Este título é sobre o poder do marketing das instituições que destilam na sociedade a ideologia "só será um músico sério aquele que tiver um curso superior em música". Será?
Já toquei com vários "mestres" destas instituições, por exemplo, e, com a exceção de uns pouquíssimos, eles talvez tenham talento para outras áreas da atividade humana, mas não para a música. Se fosse só isso, ok, porque talvez pudessem ser bons professores, mas vários "músicos formados" por estas instituições me procuram para ter aulas e chegam sem repertório, sem saber fazer uma levada decente ao acompanhar, além de presos ao extremo ao improvisar - e isso sem falar nos relatos acerca de como procedem os tais “mestres”.
Então, estas e outras me levam a crer que algo muito errado está acontecendo dentro dos muros da “academia”. Quanto aos alunos, muitos deles são pessoas que realmente amam a música e, por isso, insistem, mesmo depois de ter sido atacados pelos lobos.
Tem caras que são apenas um diploma, uma "carteirada" andando por aí; você os seguiria?

GC: "14" e "70s". O que os números representam?
ML: "14" é a 5ª faixa do disco, uma balada bem lenta cuja estrutura principal é de 14 compassos. Obviamente não compus pensando neste número de compassos; procedi como sempre: depois de tocar bastante, ver que era uma música e não um exercício, aí eu escrevi (e contei). Na falta de um nome mais mirabolante, coloquei “14”.
"70s" tem a ver com o clima dos anos 70. Eu nasci em 1971 e me lembro apenas de flashes da década, mas esse pouco é muito legal, porque tem um clima mágico. É como se eu tivesse nascido num planeta muito diferente deste atual. Já o tamanho da faixa acabou ficando ideal para um single: 16 minutos! Minutagens à parte, é incrível como a música faz o tempo cronológico ser tão relativo, ou seja, é como em qualquer outra atividade na vida: se você está curtindo, vai ficar contando os minutos?

Felipe Silveira, Bruno Migotto, Michel Leme, Bruno Tessele

E Michel ainda complementa -
"A experiência de compor, tocar e produzir o "9" foi, como sempre, um grande prêmio. Poder ouvir o que as pessoas estão falando a respeito e responder a entrevistas como esta são cerejas e raspinhas de chocolate nesse delicioso bolo. Muito obrigado pela oportunidade."

Eu que agradeço, Michel Leme, é sempre motivador entrevistá-lo.
Obrigado, e Sucesso !

A distribuição física e digital do álbum é da Tratore e voce pode comprar diretamente enviando e-mail para michel@michelleme.com




Fotos e ilustrações de capa e contracapa são da Taty Catelan.
9 tem apoio cultural da D'Addario Brasil, EM&T Escola de Música e Tecnologia, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria, Net, Sho'You Audio & vídeo, Rotstage, Tecniforte Cables e Timbres Instrumentos Musicais.

Leia também outra super entrevista com Michel Leme sobre o DVD "Arquivos Vol.1", em que fala sobre o processo criativo na Música; e o DVD "Na Montanha", seu primeiro lançamento no formato -

Arquivos Vol.1 Na Montanha

50 ANOS DE MÚSICA: PASCOAL MEIRELLES

03 dezembro, 2014
São 50 anos de Música, de muita boa Música. Uma história que, indiretamente, também é parte da nossa própria história, afinal, nós, amantes incondicionais desta arte, fazemos dela o motor por onde potencializamos lembranças, momentos e sentimentos.
O baterista Pascoal Meirelles celebra esse marco com o lançamento do álbum "50", uma verdadeira trajetória musical, o que o torna um dos ícones não só do instrumento mas da nossa Música em todas as suas formas. Independentemente de ritmo e de estilo - Samba-Jazz, Choro, MPB, Música Instrumental e Jazz - a assinatura de Pascoal Meirelles estará sempre presente, afinal são 50 anos fazendo música da melhor qualidade.


Mineiro, nascido em Belo Horizonte, autodidata, aos 16 anos já estava nos palcos. No calor do samba-jazz dos anos 60, formou o "Tempo Trio" ao lado do pianista Helvius Vilela e o contrabaixista Paulo Horta, e mudou-se para a capital carioca onde deu um novo rumo em sua carreira, passando a integrar o grupo do saudoso clarinetista Paulo Moura. Tocou e gravou com muita gente, e é também um dos protagonistas da nossa MPB, em que esteve presente ao lado de Gonzaguinha, Tom Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento, entre tantos outros.

Meu encontro com a música de Pascoal Meirelles deu-se em um momento de transformação no que eu mesmo ouvia, nos anos 80, naquela transição auditiva do Rock para o Jazz. E foi naquele calor intenso do movimento da Música Instrumental Brasileira que acontecia no cenário carioca quando ouvi pela primeira vez o grupo Cama de Gato e o tema Melancia. Uma formação fantástica, em que Pascoal estava ao lado de Artur Maia, Mauro Senise e Rique Pantoja - "o primeiro time" - e assim eu comecei a ver e sentir a música de outra maneira. O grupo, apesar de não ter mais a formação original, está junto até hoje.

Muito atuante no cenário musical, Pascoal Meirelles sempre busca trazer novos elementos para sua música. Construiu uma ampla discografia como líder, nas mais variadas formações, seja um trio em tributo a Jobim em "Tom" (2003), um sexteto hard-bop em "Tributo a Art Blakey" (2007), no samba-jazz em "Ostinato" (2009) e até com a guitarra como protagonista em "Dubai-Lima: Guitar Project" (2013).
"50" registra uma coletânea de toda a trajetória de Pascoal, e deve ter sido um grande desafio selecionar as 12 faixas que compõem o repertório, com temas dos álbuns "Considerações a Respeito" (1981), "Tambá" (1985), "Anna" (1988), "Paula" (1990), "Forró Brabo" (1997), "Tom" (2002), "Ostinato" (2010) e "Dubai-Lima Guitar Project" (2013). É um encontro de grandes músicos da história da nossa Música Instrumental ao longo de todo esse tempo, entre eles Jota Moraes, Jamil Joanes, Ary Piassarolo, Leo Gandelman, Victor Biglione, Artur Maia, Marcio Montarroyos, Nilson Matta, Daniel Garcia, Jesse Sadoc, Idriss Boudrioua,

No encarte do álbum, uma dedicatória mais que especial de Mauro Senise, com quem Pascoal fundou o grupo Cama de Gato, que não economizou elogios, ressaltando a dedicação, entusiasmo e talento, servindo de exemplo para uma nova geração de músicos.

Exemplo reconhecido pelo baterista paulista Fernando Baggio, integrante do grupo RdT, que reforça em suas palavras - "Terra de tanto passado, tantos nomes, mas alguns deles não vieram aqui para ficar só no passado. Eles são na verdade atemporais. Não entram em uma linha do tempo por estarem em todos os momentos dela desde a sua existência. Pascoal Meirelles é um desses casos."

Deborah Fraguito, produtora executiva e musical da Rádio Pequistação, também é categórica -
"Pascoal é parte integrante, atuante, criativa, patrimonial e um dos pilares da Música Instrumental Brasileira, o que muito nos orgulha."

Considerações a Respeito Anna Forró Brabo Ostinato

Com a palavra, Pascoal Meirelles -

Gustavo Cunha: 50 anos de Música, do Samba ao Jazz. Como começou essa trajetória ?
Pascoal Meirelles: Eu sou filho da Bossa Nova, e acompanhava junto dos meus colegas de Belo Horizonte (Nivaldo Ornelas, Helvius Vilela, Milton Nascimento,Wagner Tiso, Paulo Braga e Toninho Horta) o movimento musical do eixo Rio-São Paulo. Assisti a quase todos os shows com participação dos músicos da Bossa Nova que chegavam a BH. Me lembro de assistir em uma só noite Sergio Mendes e seu Sexteto com Raul de Souza, Hector Costita, Pedro Paulo, Tião Neto e Edson Machado e Radamés Gnatalli e seu Sexteto. Para não deixar de participar desse movimento, fazíamos um Festival de Jazz e Bossa e fundamos uma casa nos moldes do Beco das Garrafas chamada Berimbau. Tínhamos dois grupos fixos atuando - "Tempo Trio", com Helvius Vilela (piano), Paulo Horta (irmão mais velho do Toninho) e eu; "Berimbau Trio" com Wagner Tiso (piano), Milton Nascimento (baixo acústico) e Paulo Braga (bateria). Numa das noites do Berimbau estava presente o Milton Miranda, diretor artístico da EMI-Odeon na época, e contratou o "Tempo Trio" para gravar um LP. Fomos para o RJ 3 meses depois e gravamos em uma semana o disco. Durante nossa estada, a ODEON colocou o Trio para tocar na TV Tupi no Programa do Aerton Perlingeiro, usando para divulgar sua nova contratação. Voltamos e continuamos a tocar em BH e ganhamos o Prêmio de Melhor Grupo de Minas Gerais. Depois deste início auspicioso, a Bossa Nova começou a declinar vertiginosamente pois suas maiores atrações se mudaram para os Estados Unidos.

GC: Você foi muito atuante no final dos anos 60 e início dos anos 70, época de um regime de muita repressão.
PM: Isso aconteceu justamente quando resolvi me mudar para o RJ pois os trabalhos com Bossa Nova e Samba-Jazz simplesmente acabaram em BH. Cheguei ao Rio pronto para trabalhar no que me aparecesse. Tive muita sorte em conhecer dois músicos que foram muito importantes para eu ser aceito no mercado de trabalho do Rio - Maestro Paulo Moura e Osmar Milito. Com o Paulo fizemos a volta da Maysa Matarazzo ao Brasil, na inauguração do Canecão, com grande orquestra, gravação de LP ao vivo; e gravamos o Paulo Moura Hepteto (Darcy da Cruz, Oberdan Magalhães, Constâncio, Wagner Tiso, Luis Alves e eu) e Paulo Moura Quarteto (com a mesma seção rítmica). Com o Osmar Milito inauguramos uma casa noturna chamada "Number One", que logo se tornou o lugar mais importante da musica brasileira no Brasil. No nosso grupo tocavam Marcio Montarroyos, Oberdan Magalhães, Tião Baixo,Osmar Milito e eu. Essa casa era o "point" do Festival Internacional de Musica do Rio de Janeiro, e as atrações iam sistematicamente frequentar o espaço depois das apresentações e aí aconteciam as famosas canjas como o nosso grupo - tocamos com Nancy Wilson, Ella Fitzgerald, Piazolla, Spanky Wilson, Shelly Manne e quase todas as atrações internacionais da época.

GC: Você vivenciou alguma forma de restrição aos músicos e à forma de expressão artística ?
PM: Basicamente essa repressão atingiu os letristas da época. Se por acaso eu estivesse tocando com algum destes compositores, dava para sentir que os repressores foram cruéis. Toquei com Chico Buarque, Edu Lobo e Gonzaguinha, e todos os três tiveram muitas ameaças e musicas interditadas pela repressão.

GC:  Formar-se na Berklee College of Music é uma grande ambição na formação de muitos músicos, e isso aconteceu em uma época  que você já tinha uma carreira consolidada. Foi um momento de amadurecimento ?
PM: Não só foi um momento de amadurecimento, entendi que educação musical é fundamental para qualquer músico deslanchar na sua vontade de crescer. Tenho que agradecer essa grande sorte que tive na vida, e a pessoa que me proporcionou conhecer a forma de aprender música do Berklee College foi o diretor geral da Rede Globo na época - José Bonifácio de Oliveira- o Boni. Na época eu gravava quase que diariamente as trilhas das novelas da Globo, e Boni resolveu ajudar nossa carreira musical - Marcio Montarroyos, Guto Graça Mello e eu fomos agraciados com uma bolsa de estudos de 1 ano. Os dois retornaram e eu resolvi pedir mais 3 anos para terminar minha graduação. Consegui graças a bondade de Robert Share, diretor educacional, que teve sensibilidade para entender meus objetivos.

Cama de Gato Tom Tributo Art Blakey Dubai-Lima: Guitar Project

GC: O "Cama de Gato" aconteceu em um momento muito vivo da nossa Música Instrumental, nos anos 80, e que deu evidência a outros fantásticos músicos. Fale sobre o grupo, que se mantém ativo até hoje.
PM: O CAMA de GATO realmente é um grande trabalho de dedicação, determinação e paciência. Conseguimos inicialmente uma espetacular projeção dentro do mercado mundial, e fizemos shows no Brasil inteiro, torus na Espanha (5 cidades), França (Festival de Jazz de Paris), Bélgica (Festival de Jazz de Bruxelas) e terminamos essa tour no Town Hall em Nova York lançando o selo SOM da GENTE - Rique Pantoja, Arthur Maia, Mauro Senise e eu. Depois da nossa apresentação no Free Jazz Festival em São Paulo, Rique Pantoja teve propostas para se mudar para Los Angeles e resolveu aceitar. Cinco anos depois, Arthur Maia, pressionado pelo volume de trabalho que o Gilberto Gil lhe oferecia, teve que optar para sair pois na sua agenda não tinha mais espaço.Ai entraram Jota Moraes, André Neiva e Mingo Araújo. Nessa segunda formação resolvemos mudar a direção musical para musicas com as raízes brasileiras mais estabelecidas.

GC: Como você desenvolve o processo de composição ?
PM: Como qualquer estudo de um instrumento, o meu processo de composição é trabalhar arduamente numa estrutura harmônica e tentar desenvolvê-la com uma melodia em sintonia com os caminhos harmônicos. Entre 10 musicas que faço com essa estrutura, consigo salvar 1 !!
Esse processo de seleção inclui testar nos nossos ensaios para sentir as reações dos colegas dentro dessa nova ideia musical. Tenho que ter bastante disciplina para entender o que o outro tem a dizer sobre meu trabalho.

GC: Você realizou um álbum em tributo a Art Blakey. É uma das suas grandes influências ? 
Fale um pouco sobre os bateristas que o emocionam.
PM: Quando comecei a ouvir Jazz me encantava muito a forma como era apresentado o Jazz Messengers do Art Blakey. Não foi pela forma explosiva que o Blakey tocava. Os arranjos das musicas marcavam muito as nuances tocadas pelos sopros e sonhava com o dia que eu poderia reescrever aqueles arranjos da minha maneira. Isso só foi possível quando estudei arranjo e composição formalmente. E ouvindo as interpretações do Blakey me indicaram o caminho a seguir.
Eu também segui os passos musicais dos bateristas brasileiros daquela época - Edson Machado, Dom um Romão, Hélcio Milito foram importantes pra mim. No jazz, além de Blakey, Tony Williams e Jack DeJohnette. Dentro do Rock Progressivo me interessei muito pelo Bill Bruford, muitas vezes por ele compor músicas inusitadas onde ele mesmo completava a composição com o seu toque baterístico. Passei a compor nesse estilo também, usando esse influência.

GC: Na comemoração dos 50 anos de carreira, também está sendo lançado um documentário sobre essa trajetória intitulado "Ostinato". Fale um pouco sobre.
PM: O Instituto Kreatori, na pessoa de Fabiano Cafure, me convidou para fazermos um documentário no modelo de um curta metragem, com duração máxima de 30 minutos. O principal ponto é vincular esse curta na TV em veículos como Canal Brasil, Curta e Bis. Havendo interesse e procura pensaremos em lançar em formato DVD.
A ideia do formato deste curta foi tentar, em 30 minutos, contar uma carreira de 50 anos. Missão quase impossível, mas conseguimos chegar perto. O Instituto Kreatori fêz um convite para 15 convidados de minha escolha para este almoço e a partir desse encontro, informalmente, ele gravaria depoimentos de todos. Alguns convidados que não puderam comparecer foram localizados após esse almoço e devidamente entrevistados. A segunda parte contém videos de vários shows que fiz durante fases distintas da minha carreira, imagens com o Cama de Gato; com meu quarteto (Daniel Garcia, Sergio Barrozo e João Castilho), com Eumir Deodato e a Sinfônica de Repertório de São Paulo (Victor Biglione, Alex Malheiros e eu na base da Sinfônica), e meu show no Teatro Sucre de Quito no Equador com Alex Carvalho e André Neiva.



GC: Como voce vê a nova geração de bateristas ?
PM: Como sempre, a evolução também influiu na nova geração de bateristas brasileiros e internacionais - Brian Blade, que também compõe muito bem e toca uma bateria muito sensível ao que a musica pede; Vinnie Colaiuta, por seu virtuosismo; e dos novos brasileiros me emocionam o Rafael Barata e o Kiko Freitas.

GC: Novos projetos a caminho ?
PM: Vou procurar sempre desenvolver minha composição pois ela vai ditar como posso interpretar bateristicamente o que transformo em música. E também continuar a ouvir muito Música Clássica e Contemporânea para sempre aprender com os mestres.
Estou preparando material inédito para o meu próximo CD autoral, que quero lançar no segundo semestre de 2015.

O album "50" voce encontra na Livraria Arlequim
Pedidos pela internet no e-mail pascoalmeirelles@yahoo.com.br e em sua página no Facebook

Obrigado Pascoal Meirelles, e vida longa à sua Música !



Mais sobre Pascoal Meirelles em uma entrevista sobre o álbum Dubai-Lima Guitar Project -

Dubai-Lima: Guitar Project

UM OBSTINADO CONTRABAIXISTA

21 novembro, 2014
A definição do tema título do novo trabalho do contrabaixista Lipe Portinho - Obstinado - revela, de fato, a vontade, persistência e paixão de um músico que sempre coloca a arte musical em primeiro plano.
Lipe Portinho é um dos protagonistas da nossa Música Instrumental, um empreendedor do movimento musical carioca, e que, para nossa alegria, não desiste nunca. Um apaixonado, assim como o público da Música Instrumental Brasileira e do Jazz.

Lipe Portinho

Ainda adolescente, com os olhos e ouvidos para o Rock e o Progressivo, encontrou no também contrabaixista Steve Rodby e no Metheny Group um veículo de transição para o mundo do Jazz; até que viu pela TV os contrabaixistas Ray Brown e Rufus Reid, e o Jazz definitivamente incorporou-se na sua linguagem musical. As aulas com o mestre Sandrinho Santoro o fez entender a música Clássica e conhecer de verdade o que seus ídolos do Jazz também ouviram e estudaram.
Formou-se pela escola de música da UFRJ, integrou a Orquestra Petrobrás Sinfônica, tocou em grupos de Càmara e dirigiu e produziu centenas de espetáculos por todo o país em mais de 3 décadas vivenciando o mundo da Música, da Música de verdade.

Entre vários dos seus projetos, destacam-se o quarteto de contrabaixos Gravíssimo, ao lado de Augusto Mattoso, Tarcisio Silva e Lise Bastos; o quarteto Tutti, com o sax de Daniel Garcia, o piano de Ana Azevedo e a bateria de Andre Tandeta, em que fazem novas leituras do repertório de concerto com abordagem jazzística; e o Corda, quinteto que traz os búlgaros Nicolay Sapoundjrev e Emilia Valova, violino e violoncelo, Ana Azevedo e Andre Tandeta, reconstruindo a música de Piazzolla.
E Lipe nos apresenta mais um excelente trabalho - Obstinado - com repertório autoral, resgatado de seu acervo ao longo de toda a sua carreira. Ao seu lado, o piano de Natan Gomes, o sax de Daniel Garcia, a guitarra de Fernando Clark, a bateria de Fermin Merlo, além das participações de Emilia Valova no cello e Ana Azevedo no piano. Formação exemplar da nossa Música Instrumental e um verdadeiro passeio musical.

Obstinado

O modelo da capa do ábum é seu simpático cão Bley.
No repertório, uma homenagem ao cartunista Bill Waterson no tema "Haroldo", a quem também dedica para Daniel Garcia, que faz um belo e rasgado improviso. Traz ainda a influência de Villa-Lobos à liberdade de improvisão nos dois momentos de "Sem Dormir", com belos desenhos no contrabaixo de Lipe e no piano de Ana.
"Intuitiva" coloca um momento quase intimista, ilustrado por uma melodia nostálgica, quase melancólica, desenhada pelo cello de Emilia, com destaque também para o improviso na guitarra de Clark.
Bach também se faz presente em "Presto Bach" e "Isto não é Bach", esta gravada com o grupo Tutti. Destaca-se aqui o jovem e talentoso baterista argentino Fermin Merlo e o solo de arco do contrabaixo de Lipe, e quando o tema se desenvolve em andamento rápido sobressaem os improvisos de Daniel e Natan.
Fermin Merlo é filho do contrabaixista Hernan Merlo.
Dois momentos em trio - em "Triangulos Amoroso na Catedral", tema também gravado com o grupo Gravissimo, e mais uma vez um belo solo de arco de Lipe; e em "Deolinda", bela composição em homenagem à sua avó paterna, tema arranjado inicialmente para orquestra. O arco de Lipe novamente em foco na melodia e um contagiante improviso de Natan.
Emilia volta com seu cello em "Francesinha", homenagem ao seu irmão, destacando-se aqui o improviso de Clark; e o álbum fecha com "Persecucion y Tango", uma fusão do Clássico, Jazz e a música de Piazzolla, e, a pedido de Lipe, Emilia exibe uma "alma portenha" na composição.

Mais um trabalho obrigatório na discografia instrumental brasileira.

Com a palavra, o contrabaixista Lipe Portinho -

Gustavo Cunha: Obstinado traz uma formação diferente dos seus projetos anteriores.
Conte-nos como surgiu a ideia deste trabalho.
Lipe Portinho: Por incrível que pareça, OBSTINADO é o mais antigo de todos os projetos, são só músicas autorais. Se você observar vai identificar todas músicas com datas de composição entre os anos 80 e 90, algumas poucas mais recentes. São obras que esperaram na gaveta por décadas, sobrepujadas pelas necessidades de sobrevivência do músico. Passei boa parte de minha vida orquestrando, arranjando e acompanhando para outros artistas, e resolvi esse ano dispensar toda essa energia para reler, compilar, rearranjar, reestruturar o que achei de melhor em meus arquivos pessoais. Descobri montanhas de idéias esquecidas, muitas delas boas, muitas delas precisando de meu entendimento artístico atual. O resultado foi realmente surpreendente até para mim mesmo.
Quanto à formação eu posso dizer que foi a mais simples possível, com os melhores músicos que conheço - Daniel Garcia, Natan Gomes, Ana Azevedo, Fernando Clark e Emília Valova -  para que o CD possa ter vida longa e logística descomplicada. Uma das novidades foi poder contar com a participação do baterista argentino Fermin Merlo, que resultou num sincretismo único do JAZZ.
Viva los hermanos!

GC: O título do álbum - Obstinado - serve como reflexão de comportamento para o músico brasileiro em relação à Música Instrumental, Jazz e Clássico?
LP: Sim, com certeza. A música instrumental está em sua época mais difícil desde que me entendo por músico, e já se foram 31 anos de profissão, 36 de música e mais de duas décadas como produtor. Só OBSTINADOs podemos continuar a registrar nossa produção artística, nossa obra, e é exatamente sobre isso esse CD. Nada de fórmulas marqueteiras, nada de "pitacos" sobre tendências idiotas que garantirão "retorno de venda", às favas com essa baboseira hipócrita. OBSTINADO é o que eu penso musicalmente sobre as minhas próprias idéias artísticas. Tenho certeza que só assim uma obra pode refletir a verdade estética de um compositor e por fim "tocar" o ouvinte, pelo menos àqueles que buscam arte verdadeira e o JAZZ na concepção mais ampla de liberdade de expressão musical. Só assim poderemos pleitear a sobrevivência de nosso ofício, dando longa vida à essas peças e, PRINCIPALMENTE, sobrevivendo ao descaso artístico e ignorância institucionalizada.

GC: Richard Bach também é improviso?
LP: Sim, com certeza. A família Bach toda era de "jazzistas", do barroco ao clássico. A improvisação morreu às voltas do período romântico pela arrogância e a prepotência de alguns compositores e principalmente da platéia, que queria ouvir sempre os mesmos solos. Daí em diante as chamadas cadências, seção de improviso na música erudita. passaram a ser escritas para que aplacassem à compulsividade neurótica da audiência. Hoje alguns solistas eruditos ainda improvisam de fato. São poucos, mas vem ganhando espaço no mercado. Enfocam a estética do "momento singular", onde aquela platéia será "dona" de um momento que não se repetirá mais (ao vivo pelo menos), EXATAMENTE o que o JAZZ está "careca" de fazer, VIVA o JAZZ! O maior representante do espírito clássico.

GC: O Clássico e o Erudito sempre são referências na formação musical. Essas escolas musicais estão, hoje, em segundo plano pela quantidade de conteúdo disponível pela tecnologia?
LP: Não vejo exatamente assim. O Erudito vem se enfraquecendo em sua renovação de criadores. Mas para os repetidores dos MESMOS compositores "clássicos" ainda há um mercado feito de ilusões e arrogantes roupagens de obras que todos já cansaram de interpretar e escutar.
Não é que não haja mais compositores NOVOS, o que não há são muitos ouvintes interessados no NOVO, seja ele Erudito ou no JAZZ, cada vez menos. Aqui no Brasil vejo isso como resultado CRUEL da tríplice aliança quase "imaculada" das políticas culturais - ECAD sem regulamentação, LEI ROUANET servindo à partidos políticos e deixando NADA para fomentação da produção genuína de cultura, e idéias sindicalistas arqueológicas que diminuem ainda mais os mercados agonizantes da música. Hoje mesmo recebi a notícia de mais um grande músico e professor carioca que começa a seguir outra carreira. Por que isso acontece? Porque ele sai para tocar e não tem ninguém para ouvir. Porque ele cada vez tem menos trabalho com pagamentos dignos que garantam a sua sobrevivência, porque sua estética é cada vez mais desacreditada até mesmos por seus semelhantes que tentam respirar como peixes em uma lagoa desoxigenada. Os que eu ainda posso ver hoje com destaque são habilidosos instrumentistas que cada vez mais tem que dispor da "pirotecnia" malabarística para "aparecerem" aos olhos e não aos ouvidos da audiência.
NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÃ (que já é hoje).

Tutti Gravissimo Corda Ana Azevedo Trio

GC: Voce é um inovador na nossa Música Instrumental, e isso é muito evidente nos trabalhos com o Quarteto Gravísssimo e com os Grupos Tutti e Corda. Como voce vê o cenário musical atual? 
LP: Obrigado pelo INOVADOR. Não me vejo exatamente assim, diria mais que sou CORAJOSO. Coragem que me custa algumas dificuldades e por outro lado tem me tornado mais singular SIM. Muitos e muitos hoje buscam a reinvenção da roda, mas ela já existe. Tento usá-la para expor minha arte, digamos assim.
O Gravíssimo Bass Ensemble por exemplo não é algo novo, mas ÚNICO. Pelo menos no Brasil nenhum Bass Ensemble sobreviveu até o CD, ainda mais tocando Jazz e Erudito. O TUTTI é uma pérola do jazz (modéstia à parte) totalmente incompreendida hoje pela grande maioria e o CORDA, que emocionou até a viúva do próprio Piazzolla, toca muito menos que deveria - digamos assim. Sem dúvida esses grupos trazem o frescor que seus integrantes buscam, são parte dos peixes asfixiados que estão TEIMANDO em colocar a cabeça fora d'água.
O cenário musical atual é SOMBRIO, muito cinza mesmo. Desculpe me repetir essa "letra" sempre em tom de "blues", mas quando você se depara com músicos de carreira sólida sem lugar para sequer tocar e leis de incentivo voltadas para o ENTRETENIMENTO DE MASSA e ASSISTENCIALISMO MEDÍOCRE E VULGAR apenas não aparece a tal da luz no fim do túnel, provavelmente porque estamos numa enorme e reeleita curva dentro desse túnel.
A verdade é que a Música renasce onde menos se espera. A onda musical vem vindo da Baixada e São Gonçalo. Lá a liberdade quase total da expressão artística é o que parece acabar com esse maldito túnel de ignorância cultural. Lá verdadeiros exércitos de jovens ávidos para se entregarem à grande arte descobrem o que a Zona Sul há tempos esqueceu - como a música boa faz bem e como o diálogo musical livre engrandece a existência aqui nesse planeta. Tenho certeza que a Onda Musical virá daí. Os políticos e os clérigos "atiraram no que viram e acertaram no que não viram", esses com certeza não vão entender nada quando essa Onda chegar.

GC: Empreender em Música de qualidade por aqui é dificil. Voce é um dos grandes responsáveis pela divulgação da nossa Música Instrumental, principalmente na formação de novos públicos. Voce acredita que as Leis de Incentivo são pouco flexiveis e dificultam mais do que ajudam em promover a cultura musical?
LP: As leis de Incentivo falharam, TODAS. Não servem para o que se prestariam. Li e ouvi recentemente que a lei Rouanet enfim será mudada, só que para pior, definitivamente. Como foi criada para ser temporária, deveria se retirar do cenário definitivamente, pois na verdade é um CÂNCER e um desserviço à cultura de verdade nesse país. Por não depender de mérito artístico e sim de apadrinhamentos corretos, por tentar mas não fomentar platéia e nem depender da mesma, os projetos não são só inócuos ou tendenciosos, eles simplesmente DESTRUÍRAM COMPLETAMENTE o mercado formal da cultura: a bilheteria. Hoje o trabalho do artista NÃO VALE NADA, só se ele estiver apadrinhado por um projeto dentro de uma ideia que foi preconcebida NÃO por ele. Então, onde está a  verdade artística desse princípio? Na figura do CURADOR apadrinhado de um partido? No partido político que detém o controle do patrocinador? Ou no futuro poder absoluto do FUNDO NACIONAL de CULTURA administrado pelo partido que estiver no governo?
A maioria das pessoas se "benzem" quando ouvem me falar da necessidade do FIM dessas leis "destruidoras de lares", exatamente como saiam correndo dos cometas há 150 anos, achando que era o fim do mundo. O fim do mundo cultural é ninguém passando na bilheteria, ou a meia entrada "paga" com o bolso do artista.
MORTE às Leis de incentivo que só servem para engordar os partidos políticos e corromper a arte!
MORTE à meia entrada com o dinheiro do músico - o governo não promove meio tributo, por exemplo!
VIVA a música pela sua beleza, sua promoção social natural e sublimação única!

GC: Falta direcionamento sobre Gestão na grade curricular de formação de um músico nas universidades?
LP: Sim. A Escola de Música vem apontando para esse caminho na UFRJ sob a batuta inteligente de seu diretor André Cardoso. Mas uma unidade dentro de uma Federal sozinha "não pode fazer todo o verão". Hoje o músico tem ser empreendedor, arranjador, produtor, entender de sonorização, luz, fotografia e marketing. É uma questão de simples sobrevivência. Se o próximo ministro da cultura e/ou da educação olharem a música e a formação de músicos com menos interesses partidários e mais inteligência a música poderá renascer por si própria, ela é maior que a burrice crônica dos políticos que a manipulam. Se não atrapalhassem já seria um grande passo, mas esse(s) político(s) vai(ão) precisar ser OBSTINADO(s), CORAJOSO(s) e ter ideias próprias para tal.
Vamos pagar para ver. A música merece coisa melhor!

Para adquirir o álbum, envie e-mail para contato@orquestradebolso.com.br
www.orquestradebolso.com.br/

Obrigado Lipe Portinho, e Sucesso !

Confira o documentário Vida de Músico, dirigido por Lipe Portinho e José Schiller, um relato sobre a inspiração de ser Músico -

A CAÇA E A CAÇADORA: MORGAN JAMES

13 novembro, 2014
Com seu segundo album, Hunter, a cantora Morgan James já se apresenta como uma das minhas favoritas, mérito que já tinha ganhado com seu álbum de estréia em tributo a Nina Simone, gravado ao vivo no Dizzy´s Club, NY.
Ela não é uma cantora de Jazz, e Hunter mostra um trabalho autoral com produção assinada pelo guitarrista Doug Wamble, que também participa do album. É uma leitura contemporânea do R&B.

O álbum abre com o tema título, marcado por um groove arrastado na guitarra de Wamble e os metais de Chase Baird, Ravi Best, Mike Fahie, Alphonso Horne e Ron Blake. "Say the Words" traz uma atmosfera intimista reforçada pelo Hammond de Roy Dunlap em que James largou a voz; assim como em "Heart Shake", que lembra um tanto a assinatura rítmica da Motown; e em "The Sweetest Sound", seguindo uma fórmula que já foi muito bem usada por Joss Stone.
James dá um tempero Pop em alguns momentos, como em "I Want You", "You Never Lied" e "Drown"; e na introdução a la Pretty Woman em "Fed up on You".
Um dos pontos altos do álbum é a balada "Let me Keep You", em que James realiza em duo com o pianista Robert Glasper, uma interpretação quase bucólica envolvida pelos acordes do piano e Morgan James estendendo e sobrepondo sua bela voz.
Na versão estendida do álbum, lançou a versão de "Call My Name", tema do Prince que ganhou o Grammy pela melhor performance vocal de R&B em 2005.



Morgan James Spotify

Leia também -

Morgan James: Tribute to Nina Simone

DOWNBEAT READERS POLL 2014

01 novembro, 2014
Saiu o resultado da edição 79 do Downbeat Reades Poll.
Foram 27.504 eleitores, e a maior votação da história do evento, batendo o recorde do ano passado, que já tinha sido o maior número.

Para Frank Alkyer, editor da revista, a edição deste ano foi especialmente gratificante, muito pelo fato de ver o guitarrista B.B. King inserido no DownBeat Hall of Fame, algo que ele esperava por muito tempo.

Pat Metheny novamente foi o protagonista com 3 premiações - álbum do ano por "Kin", grupo e guitarrista. Herbie Hancock, Maria Schneider e Robert Glasper também foram destaques com 2 premiações cada um.
Ainda Chris Potter, que também integra o Unity Group de Metheny, no sax tenor; Kenny Garrett no sax alto; a voz de Gregory Porter; e o reconhecimento ao contrabaixista Charlie Haden, que nos deixou recentemente.

A lista completa está na edição de dezembro de 2014 -
www.downbeat.com/digitaledition/2014/DB1412/

Confira os vencedores -

Hall of Fame: B.B. King
Jazz Artist: Chick Corea
Jazz Album: Pat Metheny Unity Group, Kin (Nonesuch)
Jazz Group: Pat Metheny Unity Group
Big Band: Jazz at Lincoln Center Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Chris Potter
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Herbie Hancock
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Charlie Haden
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibraphone: Gary Burton
Percussion: Poncho Sanchez
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Diana Krall
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: B.B. King
Blues Album: Buddy Guy, Rhythm & Blues (RCA/Silvertone)
Beyond Artist or Group: Robert Glasper Experiment
Beyond Album: Robert Glasper Experiment, Black Radio 2 (Blue Note)
Historical Album: Miles At The Fillmore 1970: The Bootleg Series Vol 3 (Columbia/Legacy)

downbeat.com

O TRIO DO PIANISTA GUSTAVO FIGUEIREDO

27 outubro, 2014
O pianista mineiro Gustavo Figueiredo lança seu primeiro álbum solo - { trio } - acompanhado pelo contrabaixista Pablo Souza e pelo baterista Marcio Bahia.
A força da música das Minas Gerais revelando novas fronteiras com o Jazz contemporâneo.

Um repertório cheio de nuances e atmosferas muito particulares em 9 composições, 8 delas autorais e 1 composição de Milton Nascimento - "Canção do Sal".
O álbum abre com uma roupagem bem brasileira no tema "Brasil Fest", um contagiante levada em samba-jazz com espaço para o improviso do contrabaixista Pablo Souza. E quando o assunto é música brasileira, o baterista Marcio Bahia deita e rola.
Gustavo realiza homenagens para sua filha nos belos temas "Manuela" e "Passeio no Parque", aqui alternando modulações entre o piano Rhodes e o acústico. "Emily" traz uma introdução melódica muito familiar em piano solo, e a composição ganha nova dinâmica ao longo da interpretação, cujo tema celebra a chegada da sua primeira sobrinha. "2011" apresenta uma forte assinatura do Jazz europeu, principalmente para quem tem familiaridade com o som do E.S.T., aqui caracterizado pela condução do contrabaixo de Pablo Souza.
O piano Rhodes se apresenta como protagonista em "Mark 1"; e um tributo mais que especial para o pianista Thelonious Monk em "Thelonious Groove", com destaque também para as baquetas de Marcio Bahia.


Com a palavra, Gustavo Figueiredo -

Gustavo Cunha: Conte um pouco sobre sua formação musical.
Gustavo Figueiredo: Comecei minhas primeiras aulas de teclado aos 12 anos com alguns professores particulares. Logo depois entrei na Pró-Music, escola de música em Belo Horizonte, onde também estudei teoria musical. Em grande parte do tempo, estudei sozinho, por vídeo-aulas, métodos e ouvindo grandes músicos. Retomei aulas de teoria com Lúcio Martins, harmônia e improvisação com Enéias Xavier e com o pianista Irio Júnior, e fiz também um curso de Jazz com o guitarrista Mattew Warnock, professor de Jazz na Western Illinois University.

GC: É seu primeiro álbum solo, na formação de Trio, e dois grandes nomes da nossa música instrumental ao seu lado. Fale sobre a proposta deste trabalho.
GF: Essa é uma formação que gosto e ouço muito, os trios de Jazz. Procurei fazer um CD sem muito exagero nos improvisos, queria mostrar mais as composições e arranjos, claro que com a liberdade dos improvisos, mas sempre na medida.
Quanto aos músicos, foi uma coisa muito natural. Há algum tempo tenho a honra de tocar no trabalho do grande baterista Marcio Bahia, que pra mim é um dos maiores do mundo, e fiquei muito feliz por ele ter aceitado o convite de participar do meu trabalho. Deixou sua marca e fez toda a diferença. Quanto ao baixista Pablo Souza, é um parceiro de muito tempo, tocamos em muitos trabalhos juntos e durante quase 2 anos tivemos um trio de Jazz tocando semanalmente em uma casa de Belo Horizonte. Então também foi uma ótima escolha.

GC: Você faz uso do Piano Rhodes, cuja sonoridade nos dá uma atmosfera e dinâmica muito particulares. Como o instrumento se integra na sua música?
GF: Na verdade, eu sempre me vi na necessidade de tocar usando timbres de piano elétrico, pois nem sempre temos uma estrutura ideal com piano nos teatros, festivais ao ar livre e casas de show. Então uso muito teclado, e como o timbre de piano acústico é muito difícil de se aproximar, uso muito a simulação do piano elétrico do Fender Rhodes, que eu adoro. Quando é possível, usos os dois no show, piano acústico e elétrico.

GC: Influências sempre são importantes na criação da nossa identidade musical. Você também acredita que toda a experiência musical que a gente carrega forma nossa musicalidade? 
Fale sobre algumas das suas influências.
GF: Com certeza! Tocar com músicos diferentes, com linguagens, estilos e exigências diferentes, faz com que nossa bagagem musical aumente e, assim, consequentemente vamos moldando a forma de tocar. Acho muito importante ouvir cada estilo para entender a concepção, e isso ajuda muito na musicalidade quando vamos tocar.
Algumas grandes influências - Cesar Camargo Mariano, Bill Evans, Herbie Hancock, Keith Jarrett, Brad Mehldau, Chick Corea, Milton Nascimento, Toninho Horta e Miles Davis.

GC: O piano é um instrumento harmonicamente muito completo, permite várias experimentações e diferentes abordagens. Como a criatividade se integra no seu processo de composição?
GF: Realmente o piano é muito completo devido a sua grande extensão e facilidade na visualização das notas. Eu não componho muito. Tenho momentos de inspiração por alguma coisa que acontece e esta inspiração pode se transformar em música, mas há momentos em que simplesmente me concentro em compor. Na maioria das vezes, junto com a composição, tenho idéias de arranjos que posso manter ou desenvolver mais quando vou me acostumando com a música. Sempre gravo uma guia quando termino o processo, que pode ser uma simples ideia ou até a composição toda, que às vezes sai de uma só vez.

Gustavo Figueiredo

GC: 3 álbuns marcantes para Gustavo Figueiredo.
GF: Vou citar alguns que me marcaram e que até hoje me inspiram -
"Samambaia: Cesar Camargo Mariano e Helio Delmiro". Gravado no ano em que nasci (1981). O Cesar é um músico que me inspira muito, principalmente na sua condução e swing, é muito autêntico. Acho isso a coisa mais difícil para um músico conseguir.
"Bill Evans: At Montreux Jazz Festival". Gravado em 1968. É pra mim um dos melhores trios de Jazz, com Jack Dejohnette e Eddie Gomez. Este foi um dos discos me fizeram apaixonar pelo Jazz. Sempre me surpreendo com a forma com o Bill Evans interpretava e conduzia a harmonia.
"From Ton to Tom: Toninho Horta". É um disco genial, de 1998. Toninho Horta faz uma homenagem à altura para o grande mestre, Tom Jobim. É um disco emocionante e inspirador com arranjos incríveis.

Obrigado Gustavo Figueiredo, e Sucesso !

gustavofigueiredo.com.br/

CONEXÃO NEW YORK: FREDRIK KRONKVIST

18 outubro, 2014
Para o saxofonista sueco Fredrik Kronkvist, o sonho era ir para NY tocar com os melhores músicos do planeta.

Ele cresceu em uma pequena cidade na Suécia. Seu pai, Rolf  Kometen Kronkvist, também músico, teve o privilégio de tocar com Dexter Gordon, Kenny Dorham e Sonny Stitt quando estes visitaram seu país. E foi a vasta coleção de discos do pai que deu a Fredrik uma fonte infinita de inspiração, uma oportunidade de explorar os muitos lados do Jazz.
Ainda adolescente, colocava os discos de Miles Davis e Horace Silver no prato, e ficava extasiado com a energia e swing que essas gravações passavam.
Hoje, ainda mantém a curiosidade e o entusiasmo daquelas gravações, e está sempre com a mente aberta para receber novos elementos e o lado emocional de todo tipo de música.

Blues, Soul, Swing, Afro, Funk e Música Brasileira estão entre as influências que Fredrick Kronvist carrega em sua música. Seus últimos álbuns são realmente contagiantes, ele já figura como mais um novo gigante do instrumento, com reconhecimento pelos mais importantes veículos de mídia do Jazz, entre eles a Downbeat e Jazztimes. Um músico extraordinário e que elegeu a capital musical do Jazz no planeta como residência.

New York Elements (2010, Conective Rec) foi sua primeira sessão de gravação na big apple, e teve ao lado o piano de Aaron Goldberg, o contrabaixo de Reuben Rodgers e a bateria de Gregory Hutchinson. E essa estréia em estúdios americanos não podia ser melhor, um time realmente da pesada e um sonho realizado. São 13 composições, 12 autoriais, exceto "Footprints" (Shorter). O album ganhou destaque nas revistas especializadas como Downbeat e Jazztimes.
Brooklin Playground (2012, Connective Rec) trouxe de volta seus companheiros Martin Sjostedt  no piano, Petter Eldh no contrabaixo e Snorre no Kirk bateria, com quem já tinha gravado. Aqui resgata clássicos em interpretações ousadas como em "Caravan" (Ellington) e "One Finger Snap" (Hancock). Mais um excelente trabalho.
Reflecting Time (2014, Connective Rec) resgata novamente o quarteto com Goldberg, Rogers e Hutchinson e, não menos contagiante, pontua improvisos criativos em 7 composições, entre Blues, mainstream e baladas, e  mais um clássico na brilhante interpretação de "In a Sentimental Mood" (Ellington).

Completam a discografia - Fredrik Kronkvist Sextet (2011), Constant Continuum (2010), Ignition (2007), In the Raw Trio (2006), Maintain! (2005) e Altitude (2003).


fredrikkronkvist.wordpress.com/

OPUS 5 REÚNE DIFERENTES LINGUAGENS DO JAZZ CONTEMPORÂNEO

06 outubro, 2014
Opus é uma palavra originada do latim, e significa Obra de Arte. Na Música, o significado tem valor inestimável, pela sua sempre crescente magia e poder. E é essa arte eloquente e tão apaixonante que torna possível colocar juntos em cena músicos que, com diferentes linguagens, criam uma nova expressão dentro de uma mensagem já conhecida de todos nós - o Jazz.

foto : Miquel Carol (Edwards, Kikoski, Blake, Koslov e Sipiagin)
Opus 5 reúne os russos Boriz Kozlov e Alex Sipiagin, contrabaixista e trompetista, o saxofonista canadense Seamus Blake, o pianista David Kikoski e o baterista Donald Edwards, todos artistas da gravadora Criss Cross.
Arranjadores e compositores, cada um com seus respectivos trabalhos solo e residentes na big apple, estes fantásticos músicos já estiveram juntos em diferentes combinações.
Opus 5 já tem três albuns lançados, todos pela Criss Cross - "Introducing Opus 5" (2011), "Pentasonic" (2012) e "Progression" (2013), e o repertório traz elementos do hardbop e do Jazz contemporâneo.

O contrabaixista Boris Kozlov é íntegrante e diretor musical da Mingus Big Band, Mingus Orchestra e Mingus Dynasty, grupos que carregam o legado da música do gênio Charles Mingus.
Kikoski também integrou a Mingus Big Band, inclusive está presente no álbum que deu o Grammy ao grupo, gravado ao vivo no Jazz Standard. Também compositor, atua fortemente no cenário jazzístico, tem uma ampla discografia como líder e como sideman já esteve em sessões ao lado de John Scofield, Dave Holland, Roy Haynes, Tom Harrell, Marcus Miller, Michael Brecker, Pat Martino , entre outros.
Seamus Blake já é reconhecido como um dos grandes do cenário emergente do Jazz contemporâneo. Em 2002, foi o primeiro colocado no "Thelonious Monk International Jazz Saxophone Competition", e já tem seis albuns em sua discografia solo.
Alex Sipiagin também partiu da Russia atras do Jazz na big apple. Integrou a Mingus Big Band, recomendado por Randy Brecker, e também esteve presente nas big bands de Dave Holland e Michael Brecker. Também possui uma extensa discografia como líder.
O baterista Donald Edwards vem ganhando reputação no meio jazzístico. Filho de pai pianista e mãe cantora, cresceu na Louisiana e fez raízes bastante diversificadas em marching bands, hip-hop, R&B, Funk e Gospel. Suas baquetas já desenharam ritmos para os Marsalis, Orrin Evans, Lonnie Smith e Russell Malone, e mantém uma incansável busca pela improvisação criativa, composição e experimentações rítmicas.

Introducing Opus 5 Pentasonic Progression

UMA VIAGEM SONORA COM O GUITARRISTA JAKOB BRO

26 setembro, 2014
O óbvio das coisas parece perder o sentido quando a interpretação delas vai além do significado comum. Angústias metafísicas existem, de fato, e fazem parte do universo pensante; são questionamentos muitas vezes sem respostas, e o ciclo nunca se fecha.
Viagens insólitas se apresentam e nos conduzem a estados que só a nossa própria imaginação é capaz de entender, e, sob uma análise mais racional, não encontramos elementos para explicar porque ali chegamos e ali estamos, e, mais ainda, porque aquilo pensamos. Assim nos percebemos em uma espécie de transe, em que, sem perceber, partimos em uma viagem sem rumo e no retorno desta jornada nos encontramos de volta em uma estranha realidade.
A música muitas vezes torna-se o veículo para essa, talvez, desorientada percepção, quando junto a ela se inserem atmosferas envolventes, intensas, melódicas e até mesmo sombrias.

Um dos protagonistas dessa viagem sonora é o guitarrista dinamarquês Jakob Bro. Músico de uma sonoridade ímpar, que o levou ao Jazz Denmark Hall of Fame e o mantém sempre em destaque no Danish Music Awards, as mais destacadas premiações do universo do Jazz em seu país.

Jakob Bro
foto : Paulo Cesar Nunes (Triboz-RJ)
Integrou o grupo liderado pelo trompetista Tomasz Stanko no álbum "Dark Eyes" (2009, ECM), em uma de suas formações mais elétricas; e teve ao seu lado, em álbuns como líder, músicos como Bill Frisell, Kurt Rosenwinkel, Chris Cheek, Mark Turner, Ben Street e Paul Motian, entre outros. E mantém seu trio regular com o contrabaixista Anders Christensen e o baterista Jakob Hoyer, em que gravaram um álbum de standards intitulado "Who Said Gay Paree" (2008).

Realizou um trabalho extraordinário junto com o saxofonista Lee Konitz e o guitarrista Bill Frisel, uma trilogia registrada nos álbuns "Balladeering" (2009), que inclui o contrabaixista Ben Street e o baterista Paul Motian, eleito como álbum do ano pelo Danish Music Awards; "Time" (2011), ao lado do contrabaixista Thomas Morgan; e "December Song" (2013), novamente com Morgan e o pianista Craig Taborn. Esta trilogia marca uma música bastante intimista, quase etérea, e ela concorre no Nordic Councils Music Prize 2014, premiação dada para artistas de países nórdicos.
Jakob Bro também dá um enfoque na música experimental, evidente no álbum "Bro/Knak" (2011), realizado em parceria com o produtor de música eletrônica Thomas Knak, e cujo trabalho traz ainda uma super formação, que conta, entre outros, com Paul Bley, Kenny Wheeler, Jeff Ballard e o The Royal Danish Chapel Choir. O registro é um álbum duplo, dividido em dois sets com leituras diferentes dos mesmos temas. Este album também recebeu destaque pela Danish Arts Foundation pela gravação do tema 'Pearl River".

December Song Balladeering Time Bro Knak

Em sua recente passagem pelo capital carioca, que se estendeu a outras praças, Bro apresentou-se na formação de trio, ao lado de Christensen e Hoyer, e realmente se mostrou um guitarrista fora do comum. Abraçado com uma Telecaster, não teve o virtuosismo como elemento protagonista, mas seus desenhos de formas melódicas ampliavam-se com o pleno domínio dos efeitos e recursos eletrônicos aplicados pelos seus pedais.
Entreter a audiência em uma viagem musical dessa natureza é uma arte para poucos, e méritos também para o trio, que soube cadenciar as dinâmicas necessárias para toda essa ambientação.
Percebe-se no seu toque uma forte influência de Bill Frisel, no timbre, na atmosfera; e fez reverência a dois outros grandes músicos que nos deixaram recentemente - o trompetista Kenny Wheeler e o saxofonista Yusef Lateef.

jakobbro.com/

A ARTE MUSICAL CONTEMPORÂNEA DESENHADA PELAS MÃOS DO DUO NAZARIO

20 setembro, 2014
Poder se expressar livremente é o grande desafio da arte musical. E experimentações musicais sempre fizeram parte do universo dos irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazario, o DUO Nazario.
Nos anos 70, a prática da improvisação livre os levaram a integrar o grupo de Hermeto Pascoal, este que sempre se mostrou além do convencional; e eram nos momentos de pausa das apresentações com o grupo do bruxo que o DUO costumava construir sua própria sonoridade, inserindo elementos da música eletrônica e do Jazz.
Ainda jovens, já mostravam domínio dessa linguagem improvisada e, assim, criaram uma identidade muito particular.

Amalgama é mais um resultado de toda essa musicalidade dos irmãos Nazario, cujo trabalho é consequência do Prêmio Funarte de Música Brasileira, que tem como objetivo estimular a criação e produção de projetos relacionados ao campo da música brasileira.
Somente com o uso de teclados e bateria, Lelo e Zé Eduardo Nazario apresentam uma música muito contemporânea, em que o acústico e o eletrônico se aliam em uma mistura de tendências promovendo passagens tão progressivas quanto melódicas, sem deixar de lado o universo da música brasileira.
Assim, o DUO se impõem como uma das mais vanguardistas formações da nossa Música Instrumental.

DUO Nazario

Amálgama é um álbum autoral, um verdadeiro diálogo entre Lelo e Zé Eduardo, com um repertório que traz novas leituras para temas antigos e novas composições, e Lelo é muito objetivo quando fala sobre elas -
"Refletem a enorme quantidade de eventos e informações que é gerada no mundo todos os dias, e busca exprimir em sons todos os aspectos dessa entropia crescente e suas consequências para a vida no planeta."
Para Zé Eduardo Nazario, o principal conceito de trabalho do DUO é experimentar múltiplas possibilidades de encontro entre linguagens e universos musicais com total liberdade criativa.

E Lelo Nazario nos conta um pouco sobre o trabalho -

Gustavo Cunha: É fato que essa química musical foi criada dentro de casa. Como surgiu a proposta de se consolidar, de fato, como DUO e começar a gravar juntos ?
Lelo Nazario: Isso se deu de uma forma natural, já que comecei, desde cedo, a compor material para tocarmos juntos e fomos, ao longo do tempo, consolidando um repertório extenso e bastante variado. O Zé Eduardo usa, além da bateria, muitos instrumentos de percussão, e eu gosto de criar “ambientes sonoros” com meus recursos eletrônicos e teclados, que são muito diferentes de música para música. Isto cria uma diversidade muito grande, ampliando a sonoridade do DUO. O fato é que, como irmãos, sempre estivemos juntos em vários trabalhos e nestes trabalhos sempre houve a possibilidade de realizar algo como duo também. Quando estávamos tocando com o Hermeto Pascoal ou com o Pau Brasil, muitas vezes era possível tocar algum material só nosso nas apresentações.
No final da década de 80, resolvemos “formalizar” o DUO, e começamos a fazer uma série de shows. Então, recebi o convite do maestro Roberto Farias para compor duas peças de vanguarda para a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, cujas peças foram apresentadas em concertos e com o DUO como solista. A partir daí o trabalho foi se consolidando cada vez mais até hoje.

GC: O título do álbum, Amálgama, tem implícito em seu significado a mistura de vários elementos, e aqui, é a Música o principal componente. É essa a proposta do DUO – misturar tendências, texturas e dar um novo significado sonoro às composições?
LN : Exato. O DUO é terra e ar. Os tambores, pratos e a percussão exótica do Zé nos remete ao chão, às raízes africanas, ao ritmo e à pulsação. Os sons eletrônicos e texturas nos levam ao sonho, aos grandes espaços, às possibilidades sonoras que não temos com os instrumentos convencionais. Então essa mistura de elementos tão diferentes e aparentemente antagônicos nos dá uma nova perspectiva sonora e é nessa premissa que se baseia a proposta criativa do DUO.

GC: Há muita experimentação e improvisação livre na música do DUO. De onde vem as influências de vocês?
LN: Estudamos música desde cedo e sempre gostamos de Jazz e Música Contemporânea, então partimos daí para estabelecer a base do trabalho do DUO. Não tenho muito apreço por imitadores, então, mesmo quando estudava a música dos compositores e pianistas que eu admirava, procurava reescrever frases e achar outras inversões para certos acordes. Assim, faço sempre essa “filtragem” para tentar chegar a uma sonoridade mais pessoal.
Em 1998, lancei o CD “Simples”, que traz algumas composições dedicadas a estes pianistas que eu admiro - Denny Zeitlin, Clare Fischer, Roger Kellaway e outros, e tentei dar às composições um pouco da personalidade de cada um desses compositores, mas, no final, acaba prevalecendo a minha maneira de tocar. O mesmo se dá com o Zé com relação aos grandes bateristas contemporâneos, como Elvin Jones, Jack DeJohnette, Tony Williams ou ao trabalho do Grupo de Percussão de Strasbourg.

GC: Como se dá o processo de gravação ?
LN: Em “Amálgama” optamos por gravar como se estivéssemos num concerto, ou seja, gravando um só take de cada música. Como já havíamos tocado bastante esse material nas turnês, acabamos optando por essa forma de gravar. Desse modo, o material soa mais vivo e os improvisos mais “quentes”. Tivemos a sorte de encontrar no estúdio Soundfinger parceiros que também trabalham dessa maneira, então o CD ficou com essa sonoridade viva, que é mais apropriada para o nosso repertório.

GC: A Música Instrumental Brasileira, mesmo com tão pouco espaço na mídia tradicional, mantém seu público muito fiel. Como vocês encaram esse cenário atualmente?
LN: A Música Instrumental no Brasil só existe graças a esse público e a poucos jornalistas que conseguem divulgar esse trabalho. Ao longo da nossa carreira, assistimos a grande mídia diminuindo paulatinamente os espaços para a divulgação da cultura em geral, não só a música. A competição pelo lucro e audiência é o mote dos empresários da comunicação, sem dar a mínima atenção para divulgar os bens culturais produzidos aqui. Nos países mais desenvolvidos existe, claro, a competição pelo lucro, mas lá existe também a consciência de que um bem cultural tem enorme valor e deve ser divulgado. É uma contrapartida que, aqui, existe cada vez menos. Certamente, isto tem um preço e as gerações futuras de brasileiros sentirão o efeito nocivo dessa prática.

GC: Fale sobre o Utopia Studio e o Soundfinger.
LN: Criei o Utopia Studio em 1980 para fazer experimentações com música eletroacústica e de vanguarda. Como consequência natural, passei a usar o estúdio também para produzir esse trabalho de maneira independente, já que não havia espaço para esse tipo de música na indústria fonográfica. Assim, lancei pelo Utopia meus álbuns solo em produções totalmente independentes, da gravação à distribuição. Além disso, comecei a criar trilhas para cinema, TV, dança, teatro e publicidade.
Sempre gostei também de engenharia de som e acabei me aprofundando nisso e assumindo essa função nos meus discos. Logo, comecei a receber convites de outros músicos para direção de gravação, mixagem e masterização e, com o tempo, o estúdio foi se firmando nessa área também, tendo um catálogo de grandes nomes da música brasileira, que inclui o Pau Brasil, Marlui Miranda, Nenê, Nivaldo Ornelas, Jorge Bonfá, Andrea Ernest Dias e outros.
No Soundfinger, encontramos um parceiro incrível para a produção de “Amálgama”. Paulo Aredes, seu idealizador, tem como filosofia dar prioridade a trabalhos autorais e gravações ao vivo, interferindo o mínimo possível na execução dos músicos. A ideia dele é resgatar técnicas e instrumentos usados nas décadas de 50, 60 e 70, mas com equipamentos de última geração. E foi nesse contexto de máxima sintonia e cooperação que gravamos e mixamos o album "Amálgama", que, depois, masterizei no meu estúdio.

O álbum pode ser adquirido na Livraria Cultura, Pop’s Discos, Locomotiva Discos e Baratos Afins.



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