UMA VIAGEM SONORA COM O GUITARRISTA JAKOB BRO

26 setembro, 2014
O óbvio das coisas parece perder o sentido quando a interpretação delas vai além do significado comum. Angústias metafísicas existem, de fato, e fazem parte do universo pensante; são questionamentos muitas vezes sem respostas, e o ciclo nunca se fecha.
Viagens insólitas se apresentam e nos conduzem a estados que só a nossa própria imaginação é capaz de entender, e, sob uma análise mais racional, não encontramos elementos para explicar porque ali chegamos e ali estamos, e, mais ainda, porque aquilo pensamos. Assim nos percebemos em uma espécie de transe, em que, sem perceber, partimos em uma viagem sem rumo e no retorno desta jornada nos encontramos de volta em uma estranha realidade.
A música muitas vezes torna-se o veículo para essa, talvez, desorientada percepção, quando junto a ela se inserem atmosferas envolventes, intensas, melódicas e até mesmo sombrias.

Um dos protagonistas dessa viagem sonora é o guitarrista dinamarquês Jakob Bro. Músico de uma sonoridade ímpar, que o levou ao Jazz Denmark Hall of Fame e o mantém sempre em destaque no Danish Music Awards, as mais destacadas premiações do universo do Jazz em seu país.

Jakob Bro
foto : Paulo Cesar Nunes (Triboz-RJ)
Integrou o grupo liderado pelo trompetista Tomasz Stanko no álbum "Dark Eyes" (2009, ECM), em uma de suas formações mais elétricas; e teve ao seu lado, em álbuns como líder, músicos como Bill Frisell, Kurt Rosenwinkel, Chris Cheek, Mark Turner, Ben Street e Paul Motian, entre outros. E mantém seu trio regular com o contrabaixista Anders Christensen e o baterista Jakob Hoyer, em que gravaram um álbum de standards intitulado "Who Said Gay Paree" (2008).

Realizou um trabalho extraordinário junto com o saxofonista Lee Konitz e o guitarrista Bill Frisel, uma trilogia registrada nos álbuns "Balladeering" (2009), que inclui o contrabaixista Ben Street e o baterista Paul Motian, eleito como álbum do ano pelo Danish Music Awards; "Time" (2011), ao lado do contrabaixista Thomas Morgan; e "December Song" (2013), novamente com Morgan e o pianista Craig Taborn. Esta trilogia marca uma música bastante intimista, quase etérea, e ela concorre no Nordic Councils Music Prize 2014, premiação dada para artistas de países nórdicos.
Jakob Bro também dá um enfoque na música experimental, evidente no álbum "Bro/Knak" (2011), realizado em parceria com o produtor de música eletrônica Thomas Knak e cujo trabalho traz ainda uma super formação, que conta, entre outros, com Paul Bley, Kenny Wheeler, Jeff Ballard e o The Royal Danish Chapel Choir. O registro é um álbum duplo, dividido em dois sets com leituras diferentes dos mesmos temas. Este album também recebeu destaque pela Danish Arts Foundation pela gravação do tema 'Pearl River".

December Song Balladeering Time Trio

Em sua recente passagem pelo capital carioca, que se estendeu a outras praças, Bro apresentou-se na formação de trio, ao lado de Christensen e Hoyer, e realmente mostrou-se um guitarrista fora do comum. Abraçado com uma Telecaster, não teve o virtuosismo como elemento protagonista, e seus desenhos de formas melódicas ampliavam-se com pleno domínio dos efeitos e recursos eletrônicos aplicados pelos pedais.
Entreter a audiência em uma viagem musical dessa natureza é uma arte para poucos, e méritos também para o trio, que soube cadenciar as dinâmicas necessárias para toda essa ambientação.
Percebe-se no seu toque uma forte influência de Bill Frisel, no timbre, na atmosfera; e fez reverência a dois outros grandes músicos que nos deixaram recentemente - o trompetista Kenny Wheeler e o saxofonista Yusef Lateef.

jakobbro.com/

A ARTE MUSICAL CONTEMPORÂNEA DESENHADA PELAS MÃOS DO DUO NAZARIO

20 setembro, 2014
Poder se expressar livremente é o grande desafio da arte musical. E experimentações musicais sempre fizeram parte do universo dos irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazario, o DUO Nazario.
Nos anos 70, a prática da improvisação livre os levaram a integrar o grupo de Hermeto Pascoal, este que sempre se mostrou além do convencional; e eram nos momentos de pausa das apresentações com o grupo do bruxo que o DUO costumava construir sua própria sonoridade, inserindo elementos da música eletrônica e do Jazz.
Ainda jovens, já mostravam domínio dessa linguagem improvisada e, assim, criaram uma identidade muito particular.

Amalgama é mais um resultado de toda essa musicalidade dos irmãos Nazario, cujo trabalho é consequência do Prêmio Funarte de Música Brasileira, que tem como objetivo estimular a criação e produção de projetos relacionados ao campo da música brasileira.
Somente com o uso de teclados e bateria, Lelo e Zé Eduardo Nazario apresentam uma música muito contemporânea, em que o acústico e o eletrônico se aliam em uma mistura de tendências promovendo passagens tão progressivas quanto melódicas, sem deixar de lado o universo da música brasileira.
Assim, o DUO se impõem como uma das mais vanguardistas formações da nossa Música Instrumental.

DUO Nazario

Amálgama é um álbum autoral, um verdadeiro diálogo entre Lelo e Zé Eduardo, com um repertório que traz novas leituras para temas antigos e novas composições, e Lelo é muito objetivo quando fala sobre elas -
"Refletem a enorme quantidade de eventos e informações que é gerada no mundo todos os dias, e busca exprimir em sons todos os aspectos dessa entropia crescente e suas consequências para a vida no planeta."
Para Zé Eduardo Nazario, o principal conceito de trabalho do DUO é experimentar múltiplas possibilidades de encontro entre linguagens e universos musicais com total liberdade criativa.

E Lelo Nazario nos conta um pouco sobre o trabalho -

Gustavo Cunha: É fato que essa química musical foi criada dentro de casa. Como surgiu a proposta de se consolidar, de fato, como DUO e começar a gravar juntos ?
Lelo Nazario: Isso se deu de uma forma natural, já que comecei, desde cedo, a compor material para tocarmos juntos e fomos, ao longo do tempo, consolidando um repertório extenso e bastante variado. O Zé Eduardo usa, além da bateria, muitos instrumentos de percussão, e eu gosto de criar “ambientes sonoros” com meus recursos eletrônicos e teclados, que são muito diferentes de música para música. Isto cria uma diversidade muito grande, ampliando a sonoridade do DUO. O fato é que, como irmãos, sempre estivemos juntos em vários trabalhos e nestes trabalhos sempre houve a possibilidade de realizar algo como duo também. Quando estávamos tocando com o Hermeto Pascoal ou com o Pau Brasil, muitas vezes era possível tocar algum material só nosso nas apresentações.
No final da década de 80, resolvemos “formalizar” o DUO, e começamos a fazer uma série de shows. Então, recebi o convite do maestro Roberto Farias para compor duas peças de vanguarda para a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, cujas peças foram apresentadas em concertos e com o DUO como solista. A partir daí o trabalho foi se consolidando cada vez mais até hoje.

GC: O título do álbum, Amálgama, tem implícito em seu significado a mistura de vários elementos, e aqui, é a Música o principal componente. É essa a proposta do DUO – misturar tendências, texturas e dar um novo significado sonoro às composições?
LN : Exato. O DUO é terra e ar. Os tambores, pratos e a percussão exótica do Zé nos remete ao chão, às raízes africanas, ao ritmo e à pulsação. Os sons eletrônicos e texturas nos levam ao sonho, aos grandes espaços, às possibilidades sonoras que não temos com os instrumentos convencionais. Então essa mistura de elementos tão diferentes e aparentemente antagônicos nos dá uma nova perspectiva sonora e é nessa premissa que se baseia a proposta criativa do DUO.

GC: Há muita experimentação e improvisação livre na música do DUO. De onde vem as influências de vocês?
LN: Estudamos música desde cedo e sempre gostamos de Jazz e Música Contemporânea, então partimos daí para estabelecer a base do trabalho do DUO. Não tenho muito apreço por imitadores, então, mesmo quando estudava a música dos compositores e pianistas que eu admirava, procurava reescrever frases e achar outras inversões para certos acordes. Assim, faço sempre essa “filtragem” para tentar chegar a uma sonoridade mais pessoal.
Em 1998, lancei o CD “Simples”, que traz algumas composições dedicadas a estes pianistas que eu admiro - Denny Zeitlin, Clare Fischer, Roger Kellaway e outros, e tentei dar às composições um pouco da personalidade de cada um desses compositores, mas, no final, acaba prevalecendo a minha maneira de tocar. O mesmo se dá com o Zé com relação aos grandes bateristas contemporâneos, como Elvin Jones, Jack DeJohnette, Tony Williams ou ao trabalho do Grupo de Percussão de Strasbourg.

GC: Como se dá o processo de gravação ?
LN: Em “Amálgama” optamos por gravar como se estivéssemos num concerto, ou seja, gravando um só take de cada música. Como já havíamos tocado bastante esse material nas turnês, acabamos optando por essa forma de gravar. Desse modo, o material soa mais vivo e os improvisos mais “quentes”. Tivemos a sorte de encontrar no estúdio Soundfinger parceiros que também trabalham dessa maneira, então o CD ficou com essa sonoridade viva, que é mais apropriada para o nosso repertório.

GC: A Música Instrumental Brasileira, mesmo com tão pouco espaço na mídia tradicional, mantém seu público muito fiel. Como vocês encaram esse cenário atualmente?
LN: A Música Instrumental no Brasil só existe graças a esse público e a poucos jornalistas que conseguem divulgar esse trabalho. Ao longo da nossa carreira, assistimos a grande mídia diminuindo paulatinamente os espaços para a divulgação da cultura em geral, não só a música. A competição pelo lucro e audiência é o mote dos empresários da comunicação, sem dar a mínima atenção para divulgar os bens culturais produzidos aqui. Nos países mais desenvolvidos existe, claro, a competição pelo lucro, mas lá existe também a consciência de que um bem cultural tem enorme valor e deve ser divulgado. É uma contrapartida que, aqui, existe cada vez menos. Certamente, isto tem um preço e as gerações futuras de brasileiros sentirão o efeito nocivo dessa prática.

GC: Fale sobre o Utopia Studio e o Soundfinger.
LN: Criei o Utopia Studio em 1980 para fazer experimentações com música eletroacústica e de vanguarda. Como consequência natural, passei a usar o estúdio também para produzir esse trabalho de maneira independente, já que não havia espaço para esse tipo de música na indústria fonográfica. Assim, lancei pelo Utopia meus álbuns solo em produções totalmente independentes, da gravação à distribuição. Além disso, comecei a criar trilhas para cinema, TV, dança, teatro e publicidade.
Sempre gostei também de engenharia de som e acabei me aprofundando nisso e assumindo essa função nos meus discos. Logo, comecei a receber convites de outros músicos para direção de gravação, mixagem e masterização e, com o tempo, o estúdio foi se firmando nessa área também, tendo um catálogo de grandes nomes da música brasileira, que inclui o Pau Brasil, Marlui Miranda, Nenê, Nivaldo Ornelas, Jorge Bonfá, Andrea Ernest Dias e outros.
No Soundfinger, encontramos um parceiro incrível para a produção de “Amálgama”. Paulo Aredes, seu idealizador, tem como filosofia dar prioridade a trabalhos autorais e gravações ao vivo, interferindo o mínimo possível na execução dos músicos. A ideia dele é resgatar técnicas e instrumentos usados nas décadas de 50, 60 e 70, mas com equipamentos de última geração. E foi nesse contexto de máxima sintonia e cooperação que gravamos e mixamos o album "Amálgama", que, depois, masterizei no meu estúdio.

O álbum pode ser adquirido na Livraria Cultura, Pop’s Discos, Locomotiva Discos e Baratos Afins.



Mais sobre o DUO Nazario em  nazario.bugs3.com/

O ESPAÇO-TEMPO DE IVAN BARASNEVICIUS

12 setembro, 2014
Ivan Barasnevicius Trio

A palavra Continuum tem origem em conceitos físicos e filosóficos, cujo significado se associa ao espaço e tempo. Da mesma forma que Einstein afirmou não haver distinção entre esses elementos, a filosofia também discorre do fato de que não é possível existir contato entre os mesmos. E isso tudo vai um pouco além, levando até a teoria da existência dos universos paralelos, proposta por Hugh Everett no meio do século passado.

Mas o assunto aqui não é Física, é Música.
E na carona da semântica da palavra, os elementos aqui são desenhados por harmonias e improvisos.
Continuum é o segundo álbum do guitarrista Ivan Barasnevicius, um super trio em que está acompanhado pela baixista Dé Bermudez e a bateria de Thiago Costa.

Este novo trabalho mantém a mesma proposta do álbum de estréia, Sintese (2012), promovendo uma mistura de tendências que passam pelo Rock, Jazz e ritmos brasileiros, além de muita experimentação e improvisação.

E com a palavra, Ivan Barasnevicius -

Gustavo Cunha : Qual a proposta do álbum Continuum ?
Ivan Barasnevicius : A proposta deste disco é aprofundar as experiências de cruzamentos de sonoridades apresentadas no disco "Síntese", lançado em 2012. Apesar disso, vale lembrar que boa parte das composições já existia na época do lançamento do primeiro trabalho. Mas, certamente, com todo o aprendizado que tivemos no primeiro disco, conseguimos melhores resultados neste novo trabalho. Acaba sendo um grande desafio, tanto para os executantes quanto para o técnico de gravação, pois muitas vezes é como se tivéssemos duas ou três formações diferentes na mesma música.

GC : A formação nesse novo album é a mesma do disco de estréia. Fale um pouco sobre o grupo que o acompanha.
IB : Sobre a Dé, como já citei em outras oportunidades, o mais interessante é que posso escrever para ela sem me preocupar com limitações. Grande instrumentista que é, toca o que estiver escrito, inclusive frases de difícil execução, já que um dos instrumentos que usa é de 6 cordas, e improvisa e conduz livremente sobre as harmonias propostas.
O Thiago também é um exímio instrumentista, que toca há muito tempo Jazz e música brasileira com diversos grupos, apesar de já ter tocado Rock por muito tempo, o que faz com que tenha um repertório de referências bastante eclético, sem limitações. Em ambos os casos, é muito confortável trabalhar com gente assim, pois é possível escrever sem limitar a criatividade.

GC : O formato de Trio é sempre um desafio interessante, que exige muito mais dos músicos sobre ritmo e harmonia. É esse o caminho ?
IB : Sim, exatamente! Essa formação é interessante pois os três precisam fazer de tudo um pouco - improvisar, conduzir, convencionar. Em nosso trabalho, muitas vezes o baixo assume o papel de solista, o que torna necessário alguns procedimentos para que a guitarra e a bateria não tirem o espaço do baixo neste momento. Ou seja, é necessário que todos tenham cuidado com a dinâmica. Outro ponto é o trabalho com a variedade de timbres dos instrumentos. Mas estas são apenas algumas das questões, existem muitas outras particularidades, vantagens e desvantagens de se trabalhar em trio.

GC : Influências à parte, há uma forte diversidade de texturas em sua música, entre abordagens melódicas e pegadas mais intensas com uso de drive. Como voce trabalha as composições ?
IB : A proposta musical do trio é promover a junção de elementos muitas vezes conflitantes em uma mesma música, o que muitas vezes causa estranheza para quem ouve. Conseguir equilibrar estas sonoridades é um grande desafio, ainda mais quando se trata desta formação.
Por exemplo, em "Granizo" temos a mistura de elementos do Heavy Metal com uma levada de Samba-Jazz. Claro que tudo fica estilizado, mas a idéia é criar uma sonoridade diferente, mas de forma que os arranjos e composições tenham sempre a cara do grupo.

GC : Fale sobre o processo de gravação do álbum um pouco sobre os equipamentos usados.
IB : "Continuum" não foi gravado ao vivo, e sim por camadas. Como somos apenas três, acabamos muitas vezes mudando os timbres dos instrumentos durante as músicas, como uma forma de ampliar as possibilidades de sonoridades. Para este formato, a gravação ao vivo prejudicaria o trabalho mais detalhado com os timbres utilizados. Assim, optamos pela gravação em camadas.
Os equipamentos foram mais variados do que em "Síntese", embora sejam coisas relativamente simples. Acredito que a sonoridade está antes de qualquer coisa nas mãos do próprio músico. Mas de qualquer forma, utilizei minha velha Gibson SG e Marshall Valvestate bem antigo nas faixas "Granizo" e "Groove pra Dé"; usei uma Telecaster com um P90 no braço plugada em um Fender Deluxe para gravar "Bizuca" e as partes com distorção de "Groove pra Dé"; e uma guitarra acústica com cordas flat plugada em um Fender Ultimate Chorus para "Hipnose", "Acalanto" e a faixa-bônus "Minuano", que, conforme falei será lançada posteriormente. Ainda, um violão canadense de cordas de aço emprestado do André Ferraz para gravar "Acalanto" e meu violão de nylon Caltram '98 para "Minuano".
Já a Dé utilizou seu Ibanez BTB de 6 cordas; e sua mais recente aquisição, um Fender fretless, utilizado nas faixas "Acalanto" e "Hipnose".


O álbum pode ser comprado no formato digital no iTunes e na cdbaby.com. Em ambos canais é possível encontrar também disponível o primeiro trabalho do trio - "Síntese".
Para saber mais sobre o trabalho, acesse www.ivanbarasnevicius.com

Obrigado Ivan, e Sucesso !



Confira também a entrevista com Ivan Barasnevicius sobre seu livro "Jazz: Harmonia e Improvisação" -

Jazz: Harmonia e Improvisação

SOBRE CADA CANTINHO DE BADI ASSAD

07 setembro, 2014
Nós, amantes do violão, sempre teremos uma referência na assinatura musical dos Irmãos Assad, nas cordas harmonizadas de Sergio, Odair e a irmã mais nova - Badi Assad.
Um berço de música, que tem na verve clássica e instrumental elementos que transpiram emoção, virtuosismo e profunda beleza melódica, que nos transporta em uma viagem de vibrações sonoras.
E este que vos escreve não podia perder a oportunidade de trocar algumas palavras com ela, Badi Assad, violonista que, um dia, quando a ouvi pela primeira vez interpretando solo os temas Valseana e Farewell, arranjadas por seus irmãos, me encantou profundamente, e me fez tê-la, a partir daquele momento, como uma das referências no instrumento.
O papo, muito descontraído, ocorreu no backstage do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras.


Os primeiros álbuns refletem o virtuosismo de Badi como instrumentista, cujos temas se enchiam de pontuações improvisadas, muita harmonização e a voz se colocando como contexto percussivo. São trabalhos geniais como "Solo" (1994), "Rhythms" (1995) e "Echos of Brasil" (1997).
Ao lado de Larry Coryel e John Abercrombie, Badi gravou "Three Guitars" (2003), excepcional registro instrumental em que Badi manteve seu estilo próprio. E ela, muito original, disse quando aceitou o convite - "Eu topo, mas só se eu puder fazer minhas traquinagens". E assim formaram juntos 3 escolas de violão na mais perfeita sintonia. Podemos até vislumbrar um novo trabalho nessa onda, mas Badi nos revelou que tem um projeto futuro com o incendiário violonista Roy Rogers, e cujo trabalho também contará com um harpista. Uma interessante combinação, vamos aguardar!

A violonista Badi viu-se em certo momento da vida limitada com o instrumento devido a um problema na mão, diagnosticada com distonia focal, o que a levou a parar de tocar, obrigando-a a reinventar-se e fazer da voz o principal elemento da sua musicalidade. Mesmo após a recuperação, o violão de Badi deixou de ser protagonista, e a voz - o canto, a música falada - determinou a direção na sua carreira. Vieram os álbuns "Verde" (2005), "Wonderland" (2006) e "Amor e Outras Manias Crônicas" (2012), este que deu a Badi seu primeiro prêmio internacional - Songwriting Competition - com a composição "Pega no Coco", na categoria World Music.
Comemorando 20 anos de carreira, lançou seu primeiro DVD, intitulado "Badi" (2010).

Para Badi, o corpo também é um instrumento, ele fala, ele canta. O violão, por ser um instrumento melódico e harmônico, nos dá muitas possibilidades, e é aí que entra em foco a capacidade criativa. Questionada sobre como ela desenvolve esse processo criativo, Badi é muito assertiva -
"A criatividade não tem regra, não tem um começo, meio e fim; e quando somos criativos, não somos só com a arte, somos criativos na vida, a criatividade faz parte do ser. E com a música, ela está aliada com a técnica, e quando se consegue juntar essas duas coisas voce tem uma liberdade muito maior."
E sobre o que ela pensa quando toca, Badi diz que a imaginação é o veículo propulsor, toca sempre imaginando algo. Mesmo em seu momento atual, em que não faz mais música instrumental, Badi faz da letra a sua imaginação, vive cada palavra daquilo que está cantando e busca sentir de fato a emoção que está fluindo, procurando interpretar a música e levá-la ao seu extremo.

Solo Rhythms Amor e Outras Manias Crônicas Cantos de Casa

E quando o assunto é música, Badi é uma alma inquieta, sempre buscando surpreender a si próprio, e tem isso como um desafio. Assim, lançou "Cantos de Casa" (2014), seu primeiro álbum voltado para o público infantil, que, alías, tem sido sua grande paixão.

E sobre o que gosta de ouvir, não hesita em falar de Bjork, a quem tem como uma artista criativa, que leva suas experimentações para o mundo Pop; e Tori Amos, pianista que também faz do corpo um instrumento, e esclarece, curiosamente, que após ver Tori ao vivo passou a tocar em pé.

badiassad.com/

A NOITE DE CHICK COREA & THE VIGIL EM PALCO CARIOCA

03 setembro, 2014
Chick Corea & The Vigil
foto : Vinicius Pereira
O pianista Chick Corea é um protagonista da música contemporânea, já viajou por várias tendências e participou da transformação do Jazz liderada por Miles no final dos anos 60. Um músico extraordinário, e, mais vez, a oportunidade de vê-lo em palco carioca, agora no Vivo Rio, na formação de seu novo grupo - The Vigil.
Corea veio ao Brasil para o Festival MIMO, sediado em várias cidades, e, apesar dos contratempos na sua saída da Argentina, que o fez cancelar algumas apresentações, a passagem pela capital carioca entusiasmou os amantes da boa música.

No palco, Corea alternou no piano e sintetizadores, acompanhado pelo californiano Charles Altura na guitarra e violão, o cubano Carlitos Del Puerto no contrabaixo, Tim Garland nos sopros, o venezuelano Luisito Quintero na percussão e Marcus Gilmore na bateria. Um super grupo, muito antenado e com muita liberdade dada pelo líder, que estava muito à vontade e interagindo com o público.
A formação no álbum de estúdio - The Vigil (2013) - contou com o contrabaixista frances Hadrien Feraud, e teve as participações do contrabaixo de Stanley Clarke, do sopro de Ravi Coltrane, da voz de sua esposa Gayle Moran Corea e do percussionista Pernell Saturnino.

E foi uma noite de várias homenagens em 2 horas de apresentação. Na abertura, Corea homenageou Wayne Shorter com "Fingerprints", em uma versão rearranjada do tema "Footprints"; seguiu dedicando "Royalty" ao baterista Roy Haynes, belíssimo tema autoral inserido no album The Vigil. Corea e Haynes estiveram juntos em um dos seus mais extraordinários albuns - Now He Sings, Now He Sobs (1968).
Haynes, curiosamente, é avô do baterista Marcus Gilmore.
E estando na terra da bossa nova, fez, especialmente para essa turnê, uma leitura fantástica de Jobim em "Desafinado". Fez graça com seu próprio nome, lembrando que também se chama "Antonio" (Armando Anthony Corea), assim como o mestre Jobim; e desenvolveu o tema com uma pegada bem latina, dando espaço para os improvisos de Altura e Garland, que, ao tenor, desenhou belos e melódicos improvisos.
Outro homenageado da noite foi um músico de grande inspiração para Corea, Paco de Lucia, com o tema "Zyryab", título de album homônimo de Paco (1990) que teve a participação do líder da noite. Uma interpretação com várias nuances, introduzida em duo por Corea e Altura ao violão, seguida pelo duo por Garland e Carlitos, e finalizada com todo o grupo com a típica textura spanish, onda que Corea sempre explorou com maestria.
Outro tema do album The Vigil, "Portals to Forever", introduzida por um longo improviso do percussionista Luisito Quintero, que fez a platéia participar junto com palmas e ritmos, e cujo tema deu sequencia em uma intensa viagem sonora, dando um ar progressivo e muito espaço para experimentações de Corea nos synths e um longo solo de Gilmore.
Para fechar a noite, não podia faltar a clássica "Spain", cuja melodia foi desenhada na flauta por Garland e Corea promoveu um verdadeiro diálogo com a platéia, fazendo todo mundo cantar junto.

Um gigante, sempre !

BRITISH BLUES AWARDS 2014

28 agosto, 2014
British Blues Awards
British Blues Awards foi criado em 2010 por um grupo de entusiastas da Nottingham Blues Society, Reino Unido, com o objetivo de recompensar os artistas de Blues britânicos pela dedicação e esforço em divulgar o estilo.

Um comitê formado por radialistas, escritores e produtores são questionados para nomear os artistas em cada categoria e a votação é feita pelo público, com suporte das rádios locais, gravadoras e internet.
Criaram o prêmio "Kevin Thorpe Memorial Award", que premia o compositor do ano. Kevin Thorpe foi um reconhecido cantor e compositor de Nottingham e brilhou no cenário Blues britânico, mas infelizmente faleceu de um ataque do coração durante e edição de 2010 do Newark Blues Festival.

E entre os premiados na votação deste ano, três artistas que já foram assunto por aqui - Chantel McGregor e Jo Harman, merecidamente eleitas como guitarrista e vocalista respectivamente, e o guitarrista Walter Trout, como artista internacional, este que recupera-se de uma cirurgia de transplante de fígado.
Ainda em destaque, King King, premiado como grupo de Blues pelo terceiro ano seguido e álbum em destaque; e Aynley Linster, com melhor canção e o prêmio Kevin Thorpe.

Confira os premiados (entre parenteses, os concorrentes) -

Male Vocals : Alan Nimmo   (Aynsley Lister, Marcus Bonfanti)
Female Vocals : Jo Harman   (Lorna Fothergill, Zoe Schwarz)
Blues Band : King King   (Larry Miller Band, The Hoax)
Harmonica Player : Paul Lamb   (Trevor Steger, Will Wilde)
Guitarist : Chantel McGregor   (Aynsley Lister, Alan Nimmo)
Acoustic Act : Marcus Bonfanti   (Babajack, Dan Owen)
Bass Player : Lindsay Coulson   (Derek White, John Dawson)
Keyboard Player : Steve Watts   (Paddy Milner, Charlotte Joyce)
Drummer : Wayne Proctor   (Sam Kelly, Mark Barrett)
Instrumentalist : Sarah Skinner   (Becky Tate, Yoka Qureshi-Kuiper)
Overseas Artist : Walter Trout   (Royal Southern Brotherhood, Buddy Whittington)
Independent Blues Broadcaster : Dave Watkins   (Gary Grainger, Dave Raven)
Young Artist : Laurence Jones   (Dan Owen, Lucy Zirins)
Emerging Artist : King Size Slim   (Brothers Groove, Half Deaf Clatch)
Blues Album : "Standing In The Shadows" - King King
     ("Home" - Aynsley Lister, "Shake The Walls" - Marcus Bonfanti)
Blues Song : Home - Aynsley Lister
     (A Long History Of Love - King King, Cheap Whisky - Marcus Bonfanti)
Blues Festival : Hebden Bridge Blues Festival
     (The Great British Rhythm & Blues Festival, Blues On The Farm)
The Kevin Thorpe Award Songwriter Of The Year : Aynsley Lister
     (Jo Harman & Mike Davis, Lucy Zirins)

britishbluesawards.com/

Confira os artigos com Chantel McGregor, Jo Harman e Walter Trout aqui publicados -

Jo Harman Chantel McGregor Tributo para Luther Allison

OS SONS DA ÁFRICA E O BLUES SOMADOS POR ADRIANO GRINEBERG

25 agosto, 2014
Uma característica muito marcante na arte musical africana é a expressão vocal, os vocalizes, o que representa uma identidade muito forte, e que, na verdade, são músicas corais feitas para várias vozes.

Blues for Africa é uma homenagem a Africa, de norte a sul, uma leitura sobre essa forte musicalidade, a língua e seus dialetos, tão característica e tão original. Em suas viagens pelo continente, o pianista Adriano Grineberg explorou essas nuances e fez uma adaptação de forma rítmica, percebendo que muito da música que se faz por lá tem influência e origem em New Orleans, na origem no Blues, nos Spirituals e na música Gospel.

Adriano Grineberg

A África tem várias e fortes referências musicais, entre elas - Ali Farka Touré, que mescla a música do Mali com o Blues; Bombino, que faz um Blues muito de raiz; e Soweto, que serviu de inspiração para Paul Simon no trabalho Graceland, quando deu visibilidade aos músicos dos guetos.
Blues for Africa nos dá mais uma dimensão neste universo, em que Grineberg colocou a sonoridade do contrabaixo acústico para dar uma atmosfera muito particular.
O álbum abre com "Iko Iko", um tema originado de New Orleans com forte raiz africana, cujo refrão original é cantado parte em creole e parte em lingua indígena.
Gribenerg também traz material da Nigéria, presentes nos temas “Chimo” e “Ekenemu Uwa”, com a participação do compositor nigeriano Rex Thomas, em uma forte parceira em que Thomas compõem em sua lingua nativa, Igbo, e Grineberg soma com a melodia.
Interpreta tradicionais hinos gospel zulu, como "Jikelele", "Akeko", "Kumbaya" e "Syahamba", da primeira metade do século passado; e apresenta a música do norte da Africa em "Toareg Blues", uma homenagem ao povo Tuaregue, muito influentes e presentes de cultura árabe e islâmica, em cuja música o negro entoa o canto de uma forma muito particular, uma evocação. Uma referência ao Sufismo, a divisão mais espiritualizada do Islamismo, cujo povo está ou no Paquistão e Egito ou no Mali, nos extremos, e tem a dança, a música e a arte como forma de atingir a elevação espiritual.
Ainda revisitou Bob Marley em "3 Little Words", com a participação da harmônica de Vasco Faé.

Blues for Africa é uma música universal, que não se define como um trabalho especificamente de Blues, mas que se utiliza desta linguagem como forma de expressão.
A produção do album é de Adriano Grineberg, que faz as vozes, piano, hammond e escaleta, e tem ao lado a guitarra e os violões de Edu Gomes, o contrabaixo de Rodrigo Jofre e a bateria de seu irmão Sandro Grineberg; e ainda convidados muito especiais na voz de Graça Cunha, no contrabaixo de Fábio Sá, na bateria de Daniel Lanchinho e ma percussão de Michelle Abu.


adrianogrineberg.com.br/

O QUE ROLOU NA SEGUNDA SEMANA DO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2014

18 agosto, 2014
Mais um final de semana com muita música no Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras.
E quem abriu a noite de sexta-feira foi o tecladista Adriano Grineberg, na carona do lançamento de seu novo album - "Blues for Africa", em que coloca a tradição e cultura africanas numa fusão com o Blues e com todas as tendências. Fez um tributo aos orixás e as forças da natureza, evocados em vocalizes, e, além dos temas do novo album, destacou a tradicional e contagiante "Walking by Myself" (Jimmy Rodgers) e "What´d I Say" (Ray Charles).

Badi Assad

Única representante feminina nesta edição do festival, a violonista Badi Assad subiu ao palco ao lado do percussionista Marcos Suzano. Apesar de ambos terem participado de muitos trabalhos em estúdio, esta foi a primeira vez que estiveram juntos no palco. Abriu com o tema "Pega no Côco", composição que deu a ela o prêmio de composição no International Songwriting Competition. Ainda em destaque no repertório, "Básica"; o clássico do Eurythmics "Sweet Dreams are Made of This"; e uma belíssima "Ponta de Areia", em que fez uso de harmônicos e uma citação de "Asa Branca" em seus improvisos vocais percussivos, característica muito particular de Badi. Dedicou parte da apresentação em performance solo, interpretou Blues e Country, e falou sobre seus novos trabalhos - "Amor e Outras Manias Crônicas", dedicando aos casais que se amam e se odeiam; e "Cantos de Casa", seu primeiro album para o público infantil, e como todos nós somos crianças, colocou toda a platéia para cantar "Qualquer Coisa por Voce".

Seguiu a noite com uma das novidades do festival, a holandesa The Jig, um super septeto trazendo um naipe de metais com barítono, tenor e trompete e os integrantes muito divertidos, carregando uma forte pegada Funk setentão com muito groove. Animou o público.
E o tão esperado Randy Brecker chegou com uma apresentação bem fusion, acompanhado pelo excelente Barry Finerty na guitarra, nosso grande Andre Vasconcelos no baixo elétrico, Oli Rockberger teclados e Rodney Holmes bateria. Brecker fez muito uso de efeito no sopro, alterando um pouco a sonoridade do instrumento; e deu muito espaço para o o guitarrista Finerty. Relembrou os Brecker Brothers em "Above and Below" e seu clássico "Some Skunk Funky", com direito a um espetacular solo de André Vasconcelos.

Popa Chubby

E a noite de sexta-feira fechou com o Blues-Rock incendiário do guitarrista Popa Chubby. Conquistou o público logo nos primeiros ataques da guitarra, uma Strato bem surrada, usando e abusando da linguagem do Blues. Sentado por quase toda a apresentação, teve ao lado o baixista Francesco Beccaro e o baterista Richie Monica. Popa fez bastante uso do wha-wha e da microfonia, brincou com a introdução de "Stairway to Heaven", mandou "Hey Joe" (Hendrix), o clássico "Further up on the Road" (Bland) e fez um eletrizante leitura do Mágico de Oz em "Somewhere Over the Rainbow" (Arlen). Ainda mostrou destreza na bateria, dialogando com Francesco e Monica na base do improviso, e jogou as baquetas para o público. Fechou a apresentação com "Hallelujah" (Cohen). No palco de Iriry, a mesma vibração.

Sábado pela manhã, Zuzo Moussawer mandou a chuva embora e empolgou o público da Praça São Pedro. Ao lado do guitarrista Mauro Hector e do baterista Plinio Romero, Zuzo mostrou-se um mestre do tapping, e desfilou um contagiante repertório instrumental passeando pelo Choro, R&B e Jazz. Fez, em sua performance solo, 'Stela by Starlight" (Young) e "The Chicken" (Jaco); abraçou um contrabaixo double-neck, cantou "Superstition" (Wonder) e fechou com o standard "Freddie Freeloader" (Miles).
Cheguei de noite no palco principal na apresentação da big band Rio Jazz Orchestra liderada pela voz da Taryn Szpilman que, com um repertório no melhor do swing das grandes orquestras de Jazz, interpretou "'It Don´t Mean a Thing" (Ellington) e "The Song is You" (Kern). Chamou ao palco o guitarrista Toninho Horta, que mandou uma homenagem a Moacir Santos com "Nana" e resgatou do seu repertório os temas "Beijo Partido" e "Diana". Taryn fez um tributo a Stevie Wonder com "For Once in my Life" e "Sir Duke", e fechou a apresentação no melhor estilo das big bands com "In the Mood" (Miller).

Scott Henderson

A noite seguiu com o power trio formado por Scott Henderson, Jeff Berlin e Billy Cobham, e foi uma das apresentações mais intensas do festival, uma verdadeira jam de fusion com Henderson em uma noite muito inspirada, tocou um absurdo. Não sobrou espaço vazio na apresentação, mantendo a atenção do público por todo o tempo, sobrando improviso para todo lado. O mestre Cobham segurou a onda pela ausência de Dennis Chambers, e no repertório destaque para a abertura com uma invocada versão de "Equinox" (Coltrane), e ainda "Black Market" (Weather Report) e "Come Together" (Beatles).
Uma verdadeira pedrada essa apresentação, literalmente "quebraram tudo".

E a grande atração do festival, sem dúvida, foi o nome de Al Jarreau. Muito simpático, muito à vontade e muito feliz com o público que lotou a cidade do Jazz em Costazul, que curtiu o repertório de alguns de seus clássicos como "Mornin" e "Black and Blues". Levou a apresentação para um lado intimista ao lado do violão de John Calderon interpretando "Só Danço Samba" (Jobim), desenhou improvisos vocais e fez o púbico cantar empolgado "Mas Que Nada" (Benjor). Teve seu momento jazzy com "Better than Anything", trouxe o baixista Chris Walker para cantar junto, falou sobre seu novo trabalho em tributo a seu amigo George Duke e, como não podia faltar, fechou a apresentação com "Your Song" (Elton John), levando o público ao verdadeiro delírio. Um showman !

E a noite fechou com a empolgação da Rockin' Dopsie Jr. & The Zydeco Twisters, que deixei para curtir no incendiado palco de Iriry. E realmente se houve uma reencarnação de James Brown, ela se deu na Louisiana. Rockin' Dopsie Jr fez um verdadeiro bailão e colocou todo mundo dançando com versões empolgantes de Creedence, Beatles, James Brown, citações dos Jackson Five e Michael Jackson, Prince, Stevie Wonder e um verdadeiro medley de Rock´n´Roll cinquentão. Um super grupo que traz acordeon e washboard na formação, além dos metais, sem deixar de lado o tempero de New Orleans, berço do grupo.
Uma festa !

Al Jarreau

No domingo pela manhã, o saxofonista Glaucus Linx e grupo levou seus Spirituals Blues no palco da Praça São Pedro. Artista em ascensão na capital carioca, Glaucus coloca muita raiz africana em sua música e faz questão de expressar essa magia e a espiritualidade com o público, principalmente nas baladas; e fez seu tributo a Dave Brubeck com uma versão invocada de "Take Five". Super show !

E, como sempre, já aguardamos a edição de 2015. Pela aceitação do público, que manteve uma boa regularidade nos dois finais de semana do festival, podemos esperar que esse novo formato em duas semanas permaneça. Tanto a produção como a prefeitura de Rio das Ostras não acreditam que esse formato possa esvaziar ou promover uma perda do interesse do público devido ao deslocamento dos que residem fora do estado.
E assim vamos aonde está a boa música.
Até a próxima !

Confira o que rolou na primeira semana do Festival -

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O QUE ROLOU NA PRIMEIRA SEMANA DO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2014

11 agosto, 2014
E teve início mais uma edição de um dos maiores, e melhores, festivais de música da América Latina que, ganhando cada vez mais público e visibilidade na grande mídia, coloca em pauta a discussão de promover outras tendências que não estão inseridas na identidade do evento. Uma iniciativa um tanto controversa, afinal é um evento que leva cultura e diversão para a população, independentemente de idade e gosto musical, além de movimentar muito a economia da cidade promovendo a hotelaria, o comércio e o artesanato local.

Muito atraso na abertura do evento este ano, e a Orquestra Kuarup subiu ao palco principal quase às 11 da noite, mas basta soar os primeiros acordes para que o tempo pare e a curtição da boa música prevaleça.
Como todos os anos, a Kuarup, liderada pelo maestro Nando Carneiro e os convidados David Ganc e Mario Seve nos sopros, realizou seu tributo aos grandes mestres da nossa música, e desta vez a orquestra de jovens músicos locais fez homenagem a Dorival Caymi. Abriu os trabalhos com a interpretação do tema 'Milagre", e trouxe ao grupo a apresentação da Companhia de Dança Bahia Formosa, formada na cidade. Ainda no repertório, versões de Jobim em "Chovendo na Roseira" e "Aguas de Março", e Donato em "Bananeira".
Carlos Malta deu seguimento na noite com seu Pife Muderno, formado por Aline Gonçalves nos sopros e pífano, e os percussionistas Marcos Suzano, Bernardo Aguiar, Oscar Bolão e Rodolfo Cardoso. Muito ritmo brasileiro e muito entusiasmo no palco, agradando o público com um repertório bem regional, resgatando Jackson do Pandeiro (Canto de Ema), Gil (Chiclete com Banana), Edu Lobo (Ponteio) e Gonzagão (Asa Branca), além das performances individuais de Suzano e Aguiar nos pandeiros, este último que fez até uma citação do tema da "Pantera Cor de Rosa" na pele de couro. Malta é sempre fantástico, um dos nossos grandes e vibrantes instrumentistas, e seu show com o Pife Muderno é sempre muito animado.

Rio das Ostras Jazz e Blues

E uma das grandes e esperadas atrações do festival subiu ao palco - o baixista Marcus Miller.
Abraçado com seu Fender Jazz Bass, teve ao lado um grupo de jovens músicos da cena do Jazz contemporâneo - Alex Han no sax, Lee Hogans no trompete, Brett Williams nos teclados, Adam Agati na guitarra e o incendiário Louis Catto na bateria; e não podia ser diferente - uma apresentação sensacional.
No repertório, "Detroit", “Dr Jekyll and Mr Hyde”, "Blast" e “Run For Cover”, tema que gravou com David Sanborn, com quem tocou por muito tempo. Ainda deu espaço para sua performance solo no Clarinete Baixo, dando um ar quase intimista na apresentação. E não deixou espaço vazio - vibrou, dançou, conduziu os improvisos dos jovens músicos Alex, Lee e Agati, mandou muito slap e com o suporte rítmico do excelente baterista Louis Catto, fez, em uptempo frenético, um empolgante walking usando somente a técnica do polegar. Um showzão, apesar de relativamente curto.

Com o atraso inicial da noite, já passava das 4 da madrugada e não fiquei para o show instrumental do guitarrista Pepeu Gomes, a quem vi na tarde de sábado no intenso e vibrante palco de Iriry. Arena cheia, mesmo debaixo de muita chuva, Pepeu não deixou a galera desanimar desfilando um repertório bem brasileiro com sua pegada Rock na guitarra. No palco, os irmãos Didi e Jorginho, baixo e bateria respectivamente, os teclados de Claudio Mendes, mais guitarra base e dois percussionistas; e apresentou o enteado e guitarrista Filipe Pascual, já mostrando muita ousadia na guitarra aos 17 anos. Encerrou a apresentação com a contagiante "Chicana", a la Santana, voltou pro bis com muita vontade atacando com o clássico "Malacaxeta", tocou o Hino Nacional e, na base do improviso, mandou "Satisfaction" dos Stones colocando o público em um verdadeiro frenesi; e ainda abraçou a guitarrinha baiana no frevo "Vassourinha". Mais uma vez, e como sempre, a arena de Iriry pegou fogo.
Não assisti a apresentação de Marcus Miller no palco da Tartaruga, mas quem lá esteve viu uma apresentação mais completa, em que rolou as versões de "I'll be There", "Come Together" e a tão esperada "Tutu".

Rio das Ostras Jazz e Blues

A segunda noite teve a abertura da excelente Afro Jazz com sua roupagem funky e muito improviso. O grupo ganhou destaque na boemia da Lapa carioca e trouxe os sopros de Eduardo Santana no trompete e Oswaldo Lessa no sax, e a base de Sidão Santos no baixo elétrico, Felipe Chernicharo na guitarra e Thiago Silva na bateria, além de dois percussionistas. Com muito rítmo e muito groove, destacaram-se na abertura com "Afro Blue" (Coltrane), homenagearam Moacir Santos com "Coisa No 4" e citaram "Zaratrusta" (Deodato), tudo com uma pegada muito forte. Ao final, Eduardo Santanda assumiu a bateria e Thiago as vozes para mandar um Rap, e encerraram ao som de Ska. Super banda e um super show!
O Blues elétrico e moderno com um tanto de pegada Soul sobiu ao palco nas mãos do guitarrista e vocalista Larry McCray e quarteto formado por Kerry Clark no baixo elétrico, Steve Boone nos teclados e Steve McCray na bateria. Apesar dos problemas técnicos e imprevisíveís, como a primeira corda de sua Les Paul arrebentada e a pane do amp Fender, fez um show muito honesto e com passagens muito interessantes.

A expectativa era o nome de Raul Midón. Particularmente, não esperava muito por esta apresentação, ainda mais se tratando de uma apresentação solo no meio de dois grandes nomes do Blues. Mas não foi o que ocorreu, e quando esses momentos nos surpreendem, o registro fica para sempre.
Mídón é cego, canta com boa impostação de voz, muitas vezes simulando o sopro do trompete em seus improvisos vocais, e tem muita destreza no violão, alternando entre o aço e o nylon. Fez uso dos bongos em alguns momentos, aplicou muito o uso do tapping e fez do próprio violão também um instrumento percussivo.
Uma apresentação totalmente intimista e emocionante, e que entreteve o público do palco principal com muita sensibilidade, simpatia e muitas histórias. Citou o Reggae nos nomes de Bob Marley, Peter Tosh e Jimmy Cliff; desenhou melodias e improvisou Charlie Parker em "Yardbird Suite" com muita originalidade, mostrando que conhece a linguagem do Jazz. Ainda sentou-se ao piano para interpretar dois temas, quase fazendo o público chorar. Entre muitas de suas histórias, contou que ao conhecer sua esposa disse a ela que "não podia dirigir, mas que podia escrever uma canção"; e mostrou-se grande compositor. Encerrou a apresentação no melhor scat.
Eu fiquei impressionado com o que vi e ouvi, e a minha pouca expectativa transformou-se num dos melhores shows que assisti no festival, acredito que a única apresentação solo de todas as edições.

Rio das Ostras Jazz e Blues

E a noite encerrou com o Blues contagiante na harmônica de Rick Estrin, que trouxe um quarteto muito invocado com Kid Andersen na guitarra, Lorenzo Farrell no Hammond e contrabaixo e o baterista J. Hansen. Estrin mostrou porque levou o prêmio de melhor instrumentista na harmônica em 2013 pelo Blues Music Awards, a maior premiação do Blues, e conduziu a apresentação com base em seu último album "You Asked For It ... Live".
Destaque para o guitarrista Kid Andersen, que dialogou muito com Estrin, fez caras e tocou uma barbaridade em um verdadeiro desfile de riffs e bases. Endiabrado esse Andersen.
Mais um super show para encerrar a primeira semana do festival.

Confira o que rolou na segunda semana do Festival -

Michel Leme DVD Na Montanha

OUSADA E CRIATIVA: MELISSA ALDANA

05 agosto, 2014
Melissa Aldana Crash Trio

A chilena Melissa Aldana começou a tocar sax aos 6 anos de idade, e recebeu as primeiras lições de seu pai, também saxofonista. Naquela época, o estudo era apoiado ouvindo fitas cassetes, e no decorrer do aprendizado seu pai a pediu para escolher um tema que gostasse muito, e a escolha foi de ninguém menos que Charlie Parker.
A ainda adolescente Melissa tinha Cannonball Adderley e Michael Brecker entre seus favoritos, até conhecer o som de Sonny Rollins, e foi então que pediu ao pai para tocar sax tenor.
Aos 16 anos já estava nos palcos dos clubes de Jazz em Santiago, quando soube que o pianista Danilo Perez estaria na sua cidade em turnê local com Wayne Shorter, e ela foi atras dele pois sabia que ele era influente na Berklee College of Music. Cercado pela jovem saxofonista, Danilo Perez a convidou para tocar no Panama Jazz Festival e a ajudou para conseguir uma audição tanto em Berklee quanto no New England Conservatory.
Melissa foi aceita em ambas, e partiu para os EUA.

Assim ela conta - "Eu não fui para Berklee para aprender a tocar sax, isso meu pai me ensinou. Fui para crescer como músico, estar cercada por outros jovens músicos e aprender com os mais experientes."
Após se formar, mudou-se para NY e uma das primeiras pessoas que ela procurou foi o saxofonista George Coleman, que acabou se tornando seu mentor. Gravou seu primeiro album, "Free Fall" (2010), pela gravadora do também saxofonista Greg Osby, Inner Circle. Circulando pelos palcos da big apple, tocou com os grandes, ganhou reconhecimento e partiu para os palcos dos grandes festivais pelo mundo.
Gravou seu segundo album solo, "Second Circle" (2012), ao lado do contrabaixista Joseph Lepore, o baterista Ross Pederson e o trompetista Gordon Au. Formação ousada - sax, contrabaixo e bateria - sem instrumento harmônico, e Melissa creditou isso por, na época, estar ouvindo muito esse tipo de música e este ser o melhor meio dela expressar o que estava pensando, colocando Mark Turner e Tom Harrel entre essas influências; assim ela afirmou em entrevista para o site All About Jazz.

Crash TrioSecond Circle

Em 2013, aos 24 anos, Melissa ganhou o "Thelonious Monk International Jazz Saxophone Competition" por um juri formado por Jane Ira Bloom, Branford Marsalis, Jimmy Heath, Wayne Shorter e Bobby Watson, sendo a primeira instrumentista feminina e a primeira sul americana a ganhar a competição, recebendo ainda um contrato com a Concord Music, por onde lançou seu recente album, "Crash Trio" (2014), também em formação de trio ao lado do contrabaixista chileno Pablo Menares e o baterista cubano Francisco Mela.
A menina é ousada, muito criativa e tem a linguagem do Jazz do jeito que a gente gosta.


melissaaldana.com/