CORPO E ALMA

12 agosto, 2016
Durante seu período de reclusão devido a um grave problema de saúde, o baterista Paulo Almeida intensificou sua produção artística. Fortemente inspirado por seu envolvimento espiritual ao longo desse tempo, suas composições deram um novo rumo à sua identidade sem perder o embasamento sólido do seu disco de estreia. Entrou em estúdio depois de um intenso processo de laboratório, que demandou muito trabalho e entrega para que o conteúdo desse registro tivesse força e solidez.
Assim é o disco Corpo e Alma, um forte simbólico entre a matéria e o plano espiritual, que vem com uma carga energética positiva, fruto da superação e de muito aprendizado.


A forte vivência de Paulo com a música universal norteou seu trabalho de composição e estética desde muito cedo. O desenvolvimento de suas pesquisas musicais o motivou a se aprofundar em novas concepções e ritmos de diversas regiões, o que se torna bastante presente na sonoridade deste trabalho, que ainda apresenta forte influência da música brasileira, berço musical dele e dos músicos que o acompanham. Sua música tem a função de despertar a curiosidade e a sensibilidade das pessoas, e mesmo sendo uma música sem letra acaba dizendo muito através de sua fluidez melódica, sonoridades timbrísticas e polirritimias trabalhadas.

Acompanhado por Fi Maróstica no contrabaixo, Dô de Carvalho no sax, flauta e clarone, Fabio Gouvea na guitarra e Diego Garbin no trompete e flugelhorn, ainda conta com as participações muito especiais de Hermeto Pascoal, Arismar do Espírito Santo e o pianista André Marques.
Sensível às artes de diferentes linguagens, o quinteto traz as influências do universo de cada músico para as composições de Paulo, apresentando um forte significado atrelado às suas experiências pessoais e deixando evidente o vínculo afetivo que se estabelece entre os integrantes, que estudam música juntos desde a adolescência. A interpretação de cada música se transforma a cada momento e ressalta o foco do trabalho na criação e improvisação coletiva.
Em constante produção como compositor e intensa atuação como intérprete, é um músico versátil e já gravou inúmeros registros de diferentes linguagens com renomados artistas. Ainda prestes a completar 30 anos, Paulo Almeida já se afirma no papel de artista experiente, e que ainda tem muito a contribuir para a música brasileira.

Com a palavra, Paulo Almeida -

GC: "Corpo e Alma" é o seu segundo disco, e o título reflete muito o sentido para tudo o que fazemos na vida. Podemos entender assim a mensagem deste trabalho?
PA: Exatamente! A palavra chave de qualquer coisa que você for fazer  é "amor", e corpo e alma significa a entrega para fazer as coisas com amor e carinho.
Para mim, o disco tem um significado ainda mais forte com esse nome porque todas as músicas foram compostas durante a preparação e a recuperação de uma cirurgia cardíaca. Digo que o que nunca me deixou na mão foi a música, e a ajuda energética de amigos desse plano material e do plano espiritual também. Eu me entrego cada vez maia à música, desde pequeno tenho essa visão, Comecei tocar com 8 anos de idade e, para mim, eu já sábia que era aquilo que tinha que fazer nessa passagem terrena. Por isso eu digo que a música é uma forma de oração, isso esta bem claro em minhas composições, nomes, jeito de tocar, improvisar e tudo mais. Isso tudo é gratidão pela vida e pelos amigos que conheci através da música.

GC: Muitos ainda pensam a bateria como instrumento só de acompanhamento, mas ela tem o seu papel fundamental na criação, e mesmo no sentido melódico. Como se dá o seu processo de composição?
PA: Olha, eu acredito que nada vem do nada (risos). Se tem um cara que começou a mudar tudo isso no Brasil foi o "Nene", baterista referência que tocou com o Hermeto e Egberto durante um bom tempo. Ele trouxe essa coisa da "Bateria Harmônica", jeito de tocar que muitos bateristas da nova geração, assim como eu, independente de estilo dentro do som instrumental, está aderindo na forma de tocar.
Meu guru e mestre Arismar do Espirito Santo, pessoa com quem tenho uma grande proximidade, diz a mesma coisa; a bateria harmônica vive aqui no Brasil e hoje temos grandes referências nesse sentido.
A improvisação coletiva no meu quinteto é criada muito em função da harmonia, melodias; e minha ideia é causar contrastes e sensações através da parte rítmica com recursos baterísticos, como timbres e polirritmia. Tudo se modifica na música e por isso amo improvisar e criar esses sons para passear em cima deles, feliz é o homem que improvisa.
O processo de composição para mim é muito intuitivo, normalmente componho em lugares que eu nunca teria um insight de compor, como por exemplo na rua. Por ter vivenciado a música desde pequeno, ter tocado nas igrejas, cantado e tudo mais, desenvolvi uma percepção e um jeito de criar bem próprio e intuitivo. Normalmente canto a melodia, mas eu já sei as sensações de acordes que quero (mas não sei o nome); esse mistério eu acho lindo porque quando sento no piano ou no violão tudo já se transforma novamente, O mundo esta em movimento, transição planetária e não faz sentido tocar (e fazer) sempre as mesmas coisas.


GC: Fale um pouco do grupo que o acompanha no disco, e como surgiu essa formação.
PA:O quinteto é formado por Fi Maróstica no baixo, Fabio Gouvea na guitarra, Diego Garbin no trompete e Dô de Carvalho no sax, flauta e clarone. São todos músicos que fizeram parte da minha formação. Convivemos nós todos no Conservatório de Tatuí, lugar onde o Fabio e o Diego trabalham até hoje. É uma amizade de no mínimo uns 10 anos de som, e meu primeiro disco contei com a benção do meu grande irmão que partiu para o outro plano de luz esse ano, o Vinicius Dorin. Inclusive esse disco novo Corpo e Alma é dedicado a ele, e também o Beto Correa no piano. O que mudou do primeiro disco "Constatações" para o segundo foi muito a parte de timbres por causa da substituição da guitarra pelo piano, coisa que meu ouvido estava pedindo há algum tempo.
Tem as participações de Hermeto Pascoal, que é nossa grande referencia hoje no Brasil, o André Marques que também conheci em Tatuí pois estudei com ele e toquei um tempo na orquestra Vintena Brasileira, que ele lidera, e meu querido cumpadi Arismar do Espirito Santo, com quem tenho tocado recentemente no trabalho próprio dele.

GC: A linguagem do jazz é universal e no seu trabalho se encontra fortemente com a elementos da música brasileira, nas suas respectivas formas. Que influências você carrega na sua música?
PA:Com certeza. O jazz trouxe esse jeito de criar em cima de uma forma, de um tema, de voar, de sair desse plano. Tenho grandes referencias dentro do jazz como Coltrane, Miles Davis e Wayne Shorter. Tenho fortes influencias de berço da igreja no qual tenho gratidão, hoje não frequento mais; sou espírita mas minhas melodias me lembra muito minha infância na qual eu tocava hinos da harpa cristã e cantava coros. Na parte da música brasileira, sou um cara que gosta de pesquisar os ritmos regionais do Brasil e da África. Dou oficinas sobre ritmos brasileiros e tenho meu trabalho de samba autoral em que canto e componho. Além disso, tive como formação a Música Universal (conceito criado pelo Hermeto) em que se faz músicas sem rótulos, preconceitos e improvisação coletiva, aprendendo a se respeitar dentro do som até chegar numa conexão espiritual. Outra grande influência é o Arismar, pessoa que traz com ele uma bondade e generosidade ímpar, junto com o seu som lindo. Muita gente que faz essa pergunta de referencias para mim me diz - "você não falou nenhum baterista?" (risos) Pois é, gosto de pensar a música pela música e não por instrumento, o instrumento é como se fosse um transporte, a música tem de estar dentro de você.

Obrigado Paulo Almeida, e sucesso.

Você pode adquirir o disco "Corpo e Alma" no iTunes e na loja virtual da página de Paulo Almeida no facebook; e também pode ouvir pelo spotify e deezer.


http://almeidacontatopaulo.wix.com/pauloalmeida

VIVA HERMETO

07 agosto, 2016
Hermeto Pascoal é uma referência na música instrumental contemporânea, aqui e no mundo, não à toa é conhecido como "bruxo", por sempre inovar em tirar sons de chaleiras, baldes, pedras, garrafas, brinquedos e qualquer objeto da natureza que emita som, um verdadeiro alquimista musical. Tem entre suas obras o "Calendário do Som" em que escreveu 1 composição por dia durante um ano inteiro, intitulando as músicas com os respectivos dias do ano, um documento que sempre é um guia para os amantes da música. Hermeto é autor de uma ampla e diversa obra; multi-instrumentista, é um dos mais inventivos compositores da história da música.


Para celebrar a obra e a música de Hermeto, uma homenagem mais que especial protagonizada pelo pianista André Marques, Viva Hermeto; aqui com uma fantástica formação de trio ao lado do contrabaixista John Patitucci e o baterista Brian Blade. O encontro desse trio deu-se quando André, em turnê com Hermeto na França, foi assistir ao lado do mestre ao show do saxofonista Wayne Shorter e quando entraram no camarim todos o reverenciaram de forma efusiva; e foi a oportunidade para André conhecer Pattittuci e Blade, que integram o quarteto de Shorter, surgindo a ideia de promover um disco somente com o repertório dele. André é integrante do grupo de Hermeto há muito tempo, e no encarte do disco revela que o objetivo desse projeto é fazer um recorte da sua obra como compositor. No repertório, são 13 temas com uma roupagem muito particular em que destacam-se "O Ovo", "Bebê", "Coalhada", "Chorinho pra Ele" e "Boiada"; há uma bela interpretação solo para "Ferragens"; a participação do percussionista Rogerio Boccato em "Tacho"; e um tema que nunca foi gravado por Hermeto, "Na Guaribada da Noite".

"Viva Hermeto" foi gravado no Water Music Studio, em New Jersey, e foi lançado por aqui pela gravadora Boradá.

DOWNBEAT CRITICS POLL 2016

01 julho, 2016

Divulgada a lista da edição 64 da Downbeat Critics Poll.
Nomes já consagrados figuram entre os vencedores, como Joe Lovano, Charles Lloyd e Wayne Shorter, mas o mais interessante nessas listas são as novidades, que aguçam nossos ouvidos para a busca de novos sons.

Assim como na edição anterior, dobradinha para o pianista Vijay Iyer, o contrabaixista Christian McBride, o saxofonista barítono Gary Smulyan, a clarinetista Anat Cohen e as vozes de Cécile McLorin Salvant e Gregory Porter.
Entre os destaques, o saxofonista Kamasi Washington, que ganhou muita força com o lançamento do seu álbum triplo "The Epic", eleito álbum do ano e artista em ascensão nas categorias jazz e sax tenor.
Ainda, o pianista Randy Weston eleito para o Hall of Fame; Maria Schneider, vencedora em 3 categorias - big band, arranjadora e compositora; e o blues de Buddy Guy.


A lista completa -

Hall of Fame: Randy Weston
Veterans Committee Hall of Fame: Hoagy Carmichael
Jazz Artist: Vijay Iyer
Jazz Album: Kamasi Washington, The Epic
Historical Album: Miles Davis, Miles Davis At Newport 1955–1975: The Bootleg Series Vol.4
Jazz Group: Charles Lloyd Quartet
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Ambrose Akinmusire
Trombone: Wycliffe Gordon
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Rudresh Mahanthappa
Tenor Saxophone: Joe Lovano
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Kenny Barron
Keyboard: Robert Glasper
Organ: Joey DeFrancesco, Dr. Lonnie Smith
Guitar: Bill Frisell
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Marcus Miller
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Hamid Drake
Vibraphone: Gary Burton
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Buddy Guy
Blues Album: Buddy Guy, Born To Play Guitar
Beyond Artist or Group: David Bowie
Beyond Album: David Bowie, Blackstar

Artistas em ascensão -

Jazz Artist: Kamasi Washington
Jazz Group: JD Allen Trio
Big Band: Christine Jensen Jazz Orchestra
Trumpet: Marquis Hill
Trombone: Michael Dease
Soprano Saxophone: Donny McCaslin
Alto Saxophone: Grace Kelly
Tenor Saxophone: Kamasi Washington
Baritone Saxophone: Lisa Parrott
Clarinet: Oran Etkin
Flute: Elena Pinderhughes
Piano: Joey Alexander
Keyboard: Nik Bärtsch, Sam Yahel
Organ: Pat Bianchi
Guitar: Liberty Ellman
Bass: Luques Curtis
Electric Bass: Tim Lefebvre
Violin: Mads Tolling
Drums: Mark Guiliana, Kendrick Scott
Percussion: Ches Smith
Vibraphone: Khan Jamal
Miscellaneous Instrument: Omer Avital
Female Vocalist: Kate McGarry
Male Vocalist: Ku-umba Frank Lacy
Composer: Christian Scott aTunde Adjuah
Arranger: Christine Jensen
Producer: Zev Feldman

A lista completa na edição de agosto/2016 da Downbeat.
www.downbeat.com

ALMA

22 junho, 2016
O guitarrista Michel Leme apresenta o décimo álbum da sua discografia, Alma.
Acompanhado pelo piano elétrico de Felipe Silveira, o contrabaixo de Bruno Migotto e a bateria de Bruno Tesselle, traz um trabalho autoral e gravado ao vivo, em um único take, com 5 temas bastante intensos em mais de 1h de muita inspiração e transpiração, mostrando que essa formação do quarteto se consolidou de forma singular, a mesma presente no álbum anterior “9” (2015).

Eu sou muito suspeito para falar da música de Michel Leme, e, particularmente, o resultado desse trabalho o coloca entre os meus preferidos. Dinâmica, improviso, groove - está tudo aí.
A arte da capa é do próprio Michel Leme, e o título do álbum, também atribuído a uma das faixas, não tem necessariamente um significado espiritual, e como Michel afirmou em outras entrevistas simplesmente pretende reforçar a ausência da alma nesses tempos de boçalidade generalizada.

Michel Leme Quarteto

Definitivamente, definir a música, sob qualquer perspectiva, é inútil. A usina criativa de sons que esse quarteto coloca nesse álbum realmente é de impressionar. Fazia tempo que não ouvia um quarteto com guitarra e rhodes tão eletrizante, e aqui os temas longos dão liberdade para os improvisos, que, por mim, deviam ser infinitos.

"Nave" introduz com um fraseado intenso de Michel, que logo abre caminhos para o walking de Migotto dar base ao improviso frenético de Felipe com muito swing. Destaque aqui para as pontuações de Tessele, que não abre mão do silêncio em determinadas passagens.
"Joaquim" mostra uma perfeita unidade, melodia marcante e o tema faz homenagem ao filho recém-nascido de Felipe; e Michel encadeia o solo com uma digitação primorosa, preciso, objetivo, fraseado intenso e livre; o solo de Felipe traz uma dinâmica mais cadenciada, mas não menos intenso, e tem que destacar as belas colocações da guitarra de Michel em contraposição ao solo do rhodes.
"O Biltres" traz uma quebradeira das boas. Um boogaloo, que Michel afirma gostar muito de tocar nessa onda. Ritmo latino por natureza, foi muito explorado no fusão do jazz setentão. Aqui Migotto abre os improvisos, seguido por um inspiradíssimo Felipe incendiando o rhodes com um groove estonteante, e ainda solos de Michel e Tessele, ao final dialogando.
O repertório repousa justamente em "Alma", coincidentemente ou não, e você dá o sentido à palavra. Com uma introdução introspectiva de Michel, o tema se desenvolve sobre uma melodia confortante, seguido dos solos de Felipe, Michel e Migotto. Fechando a caixa, “Celso Childs Blues Jr”, que traz o espírito do blues e cujo tema dá sequência ao tema registrado no DVD "Na Montanha". O título faz referência a um velho amigo de Michel que vive recluso e que curte fazer poemas sobre jazz.
Um disco obrigatório para os amantes da boa música.



Com a palavra, Michel Leme -

GC: Alma traz novamente o quarteto formado em “9”; e percebe-se uma integração ímpar do grupo, tanto que o registro dessa sessão deu-se espontaneamente, certo?
ML: O quarteto com Felipe Silveira (piano), Bruno Migotto (baixo) e Bruno Tessele (bateria) está atuando desde outubro de 2014, e vem sendo uma experiência além do que cada um de nós esperava.
Este grupo nunca ensaiou. Eu envio as partituras por e-mail e a gente estréia os temas tocando. Ensaiar é Ok, respeito a opção de cada um, mas para este grupo não funciona assim. Nós vivemos e observamos o processo ao vivo, o que é arriscado, porém mais natural e estimulante.
“Alma” foi gravado numa tarde, com apenas um take para cada faixa. Gravamos “Nave”, “Joaquim” e “Os biltres”, e aí paramos para tomar um café. Uma horinha depois, nós voltamos e gravamos “Alma” e “Celso Childs Jr”.
Como cito no encarte, a ordem que se ouve no disco é a mesma que aconteceu na gravação, e não há truques quaisquer de pós-produção. Gravamos no Táta Estúdio, na casa do Bruno Tessele, e a captação foi do Flávio “Tsunami” Tsutsumi da Sho’You Áudio & Vídeo.

GC: "Os biltres" traz um groove contagiante, que lembra um tanto aquele contexto da fusão do jazz setentão. Foi nesse espírito que se desenvolveu o tema?
ML: “Os biltres” é um tema que exige bastante de mim para improvisar; é composto apenas por acordes dominantes, em vários tons. O boogaloo, que já usei em outros temas, é um ritmo que surgiu na década de 60 e que aceita naturalmente outros ritmos, o que combina bastante com o que fazemos.
O contexto que você comenta também é verdade, e acho que principalmente pelo timbre que o Felipe usou e sobre o qual falaremos a seguir. Também sinto que “Os biltres” instiga nossos “palavrões” e coisas mais “safadas” musicalmente.

GC: "Joaquim" e "Alma" tem fortes traços melódicos. Há uma fronteira estabelecida entre a melodia, harmonia e improviso, e como você combina isso?
ML: Tudo acaba se fundindo conforme vamos tocando e ficando mais à vontade com os temas. A execução do tema de “Joaquim” no disco já difere de como está na partitura, porque já havíamos tocado antes e o momento me levou a tocar coisas diferentes. Isso mostra que a improvisação já está presente desde a própria execução do tema. A melodia do tema, por sua vez, é um alicerce importantíssimo para a improvisação. Se o ouvinte prestar atenção, a melodia principal (Fá Mi Re) está presente em vários momentos do meu solo - com variações, mas está lá. Quanto à harmonia, ela é negociável. O Felipe muda os acordes e o Migotto inverte os baixos em vários momentos. Eu confio na intuição deles e embarco na viagem, ao mesmo tempo em que estou atento ao caminho melódico que estou trilhando. Manter a coerência no discurso e, ao mesmo tempo, usar o que seus companheiros estão tocando é um grande desafio, mas que só aprofunda a experiência.

Bruno Migotto, Felipe Silveira, Michel Leme, Bruno Tessele

GC: O blues se mostra bem presente em "Nave" e "Celso Childs Jr". É fato afirmar que essa forma enraizada excita e ajuda a experimentar novas formas de expressão?
ML: Certa vez eu testemunhei alguns rapazes de linhagem aristocrática que estudaram em uma universidade muito cara no exterior referindo-se ao blues como algo risível. Aí me veio a pergunta: “se o blues é tão banal, porque não fazem música de fato sobre ele?”. Bem, a resposta é óbvia: “não fazem”. E, assim, o mundo perdeu excelentes médicos, advogados, contadores, etc. Menciono esta passagem apenas para mostrar um extremo acerca da questão “o que é fácil e o que é difícil?” ou “o que é básico e o que é avançado?”.
Pessoalmente, não vejo diferença em termos de dificuldade entre um tema como “Giant Steps” e um blues maior. As duas estruturas são desafiadoras, e fazer algo de que você realmente goste sobre elas demora muito tempo. Há muito que explorar nestas formas, e elas nos revelam verdadeiros tesouros. Mas aí se trata de respeitar a grandeza da música para merecer o que ela tem a oferecer, e isso não é todo mundo que enxerga, principalmente neste momento com tanto “gerenciamento de carreira”, “music business”, “jazz acadêmico” e, enfim, tantos escombros sobre a música.
Sinais de uma sociedade doente e das consequentes fraquezas de cada um ao ceder à ideologia dominante, aquela que transformou a sociedade num ringue onde a ganância e a competição nocautearam a solidariedade, e onde a estupidez e a boçalidade desclassificaram a elegância e o bom senso. Por outro lado, no ato de tocar ainda podemos atestar a verdade e a vida contidas em tratar o outro como igual, em ouvir de fato o que o outro diz, na liberdade de poder expressar aquilo que você é etc. Talvez seja por isso que a música real é tida como não-existente e os reais músicos tidos como párias, porque artistas de fato não são substituíveis como as marionetes das gravadoras, mídia e/ou grandes empresas. Enfim, a disseminação de tudo o que é reles vai construindo a imbecilização do ser humano, cada vez mais dominado, passivo e desprovido de senso crítico. Vivemos de exceções.

GC: O piano rhodes tem um registro próximo da guitarra, às vezes soa bem sujo, rústico. Como você enxerga essa sonoridade ao lado da guitarra?
ML: O Felipe usou um cabo que fez o teclado dele ficar distorcido em vários momentos, fato observado pelo Tsunami (Flávio Tsutsumi) durante a mix. Eu achei lindo, porque simplesmente foi o que aconteceu e algumas sujeiras são bem-vindas. Deixo a assepsia para quem acredita nela em se tratando de música.
Sobre a questão do timbre, já ouvi alguns discos onde o piano acústico engoliu a guitarra na mix. Claro que isso é possível de ser evitado; basta colocar volume na guitarra, coisa de que muitos técnicos têm medo - ou simplesmente não sabem ou não tem referência. Mas, assim como prefiro baixo elétrico - porque não traz todos as questões para captar o acústico, como o baixista ter que ficar numa sala separada do grupo etc.-, também prefiro o timbre de Fender Rhodes no teclado ao invés do piano acústico, pelo menos para este grupo.
E mesmo com o timbre de Rhodes sendo próximo da guitarra, como você bem ressaltou, um não “briga” com o outro. Eu e o Felipe, assim como todo o grupo, ouvimos tudo o que o outro toca, o que também faz a coisa dar certo, já que tentamos tocar de forma complementar.

GC: Entendo a criação de uma composição como um projeto, literalmente, um projeto de inovação, com início, meio e fim; e adicionado por elementos lúdicos, a veia artística e o instrumento como ferramenta. 
É exagero pensar dessa forma?
ML: Não vejo como exagero algum. Quando componho, o objetivo é criar um cenário para improvisar. Algumas composições vêm de uma provocação do tipo “e se...”, outras vêm de reaproveitar ou subverter alguma estrutura tradicional, enfim, as fontes variam. A questão é organizar estas idéias de forma que se tornem músicas tocáveis por um grupo, e que façam sentido.
É preciso ser honesto consigo mesmo para atestar se o que você escreveu é uma música para ser apresentada para o grupo ou apenas mais um estudo pelo qual você fica agradecido, claro, mas que apenas pertence à gaveta. Eu fico tocando sozinho cada tema até ter certeza de cada detalhe. E só envio para os caras depois de atestar que se trata de uma música de fato e que vamos, no mínimo, nos divertir tocando. E é importante dizer que, a partir daí, a partitura não é sacra, ou a “Tábua da Lei”. Há que se assimilar, memorizar e compreender o conteúdo, mas, daí em diante, tudo está subordinado ao momento.

Fico feliz ao ver que é possível ter um repertório de temas próprios que gere o mesmo prazer que temos ao tocar um standard. Comecei a entender isso assistindo a algumas apresentações por aí: quando o repertório era autoral estavam todos lendo e tocando tensos; quando era um standard, todos relaxavam e a música acontecia. Tento me lembrar disso para equilibrar as coisas ao compor.

GC: 10 álbuns na discografia, incluindo 2 DVDs. Para a música instrumental brasileira atual é mais que um número, e uma infinita satisfação para nós poder desfrutar de toda essa música. Para Michel Leme, é desafiador manter-se tão ativo, e mais, criativo?
ML: O desafio é constante, e sempre acompanhado de prazer e aprendizado. Sinto-me humildemente honrado e agradecido por tudo o que vem acontecendo na minha trajetória. E sigo tentando não atrapalhar a música. Um grande abraço a todos!

Obrigado Michel Leme, e sucesso.

www.michelleme.com

Você encontra "Alma" nas plataformas iTunesDeezer e Spotify, e pelo e-mail michel@michelleme.com.
"Alma" teve o apoio das marcas D’Addario, EM&T, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria, Rotstage, Sho’You Audio&Video e Poptical Banana Gourmet.

Mais Michel Leme -

Arquivos Vol.1 Na Montanha Michel Leme 9 Bruno Migotto In Set

BLACK HOLE QUARTET

05 junho, 2016
A cena italiana do jazz sempre muito forte, aqui apresentada pelo quarteto Black Hole formado por Daniele Cavallanti no sax, Walter Donatiello na guitarra, Michelangelo Flammia no contrabaixo e Tiziano Tononi na bateria. O grupo explora de forma muito fluente o experimentalismo e o livre improviso, criando uma música bem contemporânea, fazendo do jazz uma linguagem que vai além do tradicional.

O saxofonista Daniele Cavallanti é muito atuante no cenário jazz europeu, líder de várias formações entre duos, quartetos, sextetos e combos sem elementos harmônicos e ensembles, fazendo da música criativa o motor de suas composições. Sempre ao seu lado o baterista Tononi, fiel companheiro de jornadas musicais, com quem fundou nos anos 80 o grupo Nexus, inspirado na música de Charles Mingus, Ornette Coleman, John Coltrane, Albert Ayler e Don Cherry.
O guitarrista Walter Donatiello frequentou Berklee e teve mestres como Mick Goodrick, Joe Pass e Pat Metheny. Apaixonado pela raiz musical afro-americana, fonte de seus estudos e aspirações, mergulhou no estudo do ritmo e da música de vanguarda, o que o levou a conhecer os guitarristas Marc Ribot e Marc Ducret, expoentes da guitarra livre.
O contrabaixista Michelangelo Flammia carrega em sua formação músicos clássicos contemporâneos (Schoenberg e Cage) e representantes da musica minimalista (Philip Glass e Robert Fripp), e foi do encontro com o guitarrista Donatiello que deu o início da construção de um projeto que explorasse novas formas de composição e improvisação.

Black Ol' Blues é o segundo álbum do Black Hole Quartet, e foi gravado em julho de 2010 no Lab Service Studio, Milano, lançado pela gravadora Rudi Records.

SANTANA REVISITADO POR ELE MESMO

21 maio, 2016
É inegável a originalidade do registro da guitarra de Carlos Santana, uma marca que se faz evidente desde sua apresentação no festival de Woodstock e que se consolidou nos extraordinários primeiros álbuns de sua discografia – Santana (1969), Abraxas (1970) e Santana III (1971).
A época foi um momento de intensa explosão criativa, muito influenciada pela cultura do jazz que se unia com a energia do rock e a psicodelia fazendo emergir uma nova identidade musical que se desenvolveria por toda a década seguinte, transformando a música em surpreendentes viagens sonoras.

Desde o lançamento do álbum III, a música de Santana se transformou, se afastou do experimentalismo e se aproximou do pop e da música comercial, mas a assinatura de sua guitarra sempre esteve presente.
Passados 45 anos do lançamento de III, ele nos surpreende com Santana IV, trazendo de volta os músicos dos primeiros álbuns como o tecladista e vocalista Gregg Rolie, o baterista Michael Shrieve, o percussionista Mike Carabello e o guitarrista Neal Schon, este ainda muito jovem na época e que viria a participar também do álbum Caravanserai (1973).
A ideia desse encontro surgiu por iniciativa de Neal, que sugeriu ao líder que gravassem algo juntos, o que os levou a chamarem os amigos que participaram da sessões iniciais da época e rotularem o novo trabalho como sequência do último álbum gravado em 1973.
Lógico que, quase meio século depois, a textura do som desses caras carregaram diversas influências e nuances, mas ainda percebe-se que o romantismo criativo e lisérgico das improvisações ainda corre muito forte nas veias. 
Santana IV traz 16 composições incorporando todos os elementos que predominaram na música de Santana por todo esse tempo – os ritmos latinos, as pontuações vocais, muita percussão e muito improviso. Os fãs vão perceber muito do velho Santana e a energia chicana do timbre da sua guitarra.
A formação atual traz ainda Benny Rietveld no baixo, Karl Perazzo na percussão e Ronald Isley nas vozes.



www.santana.com/

BLUES MUSIC AWARDS 2016

07 maio, 2016
Blues Music Awards 2016
Mais uma edição do Blues Music Awards, que chega ao número 37 celebrando o blues e homenageando os artistas que promoveram o estilo ao longo do último ano.
Nossa maior expectativa girava em torno da nomeação da Igor Prado Band, concorrendo pela primeira vez na categoria de revelação do blues com o álbum “Way Down South”. Não foi dessa vez que o prêmio veio na bagagem, mas só pelo fato de Igor prado, Rodrigo Mantovani e Yuri Prado estarem lá já é motivo de muito orgulho para nós. Igor é, sem dúvida alguma, nossa maior referência do blues mundo afora.

Entre os destaques dessa edição, Buddy Guy que, aos 79 anos, levou o prêmio de melhor álbum do ano e melhor álbum de blues contemporâneo com “Born to Play Guitar”; Walter Trout, que recuperou-se de um transplante de fígado foi outro grande vencedor nas categorias de melhor álbum de rock-blues e melhor canção pelo álbum “Battle Scars”. Na linha do soul-blues, Otis Clay destacou-se como artista e álbum com “This Time for Real”; e Allen Toussaint, que nos deixou recentemente, homenageado com o prêmio Pinetop Perkins Piano Player of the Year.

Confira os premiados –

Acoustic Album: The Acoustic Blues & Roots of Duke Robillard – Duke Robillard
Acoustic Artist: Doug MacLeod
Album: Born to Play Guitar – Buddy Guy
B.B. King Entertainer: Victor Wainwright
Band: Victor Wainwright & the Wild Roots
Best New Artist Album: The Mississippi Blues Child – Mr. Sipp
Contemporary Blues Album: Born to Play Guitar – Buddy Guy
Contemporary Blues Female Artist: Shemekia Copeland
Contemporary Blues Male Artist: Joe Louis Walker
Historical: Buzzin’ the Blues by Slim Harpo (Bear Family Records)
Instrumentalist-Bass: Lisa Mann
Instrumentalist-Drums: Cedric Burnside
Instrumentalist-Guitar: Sonny Landreth
Instrumentalist-Harmonica: Kim Wilson
Instrumentalist-Horn: Terry Hanck
Koko Taylor Award: Ruthie Foster
Pinetop Perkins Piano Player: Allen Toussaint
Rock Blues Album: Battle Scars – Walter Trout
Song: “Gonna Live Again” – Walter Trout
Soul Blues Album: This Time for Real – Billy Price & Otis Clay
Soul Blues Female Artist: Bettye LaVette
Soul Blues Male Artist: Otis Clay                      
Traditional Blues Album: Descendants of Hill Country – Cedric Burnside Project
Traditional Blues Male Artist: John Primer

www.blues.org

A TRAJETÓRIA DO ROCK AO JAZZ DO GUITARRISTA JORGE SHY

18 março, 2016
O guitarrista Jorge Shy foi um dos protagonistas da cena rock nacional nos anos 80. O interesse pelo jazz o levou a ingressar na Berklee College of Music, em Boston, no início dos anos 90, época em que lá, como ele mesmo afirma, transpirava o estilo; afinal muitos grandes músicos embarcaram nessa experiência. Graduou-se em Jazz Composition e Film Scoring, e desde então carrega em sua música os elementos da improvisação e da experimentação, reservando as influências do rock, do jazz, da bossa e da música brasileira.

Somebody’s Waiting é o terceiro álbum de sua discografia, e Jorge Shy está acompanhado pelo seu habitual trio formado por Marcos Flo no contrabaixo e Caio Milan na bateria, juntos desde 2008, e conta com as participações de Rubinho Antunes no trompete, Ricardo Pacheco no piano, Israel Ring no sax, Rubens de La Corte no violino e Sandra Tornicce no violoncelo.
O álbum foi gravado entre julho de 2014 e março de 2015, e traz 8 composições em que Shy não se prende a uma busca de uma única definição estilística, ele quer oferecer aos amantes da música instrumental uma obra consistente, que se complementa a cada composição.


Com a palavra, Jorge Shy -

Como deu-se a sua ligação com a música instrumental e o jazz?
A minha ligação com a música instrumental vem de longa data. Ainda um roqueiro consciente, comecei a conhecer a música de Miles Davis, de John McLaughlin e a Mahavishnu Orchestra, e comecei a frequentar aquelas primeiras edições do Free Jazz Festival, onde assisti um show do Pat Metheny Group no Palace, acho que em 1983. Ali foi um divisor de águas para mim, e comecei a me interessar e estudar música mais a fundo.

Berklee é uma escola de referência, e você tem a formação em jazz por lá. Como você descreve essa experiência, e o quanto ela transformou sua forma de pensar música?
Berklee na minha época ainda transpirava jazz (nao sei hoje em dia), e o fato de você ouvir grandes músicos estudando e tocando nos bares é bastante estimulante; fora a competição saudável de todos em alcançar seus objetivos . Na verdade, tocar enquanto eu estava lá nunca foi a prioridade, eu queria escrever musica e fui pra Jazz Composition, Film Scoring, este tipo de coisa . Tocava sim, jazz, acid jazz que na epoca era "moda", música brasileira e estudava improvisação e piano. Acho que tudo isso fez com que eu ganhasse "estofo", e  diria que ficou armazenado e ainda está, pois ainda exploro ideias e conceitos de um época mágica. O tema "Somebody's Waiting foi composto e tocada lá, assim como "Campana".

Em “Somebody’s Waiting” você reforça algumas influências. Fale sobre a música que o inspira.
Verdade. Eu demorei para encontrar o meu som, vinha do rock e blues, estudei erudito, me envolvi com jazz, a música de Jobim e Toninho Horta; foi difícil colocar tudo isso em um liquidificador e resultar no que faco hoje em dia, que, na minha modesta opinião, é música contemporânea. Misturo minha veia de rock e blues nos solos e na pegada com a guitarra elétrica, e desenvolvo esee trabalho de violão que me permite utilizar outras influências como parte de composição, harmonia da música brasileira, folk e outros estilos .


Como formou-se o grupo que o acompanha nesse trabalho?
Comecei a tocar com o baixista Flo e a experimentar coisas novas, ele trouxe o baterista Caio Milan e começamos a fazer shows e experimentações no Souza Lima, onde leciono. Desde 2009 iniciamos esse processo e eles foram me ajudando e compreendendo o estilo. O mesmo aconteceu com o pianista Ricardo Pacheco, que conheço de Boston e tocamos muito juntos há muitos anos .

Que equipamentos usou nessa sessão?
Nesse trabalho utilizei Gibson Les Paul, Fender Telecaster modificada, Cort Jim Triggs e uma Stratocaster Bill Nash. Na parte de amplificação usei um Jazz Chorus antigo, do inicio dos anos 80, um valvulado Hughes and Kethner e um Fender Vibrolux. Na parte de violão utilizei um Martin DCP e um OM Greg Benett , alem de um violão do famoso luthier Virgilio (Sabara) e um violao de nylon espanhol Alhambra.

Como adquirir o álbum?
Nas lojas virtuais do iTunes e Amazon; e pode ouví-lo por streaming nos canais Soundcloud, Spotify, Deezer, além de outras mídias. O CD fisico está a venda em shows e por e-mail.
Estou fazendo uma coisa muito legal - para impulsionar o meu novo site - www.shymusic.com.br - a pessoa se cadastra, deixa o seu e-mail e ganha um CD de presente. Vale conferir.

Obrigado Jorge Shy, e sucesso.

VAI DEIXAR SAUDADE, NANA VASCONCELOS

09 março, 2016


A percussão brasileira sempre foi muito bem representada na música contemporânea pelas mãos de Nana Vasconcelos, que morreu nesta data, aos 72 anos, vítima de um câncer no pulmão.
Sem a menor dúvida a assinatura de Nana influenciou novas gerações de instrumentistas. Sua genialidade sempre se fez presente, dando seu talento e criatividade em diversos trabalhos ao lado de artistas grandiosos como Pat Metheny, Egberto Gismonti, Don Cherry e Jan Garbarek, entre tantos outros. Um músico sempre tão original e empolgante, o que o levou a estar, por diversas vezes, na lista dos melhores percussionistas do mundo pela revista Downbeat.

Pernambucano, iniciou na música nas bandas de maracatu, e ganhou o mundo.
Eu conheci sua música no fantástico “Dança Das Cabeças” (1977), registro gravado com Egberto Gismonti durante três dias em estúdio e que tornou-se a porta de entrada de Gismonti na gravadora ECM. Naná se projetou e colocou o berimbau definitivamente na rota da música moderna; ainda com Gismonti gravou “Sol do Meio Dia” (1978) e “Duas Vozes” (1984). No final dos anos 70, integrou um dos grupos mais experimentais do jazz contemporâneo, Codona, ao lado do trompetista Don Cherry e do citarista Collin Walcott, era uma música livre de formas e cujo trabalho rendeu 3 álbuns – “Codona 1” (1979), “Codona 2” (1981) e “Codona 3” (1983), também lançados pela ECM.

Minha conexão com a música de Nana se fortaleceu no trabalho ao lado do guitarrista Pat Metheny, em que destaco a intensidade de sua interpretação no tema “The Fields, The Sky”, inserido no álbum “Travels” (1982), gravado ao vivo, um intenso registro improvisado de berimbau e guitarra em um diálogo realmente impressionante. Naquele momento de audição, definitivamente, já o tive como uma referência. Nana é uma usina sonora, um mestre na arte da vocalização percussiva e que encontrou na música de Metheny um verdadeiro oásis para essa expressão, melódica e rítmica, como se ouve também nos extraordinários álbuns “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls” (1981) e Offramp (1982), todos também gravados pela ECM.

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu em Recife em 2 de agosto de 1944.
Nana Vasconcelos deixa uma extensa discografia, cuja música foi, é, e sempre será genial.

Nana Vasconcelos: 1944-2016

ANTÍTESE

22 fevereiro, 2016
Os guitarristas Ivan Barasnevicius e Rodrigo Chenta apresentam o álbum Antítese, o segundo do duo, trazendo um repertório totalmente autoral em que elementos experimentais são criados no momento da execução, fazendo uso de jogos de improvisação e aplicando partes literalmente livres.
Muita interação entre eles, passeando pelos ritmos brasileiros, a bossa, o jazz moderno, o samba e o groove. Como eles afirmam, a diversidade de timbres é uma das características mais marcantes do duo. Rodrigo Chenta, no canal esquerdo, prioriza a utilização do som acústico de seu instrumento; Ivan Barasnevicius, no canal direito, dá mais ênfase ao som do amplificador. O álbum foi gravado ao vivo, sem overdubs, e o resultado é espetacular, mostrando mais uma vez a nossa música instrumental em estado de excelência.


Com a palavra, Ivan Barasnevicus e Rodrigo Chenta -

“Antítese” é o segundo trabalho do duo. Que aprendizado vocês tiveram nesse tempo tocando juntos?
Rodrigo Chenta: ​Com este tipo de produção musical aprende-se muito sobre arranjo e as diversas possibilidades de execução de uma mesma música. As soluções para esta formação instrumental aparecem mais rapidamente com o tempo, e tudo parece sair mais naturalmente. De uma forma geral, tudo fica mais fácil com o tempo.
Ivan Barasnevicius: ​Certamente aprendemos a ter cada vez mais cuidado com a execução, pois neste tipo de situação tudo fica muito mais aparente. Desenvolvemos também novas soluções para os arranjos não se tornarem repetitivos. Essa busca, sem sombra de dúvida, adicionou bastante para a nossa vivência musical e estudo do instrumento. É algo contínuo, que vamos desenvolver
mais e mais.

Ritmos brasileiros, introspecção e improvisações livres se fazem muito presentes no repertório. Como se deu a concepção desse novo trabalho?
Rodrigo Chenta: Ao concluir que existiam três vertentes neste recente trabalho, como canções mineiras, jogos de improvisação e mais da estética abordada no primeiro álbum gravado, foi fácil chegar no conceito de antítese que já fazia parte do duo implicitamente. A parte gráfica do CD trabalha o conceito de antítese em vários pontos, como a troca das imagens dos integrantes do duo em relação ao logo na capa, as partituras escritas à mão e as com o uso de editores de partituras, os
tempos de duração das músicas, etc. No caso da improvisação livre, ela aconteceu somente na parte B da música “Crossfades”, que é um misto de jogo de improvisação com improvisação livre criado pelo Ivan.
Ivan Barasnevicius: ​De alguma maneira, esse é um retrato das nossas influências no momento da elaboração do trabalho, das coisas que estávamos ouvindo e pesquisando. Embora o conceito de antítese presente no disco seja bastante claro, trata-­se de um processo natural que aconteceu em nossas composições dessa época. Não é algo forçado, assim como a concepção do “Novos Caminhos” também não foi. Certamente o terceiro trabalho trará uma outra proposta, mas que, apesar de diferente das anteriores, certamente reforçará a identidade sonora do duo.

De que forma "Antítese" se relaciona com o primeiro álbum do duo “Novos Caminhos”?
Rodrigo Chenta: O álbum “Antítese” possui grandes diferenças quando comparado com o “Novos Caminhos”, mas possui mais do que aconteceu no primeiro CD como o distanciamento do tradicional formato standard nas execuções e improvisações, a preocupação com a diversidade timbrística dos instrumentos, o uso de estruturas muitos distintas dos respectivos temas na hora da improvisação, e outras coisas mais.
Ivan Barasnevicius: ​O disco “Antítese” apresenta um aprofundamento de algumas questões que já foram trazidas pelo duo em “Novos Caminhos”. Por exemplo, a improvisação mais livre já havia sido abordada na música “Contrastes”, peça solo do Rodrigo. Porém, não tínhamos feito experiências mais radicais, como fizemos no segundo disco com “Crossfades” e “Antítese”. A preocupação com a elaboração de melodias cantáveis já tinha acontecido em “Valsa para Ana” e “Novos Caminhos”, mas certamente aconteceu em maior escala no segundo trabalho, com os dois temas de “Suite#1”, “Faça­-se a luz!” e “Nove Horas”.

Ivan Barsnevicius Rodrigo Chenta

Há uma referência no título do tema “Suite #1” ao guitarrista Derek Bailey, um ícone da improvisação livre. O quanto esse movimento inspira a música de vocês? 
Rodrigo Chenta: Esta é uma homenagem do Ivan para o Derek Bailey, o guitarrista que mais levantou esta bandeira. Particularmente, me interessa bastante esta sonoridade muito abordada pelo ingleses como Evan Parker, Han Bennik, Gavin Bryars e todo o catálogo da gravadora britânica Incus. É uma proposta bastante radical na quebra de paradigmas e que leva a improvisação a um nível com muito mais liberdade. Já havia gravado no disco “Novos Caminhos” uma improvisação chamada “Contrastes”, que, apesar de ter alguns idiomas, é bastante livre quanto ao ritmo, notas, forma e convencionalidade na maneira de execução do instrumento. A citação de "Donna Lee" é uma brincadeira que os dois gostam muito de fazer. Somente para falar das minhas, na música “Novos caminhos 2” citei no meu primeiro solo “Fear of the Dark” do Iron Maiden, e no improviso da coda na mesma música citei “Question and Answer” do Pat Metheny e “Valsa para Ana” do Ivan Barasnevicius. Isso é muito comum de se ouvir nas improvisações aqui no Brasil. É uma brincadeira muito saudável.
Ivan Barasnevicius: ​Quando pesquisávamos sobre a sonoridade do Derek Bailey, um disco que chamou muito minha atenção foi Ballads (2002). Veja a maneira como ele trata tão conhecidos standards como “Body and Soul” e “Stella By Starlight”. Me parece mais ousada do que ele o que ele fez em discos como "Pieces for Guitar" (1966) ou "Guitar, Drums’n’Bass" (1996). É um tratamento bastante violento para estas belas composições sobre as quais os músicos normalmente gostam de fazer belos solos; e isso foi bastante impactante para mim. Quando estava compondo “Suite#1”, comecei a pensar de que forma poderia trazer a concepção de Derek Bailey para esta peça. A melodia do primeiro movimento é bastante marcante, e seria um chorus muito confortável para improvisar, mas essa seria uma solução usual. Então pensei em colocar no segundo movimento da “Suite#1” algo bastante caótico: uma guitarra improvisando frases rápidas e sem uma tonalidade pré­ definida, enquanto que a outra deve improvisar utilizando apenas harmônicos naturais. Tudo sem nenhuma relação aparente com o tema inicial. A minha citação de "Donna Lee" acontece de forma proposital, e funciona como um aviso: a partir dela, o Rodrigo deve improvisar utilizando somente harmônicos naturais. Vale lembrar também um procedimento presente nessa composição que remete ao conceito não-­standard citado pelo Rodrigo anteriormente. Se olharmos para “Suite#1 (For Derek Bailey)” como uma peça só, veremos que temos um tema no começo, um jogo de improvisação no meio e no final outro tema diferente do existente no começo da peça, ou seja, o oposto do que acontece normalmente, quando o mesmo tema é tocado no início e no fim da peça.

Para essa sessão, como se deu o processo de gravação e que equipamentos usaram? 
Rodrigo Chenta: Usei uma guitarra acústica com encordoamento flat .013 e com ação das cordas bastante alta. Isso reflete na tocabilidade do instrumento e na sonoridade almejada. Foi utilizado um amplificador transistor microfonado mais o som de linha apenas para acrescentar se necessário. No entanto, o som no meu caso, veio principalmente dos microfones sendo um na frente da guitarra para que houvesse a captação do som acústico do instrumento e outro para ambiência da sala. Gravamos tudo ao vivo mas em salas separadas para preservar ao máximo o timbre de cada guitarra e não ter vazamentos indesejados. Em relação aos efeitos usamos apenas um leve reverb.
Ivan Barasnevicius: ​Utilizei uma única guitarra acústica com encordoamento do tipo flat .011. Utilizo a ação das cordas baixa, de forma a facilitar o meu trabalho, mas não em um nível onde tudo fica muito fácil de trastejar. Gravei o disco todo com apenas um amplificador transistorizado de 130w com dois falantes de 12”. Embora o André Ferraz tenha usado um microfone para captar a ambiência da sala, um na frente da guitarra e mais um na frente do amplificador, este último teve de longe a maior importância. Muitos guitarristas de jazz costumam fechar o tone da guitarra para obter um som mais aveludado e utilizar em diferentes níveis o botão de volume da guitarra para alterar o ganho. Normalmente utilizo o tone e o volume sempre abertos, e neste trabalho com o duo o captador utilizado é sempre o do braço. Uso apenas a mão direita para variar a dinâmica.

Obrigado Ivan e Rodrigo, e sucesso.



Você pode adquirir o álbum na CDBaby,com
www.rodrigochentaeivanbarasneviciusduo.com

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