UM OBSTINADO CONTRABAIXISTA

21 novembro, 2014
A definição do tema título do novo trabalho do contrabaixista Lipe Portinho - Obstinado - revela, de fato, a vontade, persistência e paixão de um músico que sempre coloca a arte musical em primeiro plano.
Lipe Portinho é um dos protagonistas da nossa Música Instrumental, um empreendedor do movimento musical carioca, e que, para nossa alegria, não desiste nunca. Um apaixonado, assim como o público da Música Instrumental Brasileira e do Jazz.

Lipe Portinho

Ainda adolescente, com os olhos e ouvidos para o Rock e o Progressivo, encontrou no também contrabaixista Steve Rodby e no Metheny Group um veículo de transição para o mundo do Jazz; até que viu pela TV os contrabaixistas Ray Brown e Rufus Reid, e o Jazz definitivamente incorporou-se na sua linguagem musical. As aulas com o mestre Sandrinho Santoro o fez entender a música Clássica e conhecer de verdade o que seus ídolos do Jazz também ouviram e estudaram.
Formou-se pela escola de música da UFRJ, integrou a Orquestra Petrobrás Sinfônica, tocou em grupos de Càmara e dirigiu e produziu centenas de espetáculos por todo o país em mais de 3 décadas vivenciando o mundo da Música, da Música de verdade.

Entre vários dos seus projetos, destacam-se o quarteto de contrabaixos Gravíssimo, ao lado de Augusto Mattoso, Tarcisio Silva e Lise Bastos; o quarteto Tutti, com o sax de Daniel Garcia, o piano de Ana Azevedo e a bateria de Andre Tandeta, em que fazem novas leituras do repertório de concerto com abordagem jazzística; e o Corda, quinteto que traz os búlgaros Nicolay Sapoundjrev e Emilia Valova, violino e violoncelo, Ana Azevedo e Andre Tandeta, reconstruindo a música de Piazzolla.
E Lipe nos apresenta mais um excelente trabalho - Obstinado - com repertório autoral, resgatado de seu acervo ao longo de toda a sua carreira. Ao seu lado, o piano de Natan Gomes, o sax de Daniel Garcia, a guitarra de Fernando Clark, a bateria de Fermin Merlo, além das participações de Emilia Valova no cello e Ana Azevedo no piano. Formação exemplar da nossa Música Instrumental e um verdadeiro passeio musical.

Obstinado

O modelo da capa do ábum é seu simpático cão Bley.
No repertório, uma homenagem ao cartunista Bill Waterson no tema "Haroldo", a quem também dedica para Daniel Garcia, que faz um belo e rasgado improviso. Traz ainda a influência de Villa-Lobos à liberdade de improvisão nos dois momentos de "Sem Dormir", com belos desenhos no contrabaixo de Lipe e no piano de Ana.
"Intuitiva" coloca um momento quase intimista, ilustrado por uma melodia nostálgica, quase melancólica, desenhada pelo cello de Emilia, com destaque também para o improviso na guitarra de Clark.
Bach também se faz presente em "Presto Bach" e "Isto não é Bach", esta gravada com o grupo Tutti. Destaca-se aqui o jovem e talentoso baterista argentino Fermin Merlo e o solo de arco do contrabaixo de Lipe, e quando o tema se desenvolve em andamento rápido sobressaem os improvisos de Daniel e Natan. Fermin Merlo é filho do contrabaixista Hernan Merlo.
Dois momentos em trio - em "Triangulos Amoroso na Catedral", tema também gravado com o grupo Gravissimo, e mais uma vez um belo solo de arco de Lipe; e em "Deolinda", bela composição em homenagem à sua avó paterna, tema arranjado inicialmente para orquestra. O arco de Lipe novamente em foco na melodia e um contagiante improviso de Natan.
Emilia volta com seu cello em "Francesinha", homenagem ao seu irmão, destacando-se aqui o improviso de Clark; e o álbum fecha com "Persecucion y Tango", uma fusão do Clássico, Jazz e a música de Piazzolla, e, a pedido de Lipe, Emilia exibe uma "alma portenha" na composição.

Mais um trabalho obrigatório na discografia instrumental brasileira.

Com a palavra, o contrabaixista Lipe Portinho -

Gustavo Cunha: Obstinado traz uma formação diferente dos seus projetos anteriores.
Conte-nos como surgiu a ideia deste trabalho.
Lipe Portinho: Por incrível que pareça, OBSTINADO é o mais antigo de todos os projetos, são só músicas autorais. Se você observar vai identificar todas músicas com datas de composição entre os anos 80 e 90, algumas poucas mais recentes. São obras que esperaram na gaveta por décadas, sobrepujadas pelas necessidades de sobrevivência do músico. Passei boa parte de minha vida orquestrando, arranjando e acompanhando para outros artistas, e resolvi esse ano dispensar toda essa energia para reler, compilar, rearranjar, reestruturar o que achei de melhor em meus arquivos pessoais. Descobri montanhas de idéias esquecidas, muitas delas boas, muitas delas precisando de meu entendimento artístico atual. O resultado foi realmente surpreendente até para mim mesmo.
Quanto à formação eu posso dizer que foi a mais simples possível, com os melhores músicos que conheço - Daniel Garcia, Natan Gomes, Ana Azevedo, Fernando Clark e Emília Valova -  para que o CD possa ter vida longa e logística descomplicada. Uma das novidades foi poder contar com a participação do baterista argentino Fermin Merlo, que resultou num sincretismo único do JAZZ.
Viva los hermanos!

GC: O título do álbum - Obstinado - serve como reflexão de comportamento para o músico brasileiro em relação à Música Instrumental, Jazz e Clássico?
LP: Sim, com certeza. A música instrumental está em sua época mais difícil desde que me entendo por músico, e já se foram 31 anos de profissão, 36 de música e mais de duas décadas como produtor. Só OBSTINADOs podemos continuar a registrar nossa produção artística, nossa obra, e é exatamente sobre isso esse CD. Nada de fórmulas marqueteiras, nada de "pitacos" sobre tendências idiotas que garantirão "retorno de venda", às favas com essa baboseira hipócrita. OBSTINADO é o que eu penso musicalmente sobre as minhas próprias idéias artísticas. Tenho certeza que só assim uma obra pode refletir a verdade estética de um compositor e por fim "tocar" o ouvinte, pelo menos àqueles que buscam arte verdadeira e o JAZZ na concepção mais ampla de liberdade de expressão musical. Só assim poderemos pleitear a sobrevivência de nosso ofício, dando longa vida à essas peças e, PRINCIPALMENTE, sobrevivendo ao descaso artístico e ignorância institucionalizada.

GC: Richard Bach também é improviso?
LP: Sim, com certeza. A família Bach toda era de "jazzistas", do barroco ao clássico. A improvisação morreu às voltas do período romântico pela arrogância e a prepotência de alguns compositores e principalmente da platéia, que queria ouvir sempre os mesmos solos. Daí em diante as chamadas cadências, seção de improviso na música erudita. passaram a ser escritas para que aplacassem à compulsividade neurótica da audiência. Hoje alguns solistas eruditos ainda improvisam de fato. São poucos, mas vem ganhando espaço no mercado. Enfocam a estética do "momento singular", onde aquela platéia será "dona" de um momento que não se repetirá mais (ao vivo pelo menos), EXATAMENTE o que o JAZZ está "careca" de fazer, VIVA o JAZZ! O maior representante do espírito clássico.

GC: O Clássico e o Erudito sempre são referências na formação musical. Essas escolas musicais estão, hoje, em segundo plano pela quantidade de conteúdo disponível pela tecnologia?
LP: Não vejo exatamente assim. O Erudito vem se enfraquecendo em sua renovação de criadores. Mas para os repetidores dos MESMOS compositores "clássicos" ainda há um mercado feito de ilusões e arrogantes roupagens de obras que todos já cansaram de interpretar e escutar.
Não é que não haja mais compositores NOVOS, o que não há são muitos ouvintes interessados no NOVO, seja ele Erudito ou no JAZZ, cada vez menos. Aqui no Brasil vejo isso como resultado CRUEL da tríplice aliança quase "imaculada" das políticas culturais - ECAD sem regulamentação, LEI ROUANET servindo à partidos políticos e deixando NADA para fomentação da produção genuína de cultura, e idéias sindicalistas arqueológicas que diminuem ainda mais os mercados agonizantes da música. Hoje mesmo recebi a notícia de mais um grande músico e professor carioca que começa a seguir outra carreira. Por que isso acontece? Porque ele sai para tocar e não tem ninguém para ouvir. Porque ele cada vez tem menos trabalho com pagamentos dignos que garantam a sua sobrevivência, porque sua estética é cada vez mais desacreditada até mesmos por seus semelhantes que tentam respirar como peixes em uma lagoa desoxigenada. Os que eu ainda posso ver hoje com destaque são habilidosos instrumentistas que cada vez mais tem que dispor da "pirotecnia" malabarística para "aparecerem" aos olhos e não aos ouvidos da audiência.
NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÃ (que já é hoje).

Tutti Gravissimo Corda Ana Azevedo Trio

GC: Voce é um inovador na nossa Música Instrumental, e isso é muito evidente nos trabalhos com o Quarteto Gravísssimo e com os Grupos Tutti e Corda. Como voce vê o cenário musical atual? 
LP: Obrigado pelo INOVADOR. Não me vejo exatamente assim, diria mais que sou CORAJOSO. Coragem que me custa algumas dificuldades e por outro lado tem me tornado mais singular SIM. Muitos e muitos hoje buscam a reinvenção da roda, mas ela já existe. Tento usá-la para expor minha arte, digamos assim.
O Gravíssimo Bass Ensemble por exemplo não é algo novo, mas ÚNICO. Pelo menos no Brasil nenhum Bass Ensemble sobreviveu até o CD, ainda mais tocando Jazz e Erudito. O TUTTI é uma pérola do jazz (modéstia à parte) totalmente incompreendida hoje pela grande maioria e o CORDA, que emocionou até a viúva do próprio Piazzolla, toca muito menos que deveria - digamos assim. Sem dúvida esses grupos trazem o frescor que seus integrantes buscam, são parte dos peixes asfixiados que estão TEIMANDO em colocar a cabeça fora d'água.
O cenário musical atual é SOMBRIO, muito cinza mesmo. Desculpe me repetir essa "letra" sempre em tom de "blues", mas quando você se depara com músicos de carreira sólida sem lugar para sequer tocar e leis de incentivo voltadas para o ENTRETENIMENTO DE MASSA e ASSISTENCIALISMO MEDÍOCRE E VULGAR apenas não aparece a tal da luz no fim do túnel, provavelmente porque estamos numa enorme e reeleita curva dentro desse túnel.
A verdade é que a Música renasce onde menos se espera. A onda musical vem vindo da Baixada e São Gonçalo. Lá a liberdade quase total da expressão artística é o que parece acabar com esse maldito túnel de ignorância cultural. Lá verdadeiros exércitos de jovens ávidos para se entregarem à grande arte descobrem o que a Zona Sul há tempos esqueceu - como a música boa faz bem e como o diálogo musical livre engrandece a existência aqui nesse planeta. Tenho certeza que a Onda Musical virá daí. Os políticos e os clérigos "atiraram no que viram e acertaram no que não viram", esses com certeza não vão entender nada quando essa Onda chegar.

GC: Empreender em Música de qualidade por aqui é dificil. Voce é um dos grandes responsáveis pela divulgação da nossa Música Instrumental, principalmente na formação de novos públicos. Voce acredita que as Leis de Incentivo são pouco flexiveis e dificultam mais do que ajudam em promover a cultura musical?
LP: As leis de Incentivo falharam, TODAS. Não servem para o que se prestariam. Li e ouvi recentemente que a lei Rouanet enfim será mudada, só que para pior, definitivamente. Como foi criada para ser temporária, deveria se retirar do cenário definitivamente, pois na verdade é um CÂNCER e um desserviço à cultura de verdade nesse país. Por não depender de mérito artístico e sim de apadrinhamentos corretos, por tentar mas não fomentar platéia e nem depender da mesma, os projetos não são só inócuos ou tendenciosos, eles simplesmente DESTRUÍRAM COMPLETAMENTE o mercado formal da cultura: a bilheteria. Hoje o trabalho do artista NÃO VALE NADA, só se ele estiver apadrinhado por um projeto dentro de uma ideia que foi preconcebida NÃO por ele. Então, onde está a  verdade artística desse princípio? Na figura do CURADOR apadrinhado de um partido? No partido político que detém o controle do patrocinador? Ou no futuro poder absoluto do FUNDO NACIONAL de CULTURA administrado pelo partido que estiver no governo?
A maioria das pessoas se "benzem" quando ouvem me falar da necessidade do FIM dessas leis "destruidoras de lares", exatamente como saiam correndo dos cometas há 150 anos, achando que era o fim do mundo. O fim do mundo cultural é ninguém passando na bilheteria, ou a meia entrada "paga" com o bolso do artista.
MORTE às Leis de incentivo que só servem para engordar os partidos políticos e corromper a arte!
MORTE à meia entrada com o dinheiro do músico - o governo não promove meio tributo, por exemplo!
VIVA a música pela sua beleza, sua promoção social natural e sublimação única!

GC: Falta direcionamento sobre Gestão na grade curricular de formação de um músico nas universidades?
LP: Sim. A Escola de Música vem apontando para esse caminho na UFRJ sob a batuta inteligente de seu diretor André Cardoso. Mas uma unidade dentro de uma Federal sozinha "não pode fazer todo o verão". Hoje o músico tem ser empreendedor, arranjador, produtor, entender de sonorização, luz, fotografia e marketing. É uma questão de simples sobrevivência. Se o próximo ministro da cultura e/ou da educação olharem a música e a formação de músicos com menos interesses partidários e mais inteligência a música poderá renascer por si própria, ela é maior que a burrice crônica dos políticos que a manipulam. Se não atrapalhassem já seria um grande passo, mas esse(s) político(s) vai(ão) precisar ser OBSTINADO(s), CORAJOSO(s) e ter ideias próprias para tal.
Vamos pagar para ver. A música merece coisa melhor!

Para adquirir o álbum, envie e-mail para contato@orquestradebolso.com.br
www.orquestradebolso.com.br/

Obrigado Lipe Portinho, e Sucesso !

A CAÇA E A CAÇADORA: MORGAN JAMES

13 novembro, 2014
Com seu segundo album, Hunter, a cantora Morgan James já se apresenta como uma das minhas favoritas, mérito que já tinha ganhado com seu álbum de estréia em tributo a Nina Simone, gravado ao vivo no Dizzy´s Club, NY.
Ela não é uma cantora de Jazz, e Hunter mostra um trabalho autoral com produção assinada pelo guitarrista Doug Wamble, que também participa do album. É uma leitura contemporânea do R&B.

O álbum abre com o tema título, marcado por um groove arrastado na guitarra de Wamble e os metais de Chase Baird, Ravi Best, Mike Fahie, Alphonso Horne e Ron Blake. "Say the Words" traz uma atmosfera intimista reforçada pelo Hammond de Roy Dunlap em que James largou a voz; assim como em "Heart Shake", que lembra um tanto a assinatura rítmica da Motown; e em "The Sweetest Sound", seguindo uma fórmula que já foi muito bem usada por Joss Stone.
James dá um tempero Pop em alguns momentos, como em "I Want You", "You Never Lied" e "Drown"; e na introdução a la Pretty Woman em "Fed up on You".
Um dos pontos altos do álbum é a balada "Let me Keep You", em que James realiza em duo com o pianista Robert Glasper, uma interpretação quase bucólica envolvida pelos acordes do piano e Morgan James estendendo e sobrepondo sua bela voz.
Na versão estendida do álbum, lançou a versão de "Call My Name", tema do Prince que ganhou o Grammy pela melhor performance vocal de R&B em 2005.



Morgan James Spotify

Leia também -

Morgan James: Tribute to Nina Simone

DOWNBEAT READERS POLL 2014

01 novembro, 2014
Saiu o resultado da edição 79 do Downbeat Reades Poll.
Foram 27.504 eleitores, e a maior votação da história do evento, batendo o recorde do ano passado, que já tinha sido o maior número.

Para Frank Alkyer, editor da revista, a edição deste ano foi especialmente gratificante, muito pelo fato de ver o guitarrista B.B. King inserido no DownBeat Hall of Fame, algo que ele esperava por muito tempo.

Pat Metheny novamente foi o protagonista com 3 premiações - álbum do ano por "Kin", grupo e guitarrista. Herbie Hancock, Maria Schneider e Robert Glasper também foram destaques com 2 premiações cada um.
Ainda Chris Potter, que também integra o Unity Group de Metheny, no sax tenor; Kenny Garrett no sax alto; a voz de Gregory Porter; e o reconhecimento ao contrabaixista Charlie Haden, que nos deixou recentemente.

Confira os vencedores -

Hall of Fame: B.B. King
Jazz Artist: Chick Corea
Jazz Album: Pat Metheny Unity Group, Kin (Nonesuch)
Jazz Group: Pat Metheny Unity Group
Big Band: Jazz at Lincoln Center Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Chris Potter
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Herbie Hancock
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Charlie Haden
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibraphone: Gary Burton
Percussion: Poncho Sanchez
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Diana Krall
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: B.B. King
Blues Album: Buddy Guy, Rhythm & Blues (RCA/Silvertone)
Beyond Artist or Group: Robert Glasper Experiment
Beyond Album: Robert Glasper Experiment, Black Radio 2 (Blue Note)
Historical Album: Miles At The Fillmore 1970: The Bootleg Series Vol 3 (Columbia/Legacy)

downbeat.com

O TRIO DO PIANISTA GUSTAVO FIGUEIREDO

27 outubro, 2014
O pianista mineiro Gustavo Figueiredo lança seu primeiro álbum solo - { trio } - acompanhado pelo contrabaixista Pablo Souza e pelo baterista Marcio Bahia.
A força da música das Minas Gerais revelando novas fronteiras com o Jazz contemporâneo.

Um repertório cheio de nuances e atmosferas muito particulares em 9 composições, 8 delas autorais e 1 composição de Milton Nascimento - "Canção do Sal".
O álbum abre com uma roupagem bem brasileira no tema "Brasil Fest", um contagiante levada em samba-jazz com espaço para o improviso do contrabaixista Pablo Souza. E quando o assunto é música brasileira, o baterista Marcio Bahia deita e rola.
Gustavo realiza homenagens para sua filha nos belos temas "Manuela" e "Passeio no Parque", aqui alternando modulações entre o piano Rhodes e o acústico. "Emily" traz uma introdução melódica muito familiar em piano solo, e a composição ganha nova dinâmica ao longo da interpretação, cujo tema celebra a chegada da sua primeira sobrinha. "2011" apresenta uma forte assinatura do Jazz europeu, principalmente para quem tem familiaridade com o som do E.S.T., aqui caracterizado pela condução do contrabaixo de Pablo Souza.
O piano Rhodes se apresenta como protagonista em "Mark 1"; e um tributo mais que especial para o pianista Thelonious Monk em "Thelonious Groove", com destaque também para as baquetas de Marcio Bahia.


Com a palavra, Gustavo Figueiredo -

Gustavo Cunha: Conte um pouco sobre sua formação musical.
Gustavo Figueiredo: Comecei minhas primeiras aulas de teclado aos 12 anos com alguns professores particulares. Logo depois entrei na Pró-Music, escola de música em Belo Horizonte, onde também estudei teoria musical. Em grande parte do tempo, estudei sozinho, por vídeo-aulas, métodos e ouvindo grandes músicos. Retomei aulas de teoria com Lúcio Martins, harmônia e improvisação com Enéias Xavier e com o pianista Irio Júnior, e fiz também um curso de Jazz com o guitarrista Mattew Warnock, professor de Jazz na Western Illinois University.

GC: É seu primeiro álbum solo, na formação de Trio, e dois grandes nomes da nossa música instrumental ao seu lado. Fale sobre a proposta deste trabalho.
GF: Essa é uma formação que gosto e ouço muito, os trios de Jazz. Procurei fazer um CD sem muito exagero nos improvisos, queria mostrar mais as composições e arranjos, claro que com a liberdade dos improvisos, mas sempre na medida.
Quanto aos músicos, foi uma coisa muito natural. Há algum tempo tenho a honra de tocar no trabalho do grande baterista Marcio Bahia, que pra mim é um dos maiores do mundo, e fiquei muito feliz por ele ter aceitado o convite de participar do meu trabalho. Deixou sua marca e fez toda a diferença. Quanto ao baixista Pablo Souza, é um parceiro de muito tempo, tocamos em muitos trabalhos juntos e durante quase 2 anos tivemos um trio de Jazz tocando semanalmente em uma casa de Belo Horizonte. Então também foi uma ótima escolha.

GC: Você faz uso do Piano Rhodes, cuja sonoridade nos dá uma atmosfera e dinâmica muito particulares. Como o instrumento se integra na sua música?
GF: Na verdade, eu sempre me vi na necessidade de tocar usando timbres de piano elétrico, pois nem sempre temos uma estrutura ideal com piano nos teatros, festivais ao ar livre e casas de show. Então uso muito teclado, e como o timbre de piano acústico é muito difícil de se aproximar, uso muito a simulação do piano elétrico do Fender Rhodes, que eu adoro. Quando é possível, usos os dois no show, piano acústico e elétrico.

GC: Influências sempre são importantes na criação da nossa identidade musical. Você também acredita que toda a experiência musical que a gente carrega forma nossa musicalidade? 
Fale sobre algumas das suas influências.
GF: Com certeza! Tocar com músicos diferentes, com linguagens, estilos e exigências diferentes, faz com que nossa bagagem musical aumente e, assim, consequentemente vamos moldando a forma de tocar. Acho muito importante ouvir cada estilo para entender a concepção, e isso ajuda muito na musicalidade quando vamos tocar.
Algumas grandes influências - Cesar Camargo Mariano, Bill Evans, Herbie Hancock, Keith Jarrett, Brad Mehldau, Chick Corea, Milton Nascimento, Toninho Horta e Miles Davis.

GC: O piano é um instrumento harmonicamente muito completo, permite várias experimentações e diferentes abordagens. Como a criatividade se integra no seu processo de composição?
GF: Realmente o piano é muito completo devido a sua grande extensão e facilidade na visualização das notas. Eu não componho muito. Tenho momentos de inspiração por alguma coisa que acontece e esta inspiração pode se transformar em música, mas há momentos em que simplesmente me concentro em compor. Na maioria das vezes, junto com a composição, tenho idéias de arranjos que posso manter ou desenvolver mais quando vou me acostumando com a música. Sempre gravo uma guia quando termino o processo, que pode ser uma simples ideia ou até a composição toda, que às vezes sai de uma só vez.

Gustavo Figueiredo

GC: 3 álbuns marcantes para Gustavo Figueiredo.
GF: Vou citar alguns que me marcaram e que até hoje me inspiram -
"Samambaia: Cesar Camargo Mariano e Helio Delmiro". Gravado no ano em que nasci (1981). O Cesar é um músico que me inspira muito, principalmente na sua condução e swing, é muito autêntico. Acho isso a coisa mais difícil para um músico conseguir.
"Bill Evans: At Montreux Jazz Festival". Gravado em 1968. É pra mim um dos melhores trios de Jazz, com Jack Dejohnette e Eddie Gomez. Este foi um dos discos me fizeram apaixonar pelo Jazz. Sempre me surpreendo com a forma com o Bill Evans interpretava e conduzia a harmonia.
"From Ton to Tom: Toninho Horta". É um disco genial, de 1998. Toninho Horta faz uma homenagem à altura para o grande mestre, Tom Jobim. É um disco emocionante e inspirador com arranjos incríveis.

Obrigado Gustavo Figueiredo, e Sucesso !

gustavofigueiredo.com.br/

CONEXÃO NEW YORK: FREDRIK KRONKVIST

18 outubro, 2014
Para o saxofonista sueco Fredrik Kronkvist, o sonho era ir para NY tocar com os melhores músicos do planeta.

Ele cresceu em uma pequena cidade na Suécia. Seu pai, Rolf  Kometen Kronkvist, também músico, teve o privilégio de tocar com Dexter Gordon, Kenny Dorham e Sonny Stitt quando estes visitaram seu país. E foi a vasta coleção de discos do pai que deu a Fredrik uma fonte infinita de inspiração, uma oportunidade de explorar os muitos lados do Jazz.
Ainda adolescente, colocava os discos de Miles Davis e Horace Silver no prato, e ficava extasiado com a energia e swing que essas gravações passavam.
Hoje, ainda mantém a curiosidade e o entusiasmo daquelas gravações, e está sempre com a mente aberta para receber novos elementos e o lado emocional de todo tipo de música.

Blues, Soul, Swing, Afro, Funk e Música Brasileira estão entre as influências que Fredrick Kronvist carrega em sua música. Seus últimos álbuns são realmente contagiantes, ele já figura como mais um novo gigante do instrumento, com reconhecimento pelos mais importantes veículos de mídia do Jazz, entre eles a Downbeat e Jazztimes. Um músico extraordinário e que elegeu a capital musical do Jazz no planeta como residência.

New York Elements (2010, Conective Rec) foi sua primeira sessão de gravação na big apple, e teve ao lado o piano de Aaron Goldberg, o contrabaixo de Reuben Rodgers e a bateria de Gregory Hutchinson. E essa estréia em estúdios americanos não podia ser melhor, um time realmente da pesada e um sonho realizado. São 13 composições, 12 autoriais, exceto "Footprints" (Shorter). O album ganhou destaque nas revistas especializadas como Downbeat e Jazztimes.
Brooklin Playground (2012, Connective Rec) trouxe de volta seus companheiros Martin Sjostedt  no piano, Petter Eldh no contrabaixo e Snorre no Kirk bateria, com quem já tinha gravado. Aqui resgata clássicos em interpretações ousadas como em "Caravan" (Ellington) e "One Finger Snap" (Hancock). Mais um excelente trabalho.
Reflecting Time (2014, Connective Rec) resgata novamente o quarteto com Goldberg, Rogers e Hutchinson e, não menos contagiante, pontua improvisos criativos em 7 composições, entre Blues, mainstream e baladas, e  mais um clássico na brilhante interpretação de "In a Sentimental Mood" (Ellington).

Completam a discografia - Fredrik Kronkvist Sextet (2011), Constant Continuum (2010), Ignition (2007), In the Raw Trio (2006), Maintain! (2005) e Altitude (2003).


fredrikkronkvist.wordpress.com/

OPUS 5 REÚNE DIFERENTES LINGUAGENS DO JAZZ CONTEMPORÂNEO

06 outubro, 2014
Opus é uma palavra originada do latim, e significa Obra de Arte. Na Música, o significado tem valor inestimável, pela sua sempre crescente magia e poder. E é essa arte eloquente e tão apaixonante que torna possível colocar juntos em cena músicos que, com diferentes linguagens, criam uma nova expressão dentro de uma mensagem já conhecida de todos nós - o Jazz.

foto : Miquel Carol (Edwards, Kikoski, Blake, Koslov e Sipiagin)
Opus 5 reúne os russos Boriz Kozlov e Alex Sipiagin, contrabaixista e trompetista, o saxofonista canadense Seamus Blake, o pianista David Kikoski e o baterista Donald Edwards, todos artistas da gravadora Criss Cross.
Arranjadores e compositores, cada um com seus respectivos trabalhos solo e residentes na big apple, estes fantásticos músicos já estiveram juntos em diferentes combinações.
Opus 5 já tem três albuns lançados, todos pela Criss Cross - "Introducing Opus 5" (2011), "Pentasonic" (2012) e "Progression" (2013), e o repertório traz elementos do hardbop e do Jazz contemporâneo.

O contrabaixista Boris Kozlov é íntegrante e diretor musical da Mingus Big Band, Mingus Orchestra e Mingus Dynasty, grupos que carregam o legado da música do gênio Charles Mingus.
Kikoski também integrou a Mingus Big Band, inclusive está presente no álbum que deu o Grammy ao grupo, gravado ao vivo no Jazz Standard. Também compositor, atua fortemente no cenário jazzístico, tem uma ampla discografia como líder e como sideman já esteve em sessões ao lado de John Scofield, Dave Holland, Roy Haynes, Tom Harrell, Marcus Miller, Michael Brecker, Pat Martino , entre outros.
Seamus Blake já é reconhecido como um dos grandes do cenário emergente do Jazz contemporâneo. Em 2002, foi o primeiro colocado no "Thelonious Monk International Jazz Saxophone Competition", e já tem seis albuns em sua discografia solo.
Alex Sipiagin também partiu da Russia atras do Jazz na big apple. Integrou a Mingus Big Band, recomendado por Randy Brecker, e também esteve presente nas big bands de Dave Holland e Michael Brecker. Também possui uma extensa discografia como líder.
O baterista Donald Edwards vem ganhando reputação no meio jazzístico. Filho de pai pianista e mãe cantora, cresceu na Louisiana e fez raízes bastante diversificadas em marching bands, hip-hop, R&B, Funk e Gospel. Suas baquetas já desenharam ritmos para os Marsalis, Orrin Evans, Lonnie Smith e Russell Malone, e mantém uma incansável busca pela improvisação criativa, composição e experimentações rítmicas.

Introducing Opus 5 Pentasonic Progression

UMA VIAGEM SONORA COM O GUITARRISTA JAKOB BRO

26 setembro, 2014
O óbvio das coisas parece perder o sentido quando a interpretação delas vai além do significado comum. Angústias metafísicas existem, de fato, e fazem parte do universo pensante; são questionamentos muitas vezes sem respostas, e o ciclo nunca se fecha.
Viagens insólitas se apresentam e nos conduzem a estados que só a nossa própria imaginação é capaz de entender, e, sob uma análise mais racional, não encontramos elementos para explicar porque ali chegamos e ali estamos, e, mais ainda, porque aquilo pensamos. Assim nos percebemos em uma espécie de transe, em que, sem perceber, partimos em uma viagem sem rumo e no retorno desta jornada nos encontramos de volta em uma estranha realidade.
A música muitas vezes torna-se o veículo para essa, talvez, desorientada percepção, quando junto a ela se inserem atmosferas envolventes, intensas, melódicas e até mesmo sombrias.

Um dos protagonistas dessa viagem sonora é o guitarrista dinamarquês Jakob Bro. Músico de uma sonoridade ímpar, que o levou ao Jazz Denmark Hall of Fame e o mantém sempre em destaque no Danish Music Awards, as mais destacadas premiações do universo do Jazz em seu país.

Jakob Bro
foto : Paulo Cesar Nunes (Triboz-RJ)
Integrou o grupo liderado pelo trompetista Tomasz Stanko no álbum "Dark Eyes" (2009, ECM), em uma de suas formações mais elétricas; e teve ao seu lado, em álbuns como líder, músicos como Bill Frisell, Kurt Rosenwinkel, Chris Cheek, Mark Turner, Ben Street e Paul Motian, entre outros. E mantém seu trio regular com o contrabaixista Anders Christensen e o baterista Jakob Hoyer, em que gravaram um álbum de standards intitulado "Who Said Gay Paree" (2008).

Realizou um trabalho extraordinário junto com o saxofonista Lee Konitz e o guitarrista Bill Frisel, uma trilogia registrada nos álbuns "Balladeering" (2009), que inclui o contrabaixista Ben Street e o baterista Paul Motian, eleito como álbum do ano pelo Danish Music Awards; "Time" (2011), ao lado do contrabaixista Thomas Morgan; e "December Song" (2013), novamente com Morgan e o pianista Craig Taborn. Esta trilogia marca uma música bastante intimista, quase etérea, e ela concorre no Nordic Councils Music Prize 2014, premiação dada para artistas de países nórdicos.
Jakob Bro também dá um enfoque na música experimental, evidente no álbum "Bro/Knak" (2011), realizado em parceria com o produtor de música eletrônica Thomas Knak, e cujo trabalho traz ainda uma super formação, que conta, entre outros, com Paul Bley, Kenny Wheeler, Jeff Ballard e o The Royal Danish Chapel Choir. O registro é um álbum duplo, dividido em dois sets com leituras diferentes dos mesmos temas. Este album também recebeu destaque pela Danish Arts Foundation pela gravação do tema 'Pearl River".

December Song Balladeering Time Bro Knak

Em sua recente passagem pelo capital carioca, que se estendeu a outras praças, Bro apresentou-se na formação de trio, ao lado de Christensen e Hoyer, e realmente se mostrou um guitarrista fora do comum. Abraçado com uma Telecaster, não teve o virtuosismo como elemento protagonista, mas seus desenhos de formas melódicas ampliavam-se com o pleno domínio dos efeitos e recursos eletrônicos aplicados pelos seus pedais.
Entreter a audiência em uma viagem musical dessa natureza é uma arte para poucos, e méritos também para o trio, que soube cadenciar as dinâmicas necessárias para toda essa ambientação.
Percebe-se no seu toque uma forte influência de Bill Frisel, no timbre, na atmosfera; e fez reverência a dois outros grandes músicos que nos deixaram recentemente - o trompetista Kenny Wheeler e o saxofonista Yusef Lateef.

jakobbro.com/

A ARTE MUSICAL CONTEMPORÂNEA DESENHADA PELAS MÃOS DO DUO NAZARIO

20 setembro, 2014
Poder se expressar livremente é o grande desafio da arte musical. E experimentações musicais sempre fizeram parte do universo dos irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazario, o DUO Nazario.
Nos anos 70, a prática da improvisação livre os levaram a integrar o grupo de Hermeto Pascoal, este que sempre se mostrou além do convencional; e eram nos momentos de pausa das apresentações com o grupo do bruxo que o DUO costumava construir sua própria sonoridade, inserindo elementos da música eletrônica e do Jazz.
Ainda jovens, já mostravam domínio dessa linguagem improvisada e, assim, criaram uma identidade muito particular.

Amalgama é mais um resultado de toda essa musicalidade dos irmãos Nazario, cujo trabalho é consequência do Prêmio Funarte de Música Brasileira, que tem como objetivo estimular a criação e produção de projetos relacionados ao campo da música brasileira.
Somente com o uso de teclados e bateria, Lelo e Zé Eduardo Nazario apresentam uma música muito contemporânea, em que o acústico e o eletrônico se aliam em uma mistura de tendências promovendo passagens tão progressivas quanto melódicas, sem deixar de lado o universo da música brasileira.
Assim, o DUO se impõem como uma das mais vanguardistas formações da nossa Música Instrumental.

DUO Nazario

Amálgama é um álbum autoral, um verdadeiro diálogo entre Lelo e Zé Eduardo, com um repertório que traz novas leituras para temas antigos e novas composições, e Lelo é muito objetivo quando fala sobre elas -
"Refletem a enorme quantidade de eventos e informações que é gerada no mundo todos os dias, e busca exprimir em sons todos os aspectos dessa entropia crescente e suas consequências para a vida no planeta."
Para Zé Eduardo Nazario, o principal conceito de trabalho do DUO é experimentar múltiplas possibilidades de encontro entre linguagens e universos musicais com total liberdade criativa.

E Lelo Nazario nos conta um pouco sobre o trabalho -

Gustavo Cunha: É fato que essa química musical foi criada dentro de casa. Como surgiu a proposta de se consolidar, de fato, como DUO e começar a gravar juntos ?
Lelo Nazario: Isso se deu de uma forma natural, já que comecei, desde cedo, a compor material para tocarmos juntos e fomos, ao longo do tempo, consolidando um repertório extenso e bastante variado. O Zé Eduardo usa, além da bateria, muitos instrumentos de percussão, e eu gosto de criar “ambientes sonoros” com meus recursos eletrônicos e teclados, que são muito diferentes de música para música. Isto cria uma diversidade muito grande, ampliando a sonoridade do DUO. O fato é que, como irmãos, sempre estivemos juntos em vários trabalhos e nestes trabalhos sempre houve a possibilidade de realizar algo como duo também. Quando estávamos tocando com o Hermeto Pascoal ou com o Pau Brasil, muitas vezes era possível tocar algum material só nosso nas apresentações.
No final da década de 80, resolvemos “formalizar” o DUO, e começamos a fazer uma série de shows. Então, recebi o convite do maestro Roberto Farias para compor duas peças de vanguarda para a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, cujas peças foram apresentadas em concertos e com o DUO como solista. A partir daí o trabalho foi se consolidando cada vez mais até hoje.

GC: O título do álbum, Amálgama, tem implícito em seu significado a mistura de vários elementos, e aqui, é a Música o principal componente. É essa a proposta do DUO – misturar tendências, texturas e dar um novo significado sonoro às composições?
LN : Exato. O DUO é terra e ar. Os tambores, pratos e a percussão exótica do Zé nos remete ao chão, às raízes africanas, ao ritmo e à pulsação. Os sons eletrônicos e texturas nos levam ao sonho, aos grandes espaços, às possibilidades sonoras que não temos com os instrumentos convencionais. Então essa mistura de elementos tão diferentes e aparentemente antagônicos nos dá uma nova perspectiva sonora e é nessa premissa que se baseia a proposta criativa do DUO.

GC: Há muita experimentação e improvisação livre na música do DUO. De onde vem as influências de vocês?
LN: Estudamos música desde cedo e sempre gostamos de Jazz e Música Contemporânea, então partimos daí para estabelecer a base do trabalho do DUO. Não tenho muito apreço por imitadores, então, mesmo quando estudava a música dos compositores e pianistas que eu admirava, procurava reescrever frases e achar outras inversões para certos acordes. Assim, faço sempre essa “filtragem” para tentar chegar a uma sonoridade mais pessoal.
Em 1998, lancei o CD “Simples”, que traz algumas composições dedicadas a estes pianistas que eu admiro - Denny Zeitlin, Clare Fischer, Roger Kellaway e outros, e tentei dar às composições um pouco da personalidade de cada um desses compositores, mas, no final, acaba prevalecendo a minha maneira de tocar. O mesmo se dá com o Zé com relação aos grandes bateristas contemporâneos, como Elvin Jones, Jack DeJohnette, Tony Williams ou ao trabalho do Grupo de Percussão de Strasbourg.

GC: Como se dá o processo de gravação ?
LN: Em “Amálgama” optamos por gravar como se estivéssemos num concerto, ou seja, gravando um só take de cada música. Como já havíamos tocado bastante esse material nas turnês, acabamos optando por essa forma de gravar. Desse modo, o material soa mais vivo e os improvisos mais “quentes”. Tivemos a sorte de encontrar no estúdio Soundfinger parceiros que também trabalham dessa maneira, então o CD ficou com essa sonoridade viva, que é mais apropriada para o nosso repertório.

GC: A Música Instrumental Brasileira, mesmo com tão pouco espaço na mídia tradicional, mantém seu público muito fiel. Como vocês encaram esse cenário atualmente?
LN: A Música Instrumental no Brasil só existe graças a esse público e a poucos jornalistas que conseguem divulgar esse trabalho. Ao longo da nossa carreira, assistimos a grande mídia diminuindo paulatinamente os espaços para a divulgação da cultura em geral, não só a música. A competição pelo lucro e audiência é o mote dos empresários da comunicação, sem dar a mínima atenção para divulgar os bens culturais produzidos aqui. Nos países mais desenvolvidos existe, claro, a competição pelo lucro, mas lá existe também a consciência de que um bem cultural tem enorme valor e deve ser divulgado. É uma contrapartida que, aqui, existe cada vez menos. Certamente, isto tem um preço e as gerações futuras de brasileiros sentirão o efeito nocivo dessa prática.

GC: Fale sobre o Utopia Studio e o Soundfinger.
LN: Criei o Utopia Studio em 1980 para fazer experimentações com música eletroacústica e de vanguarda. Como consequência natural, passei a usar o estúdio também para produzir esse trabalho de maneira independente, já que não havia espaço para esse tipo de música na indústria fonográfica. Assim, lancei pelo Utopia meus álbuns solo em produções totalmente independentes, da gravação à distribuição. Além disso, comecei a criar trilhas para cinema, TV, dança, teatro e publicidade.
Sempre gostei também de engenharia de som e acabei me aprofundando nisso e assumindo essa função nos meus discos. Logo, comecei a receber convites de outros músicos para direção de gravação, mixagem e masterização e, com o tempo, o estúdio foi se firmando nessa área também, tendo um catálogo de grandes nomes da música brasileira, que inclui o Pau Brasil, Marlui Miranda, Nenê, Nivaldo Ornelas, Jorge Bonfá, Andrea Ernest Dias e outros.
No Soundfinger, encontramos um parceiro incrível para a produção de “Amálgama”. Paulo Aredes, seu idealizador, tem como filosofia dar prioridade a trabalhos autorais e gravações ao vivo, interferindo o mínimo possível na execução dos músicos. A ideia dele é resgatar técnicas e instrumentos usados nas décadas de 50, 60 e 70, mas com equipamentos de última geração. E foi nesse contexto de máxima sintonia e cooperação que gravamos e mixamos o album "Amálgama", que, depois, masterizei no meu estúdio.

O álbum pode ser adquirido na Livraria Cultura, Pop’s Discos, Locomotiva Discos e Baratos Afins.



Mais sobre o DUO Nazario em  nazario.bugs3.com/

O ESPAÇO-TEMPO DE IVAN BARASNEVICIUS

12 setembro, 2014
Ivan Barasnevicius Trio

A palavra Continuum tem origem em conceitos físicos e filosóficos, cujo significado se associa ao espaço e tempo. Da mesma forma que Einstein afirmou não haver distinção entre esses elementos, a filosofia também discorre do fato de que não é possível existir contato entre os mesmos. E isso tudo vai um pouco além, levando até a teoria da existência dos universos paralelos, proposta por Hugh Everett no meio do século passado.

Mas o assunto aqui não é Física, é Música.
E na carona da semântica da palavra, os elementos aqui são desenhados por harmonias e improvisos.
Continuum é o segundo álbum do guitarrista Ivan Barasnevicius, um super trio em que está acompanhado pela baixista Dé Bermudez e a bateria de Thiago Costa.

Este novo trabalho mantém a mesma proposta do álbum de estréia, Sintese (2012), promovendo uma mistura de tendências que passam pelo Rock, Jazz e ritmos brasileiros, além de muita experimentação e improvisação.

E com a palavra, Ivan Barasnevicius -

Gustavo Cunha : Qual a proposta do álbum Continuum ?
Ivan Barasnevicius : A proposta deste disco é aprofundar as experiências de cruzamentos de sonoridades apresentadas no disco "Síntese", lançado em 2012. Apesar disso, vale lembrar que boa parte das composições já existia na época do lançamento do primeiro trabalho. Mas, certamente, com todo o aprendizado que tivemos no primeiro disco, conseguimos melhores resultados neste novo trabalho. Acaba sendo um grande desafio, tanto para os executantes quanto para o técnico de gravação, pois muitas vezes é como se tivéssemos duas ou três formações diferentes na mesma música.

GC : A formação nesse novo album é a mesma do disco de estréia. Fale um pouco sobre o grupo que o acompanha.
IB : Sobre a Dé, como já citei em outras oportunidades, o mais interessante é que posso escrever para ela sem me preocupar com limitações. Grande instrumentista que é, toca o que estiver escrito, inclusive frases de difícil execução, já que um dos instrumentos que usa é de 6 cordas, e improvisa e conduz livremente sobre as harmonias propostas.
O Thiago também é um exímio instrumentista, que toca há muito tempo Jazz e música brasileira com diversos grupos, apesar de já ter tocado Rock por muito tempo, o que faz com que tenha um repertório de referências bastante eclético, sem limitações. Em ambos os casos, é muito confortável trabalhar com gente assim, pois é possível escrever sem limitar a criatividade.

GC : O formato de Trio é sempre um desafio interessante, que exige muito mais dos músicos sobre ritmo e harmonia. É esse o caminho ?
IB : Sim, exatamente! Essa formação é interessante pois os três precisam fazer de tudo um pouco - improvisar, conduzir, convencionar. Em nosso trabalho, muitas vezes o baixo assume o papel de solista, o que torna necessário alguns procedimentos para que a guitarra e a bateria não tirem o espaço do baixo neste momento. Ou seja, é necessário que todos tenham cuidado com a dinâmica. Outro ponto é o trabalho com a variedade de timbres dos instrumentos. Mas estas são apenas algumas das questões, existem muitas outras particularidades, vantagens e desvantagens de se trabalhar em trio.

GC : Influências à parte, há uma forte diversidade de texturas em sua música, entre abordagens melódicas e pegadas mais intensas com uso de drive. Como voce trabalha as composições ?
IB : A proposta musical do trio é promover a junção de elementos muitas vezes conflitantes em uma mesma música, o que muitas vezes causa estranheza para quem ouve. Conseguir equilibrar estas sonoridades é um grande desafio, ainda mais quando se trata desta formação.
Por exemplo, em "Granizo" temos a mistura de elementos do Heavy Metal com uma levada de Samba-Jazz. Claro que tudo fica estilizado, mas a idéia é criar uma sonoridade diferente, mas de forma que os arranjos e composições tenham sempre a cara do grupo.

GC : Fale sobre o processo de gravação do álbum um pouco sobre os equipamentos usados.
IB : "Continuum" não foi gravado ao vivo, e sim por camadas. Como somos apenas três, acabamos muitas vezes mudando os timbres dos instrumentos durante as músicas, como uma forma de ampliar as possibilidades de sonoridades. Para este formato, a gravação ao vivo prejudicaria o trabalho mais detalhado com os timbres utilizados. Assim, optamos pela gravação em camadas.
Os equipamentos foram mais variados do que em "Síntese", embora sejam coisas relativamente simples. Acredito que a sonoridade está antes de qualquer coisa nas mãos do próprio músico. Mas de qualquer forma, utilizei minha velha Gibson SG e Marshall Valvestate bem antigo nas faixas "Granizo" e "Groove pra Dé"; usei uma Telecaster com um P90 no braço plugada em um Fender Deluxe para gravar "Bizuca" e as partes com distorção de "Groove pra Dé"; e uma guitarra acústica com cordas flat plugada em um Fender Ultimate Chorus para "Hipnose", "Acalanto" e a faixa-bônus "Minuano", que, conforme falei será lançada posteriormente. Ainda, um violão canadense de cordas de aço emprestado do André Ferraz para gravar "Acalanto" e meu violão de nylon Caltram '98 para "Minuano".
Já a Dé utilizou seu Ibanez BTB de 6 cordas; e sua mais recente aquisição, um Fender fretless, utilizado nas faixas "Acalanto" e "Hipnose".


O álbum pode ser comprado no formato digital no iTunes e na cdbaby.com. Em ambos canais é possível encontrar também disponível o primeiro trabalho do trio - "Síntese".
www.ivanbarasnevicius.com

Obrigado Ivan, e Sucesso !



Confira também a entrevista com Ivan Barasnevicius sobre seu livro "Jazz: Harmonia e Improvisação" -

Jazz: Harmonia e Improvisação

SOBRE CADA CANTINHO DE BADI ASSAD

07 setembro, 2014
Nós, amantes do violão, sempre teremos uma referência na assinatura musical dos Irmãos Assad, nas cordas harmonizadas de Sergio, Odair e a irmã mais nova - Badi Assad.
Um berço de música, que tem na verve clássica e instrumental elementos que transpiram emoção, virtuosismo e profunda beleza melódica, que nos transporta em uma viagem de vibrações sonoras.
E este que vos escreve não podia perder a oportunidade de trocar algumas palavras com ela, Badi Assad, violonista que, um dia, quando a ouvi pela primeira vez interpretando solo os temas Valseana e Farewell, arranjadas por seus irmãos, me encantou profundamente, e me fez tê-la, a partir daquele momento, como uma das referências no instrumento.
O papo, muito descontraído, ocorreu no backstage do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras.


Os primeiros álbuns refletem o virtuosismo de Badi como instrumentista, cujos temas se enchiam de pontuações improvisadas, muita harmonização e a voz se colocando como contexto percussivo. São trabalhos geniais como "Solo" (1994), "Rhythms" (1995) e "Echos of Brasil" (1997).
Ao lado de Larry Coryel e John Abercrombie, Badi gravou "Three Guitars" (2003), excepcional registro instrumental em que Badi manteve seu estilo próprio. E ela, muito original, disse quando aceitou o convite - "Eu topo, mas só se eu puder fazer minhas traquinagens". E assim formaram juntos 3 escolas de violão na mais perfeita sintonia. Podemos até vislumbrar um novo trabalho nessa onda, mas Badi nos revelou que tem um projeto futuro com o incendiário violonista Roy Rogers, e cujo trabalho também contará com um harpista. Uma interessante combinação, vamos aguardar!

A violonista Badi viu-se em certo momento da vida limitada com o instrumento devido a um problema na mão, diagnosticada com distonia focal, o que a levou a parar de tocar, obrigando-a a reinventar-se e fazer da voz o principal elemento da sua musicalidade. Mesmo após a recuperação, o violão de Badi deixou de ser protagonista, e a voz - o canto, a música falada - determinou a direção na sua carreira. Vieram os álbuns "Verde" (2005), "Wonderland" (2006) e "Amor e Outras Manias Crônicas" (2012), este que deu a Badi seu primeiro prêmio internacional - Songwriting Competition - com a composição "Pega no Coco", na categoria World Music.
Comemorando 20 anos de carreira, lançou seu primeiro DVD, intitulado "Badi" (2010).

Para Badi, o corpo também é um instrumento, ele fala, ele canta. O violão, por ser um instrumento melódico e harmônico, nos dá muitas possibilidades, e é aí que entra em foco a capacidade criativa. Questionada sobre como ela desenvolve esse processo criativo, Badi é muito assertiva -
"A criatividade não tem regra, não tem um começo, meio e fim; e quando somos criativos, não somos só com a arte, somos criativos na vida, a criatividade faz parte do ser. E com a música, ela está aliada com a técnica, e quando se consegue juntar essas duas coisas voce tem uma liberdade muito maior."
E sobre o que ela pensa quando toca, Badi diz que a imaginação é o veículo propulsor, toca sempre imaginando algo. Mesmo em seu momento atual, em que não faz mais música instrumental, Badi faz da letra a sua imaginação, vive cada palavra daquilo que está cantando e busca sentir de fato a emoção que está fluindo, procurando interpretar a música e levá-la ao seu extremo.

Solo Rhythms Amor e Outras Manias Crônicas Cantos de Casa

E quando o assunto é música, Badi é uma alma inquieta, sempre buscando surpreender a si próprio, e tem isso como um desafio. Assim, lançou "Cantos de Casa" (2014), seu primeiro álbum voltado para o público infantil, que, alías, tem sido sua grande paixão.

E sobre o que gosta de ouvir, não hesita em falar de Bjork, a quem tem como uma artista criativa, que leva suas experimentações para o mundo Pop; e Tori Amos, pianista que também faz do corpo um instrumento, e esclarece, curiosamente, que após ver Tori ao vivo passou a tocar em pé.

badiassad.com/