MUY POQUITO COM ITAMAR CARNEIRO TRIO

23 maio, 2015

A simplicidade é a máxima sofisticação.
É por essas linhas que o guitarrista paulista Itamar Carneiro rege seu modo de ser, simples, que gosta das coisas simples; e faz do uso desta simplicidade um universo de histórias musicais.

Com muito talento e criatividade, ele apresenta seu primeiro álbum solo, Muy Poquito, um registro independente em que traz um repertório autoral em 6 composições, fazendo uma fusão de ritmos latinos, muito influenciado pela música cubana, sem perder o swing e a linguagem da música brasileira.
Sem dúvida, uma música de extrema grandeza, emoção e singularidade.

Ao lado de Itamar Carneiro estão Shamuel Dias no baixo elétrico e Danilo Carvalho na bateria, um trio super integrado e com espaço para muito improviso, em uma sessão gravada sem cortes, sem overdubs, sem correção nem adição de mais nada, para que se perceba o som mais real possível, ao vivo.
O álbum abre com a forte melodia do tema título, cadenciado pela atmosfera latina e trazendo intensos improvisos de Itamar, Shamuel e Danilo. Em "Meu Porto, meu Cais", Itamar introduz o tema com um chord melody em uma belíssima balada; assim como na bossa "Um Mar de Saudade". O ritmo brasileiro marca o "Baião de Assis Carneiro", mostrando sua influência por Gonzagão em um mood muito particular; e o Blues tem presença em "Martino Blues", uma reverência ao guitarrista Pat Martino. Fechando o álbum, uma belíssima interpretação solo em "O Trem de Cabedelo".

Itamar usou uma Ibanez AF100 em todas as faixas, com exceção de "O Trem de Cabedelo", em que usou uma guitarra fabricada pelo luthier Aquiles, de Brasília, ambos plugados em um amp Fender Delux 112.

Com a palavra, Itamar Caneiro -

Gustavo Cunha: Conte sobre sua formação musical e como a guitarra se tornou protagonista em sua vida.
Itamar Carneiro: Me formei primeiramente no extinto Conservatório Padre Jose Mauricio, localizado na minha cidade São Bernardo do Campo. Antes disso tive aulas particulares com um excelente guitarrista da região, Ronaldo Mirandah. Eu tinha uns 16 anos e estava aprendendo tudo que eu podia sobre teoria musical e começava a empunhar a guitarra de uma maneira interessante. Foi quando esse meu primeiro professor me deu uns discos pra eu levar pra casa e ouvir, entre eles Larry Coryell e Toninho Horta. Lembro-me de ter ficado alucinado com aqueles dois discos, me fizeram chorar e foi a partir dali que tudo começou de verdade. Em seguida, com aquele som na orelha 24hs por dia, procurei o Conservatório Padre Jose Mauricio e tive outra grande sorte, um presente de Deus - encontrei outro super professor chamado Sergio Leão. O "Leão", como todos aqui em S.B.Campo o chamamos, me ensinou tudo, ele é um cara minucioso com os alunos e percebeu que eu tinha vontade de aprender. Estar como aluno sob o comando de suas batutas foi fundamental, sempre muito honesto e como professor não poderia ser diferente, atencioso com minhas duvidas, me acalmando com minhas ansiedades e procurando sempre me levar ao amadurecimento; foi assim durante quatro anos.
Depois fui para a FAAM onde estudei dois anos como o professor Marcelo Gomes, e tive as outras matérias do curso. Dai migrei definitivamente para a FASCS, Fundação Das Artes de São Caetano do Sul, onde estudei 5 anos cumprindo todo o conteúdo de um curso extremamente acadêmico, e lá meu professor de guitarra foi o Jorge Hervolini. Além disso, toquei na Big Band da FASCS por 2 anos sob a regência do Maestro Sergio Gomes.
Mais tarde procurei um cara que continua sendo um exemplo pra mim, o professor Heraldo do Monte, um ídolo e um super ser humano, cujo período de aulas durou apenas 5 meses.

GC: "Muy Poquito" tem a formação de trio, sem instrumento harmônico. É um desafio tocar nesta formação?
IC: Sim, é um desafio. Principalmente pra mim que só tocava em quarteto com um piano sempre me dando suporte. Na verdade, eu não sabia tocar em trio até este disco. Ainda tenho muito que amadurecer, e estou na busca por isso. Ainda sou uma criança aprendendo a dar os primeiros passinhos em relação a tocar em trio, onde a guitarra assume um papel de harmonizador.


GC: Fale sobre os músicos que estão com você e como surgiu a ideia de registrar esta sessão.
IC: Vou descrever isso da maneira mais honesta que eu puder. Começou com minha vergonha de ser eu mesmo. Eu tinha muita vergonha do meu sotaque, das coisas que escrevia, e me preocupava com “O que os outros iriam pensar de mim”; e é bem verdade que eu tinha um problema psicológico a ser resolvido. Eu escrevia melodias e as deixava na gaveta mofando.
O pouco tempo de aula com o Heraldo me ajudou muito; com as aulas comecei a pensar sobre o fato da existência humana, sobre o “Eu”, singular, único, especial.
Nesta gravação, como músico sei perfeitamente que preciso amadurecer muito, mas como ser humano, no que diz respeito a “certeza”, eu estava pronto. Na gravação fui eu mesmo com toda a verdade que pude ser. Fui feliz em gravar, muito feliz. Foi dessa maneira que comecei a pensar em registrar uma sessão de gravação dos meus temas.
Os músicos são meus amigos e companheiros de FASCS - o Shamuel Dias fez o baixo elétrico e cuidou de parte da Produção do disco, e o Danilo Carvalho fez a bateria. Ressalto que ambos são extremamente talentosos e pessoas do bem, dois cavalheiros. Fizemos 2 takes de cada faixa, mas eu escolhi os primeiros, com exceção do "Martino Blues".

GC: A música cubana exerceu forte influência na linguagem do Jazz. Há uma presença muito forte desta textura em sua música, além da riqueza da música brasileira, em ritmo e melodia. Quais suas influências e/ou referências?
IC: Ouço musica Cubana e latina desde criança, mas tenho um amigo que me fez mergulhar nisso e ouvir ainda mais - um filho de chilenos chamado Pablo Lopez. Eu tenho uma preferencia pela musica camponesa cubana, aquelas que só têm voz e três instrumentos, e tem uma melodia curta e simples. Isso me fascina. Gosto de coisas simples.
Tenho uma ligação muito forte com a natureza, principalmente com o mar, talvez pelo fato de ser neto de pescador. Minha família materna é de João Pessoa, e minha família paterna é do sertão do Rio Grande do Norte e Paraíba. Ouvi Gonzagão e companhia a vida toda. Acho que tudo se juntou na minha cabeça e saiu o que saiu. Adoro melodias e acho que consigo escrever coisas bonitas, gosto do que eu escrevo.
Então, minhas influencias musicais são musica de gente humilde mesmo, eu não me considero um músico sofisticado e não pretendo ser, gosto de coisas simples.

GC: As composições longas abrem um bom espaço para explorar o lado criativo. Você acredita que a improvisação livre é um caminho natural para expressar emoção no tempo em que a música ocorre?
IC: Pra mim, se uma melodia começa ela tem seu próprio curso pra ir aonde ela quer ir, e ninguém pode interromper isso. Penso como Carlos Drummond de Andrade, a poesia vem de uma estância maior, seja ela qual arte for, e nos improvisos a coisa pra mim é dessa maneira. A liberdade de criação nos improvisos requer muito estudo. Estudar os estilos musicais, as texturas, a historia da cultura de onde a música veio, e por ai vai.
Então, penso sim que o improviso é uma forma natural de se expressar com emoção, mas isso requer muito estudo, não da pra fazer isso do nada.

GC: Belíssima composição solo em "Trem de Cabedelo". O que o inspira nesses momentos intimistas?
IC: Uma Paisagem. La em João Pessoa, na cidade dos meus pais, tem um trem muito antigo que transita das cidades mais simples levando trabalhadores para João Pessoa, uma delas é a cidade de Cabedelo. O trem é periférico, pobre, feio, velho e mal tratado.
Se forem a João Pessoa, mais precisamente no centro velho, ao lado do Hotel Globo, vão entender minha inspiração. O trem passa entre construções antigas buzinando. Se quiser, pode ir a Cabedelo nele, é bem legal, é lindo. Isso me marcou. As coisas simples geralmente mexem muito comigo, e eu gosto de transpor isso para a música, a arte onde me coloco.

Obrigado Itamar Carneiro, e Sucesso !

Você pode adquirir o álbum Muy Poquito na Pops Discos.

O ADEUS AO REI DO BLUES B.B. KING

15 maio, 2015

Comecei a ouvir Blues de verdade nos anos 80, e a primeira vez que a gente ouve aquela única nota rasgada de B.B. King, nunca mais esquece. E esse momento foi o registro de um álbum duplo em vinil, gravado ao vivo, que, definitivamente, colocou o Rei do Blues na minha prateleira - Live Now Appearing at Ole Miss (1980), um álbum espetacular e que deixou até hoje na memória aquela versão incendiária de "Caldonia", e ainda trazia neste mesmo álbum seu tema que se tornou quase um hino - "The Thrill Is Gone". Não demorou para eu ir atras de outro registro histórico e clássico - Live in Cook County Jail (1971), também gravado ao vivo e este dentro de um presídio, Cook County Jail, em Chicago, álbum que figura na lista dos 500 álbuns de todos os tempos pela Rolling Stone. E ao vivo a história é sempre diferente, seu álbum Live at Regal (1965), também gravado em Chicago, está listado no livro "1000 discos para ouvir antes de morrer" (Robert Dimery, Ed. Sextante).

Live at Regal Live in Cook County Jail Live

A guitarra de B.B. King tem assinatura própria, tem aquele nota, basta 1 única nota, que é influência e referência para todos que se envolvem no mundo do Blues, gerações que passaram, que estão aí e que ainda estão por vir. E B.B. King vai além da guitarra, tem em sua voz a força, a intensidade e a paixão do Blues.
Um ícone para muitos, um Bluesman !
Sua música deixa um legado, uma escola. Ao longo da carreira teve ao lado grandes nomes como Bobby Bland, com quem gravou dois excelentes álbuns Together for the First Time (1974) e Together Again (1976); fez um interessante e inesperado trabalho com a cantora Dianne Schur em Heart to Heart (1994); e um belo álbum com Eric Clapton em Riding with the King (2000), este que deu a ele o Grammy como melhor álbum de Blues; alias, foram vários prêmios Grammy.
Há uma grande e obrigatória discografia, e de fato ele deu um rumo ao Blues moderno.

B.B. King imortalizou sua guitarra modelo 335, batizando-a de "Lucille", cuja história do nome deu-se no ano de 1949 quando ele tocava em um palco na cidade de Arkansas e, em consequência de uma briga, o local pegou fogo. Todos correram para o lado de fora, e então B.B. percebeu que tinha deixado sua guitarra lá dentro e voltou para recuperá-la, um modelo Gibson que tinha custado meros 30 dólares. Na manhã seguinte, descobriu que os dois homens tinham brigado por causa de uma mulher de nome Lucille, batizando, assim, seu modelo de guitarra que foi endossado pelo fabricante. B.B. veio a escrever uma canção de mesmo nome, em que relata este fato.

Riley B King nasceu na cidade de Itta Bena, Mississipi, em 1925. Como dizia seu pai, em algum lugar entre Itta Bena e Indianola. Uma história não diferente dos negros daquela época, com trabalho escravo nas plantações de algodão. Sua história musical começou quando seu tio casou-se com a irmã de um pregador local, que, aos domingos após a missa da tarde, ia até sua casa e deixava sua guitarra sobre a cama; e B.B. a pegava, iniciando sua relação com o instrumento. Foi o Reverendo Archie que B.B. ouviu tocar guitarra pela primeira vez; cantou canções Gospel, muitas vezes líder de grupo, entre eles o "The Famous St John Gospel Singers".
B.B.King partiu para Memphis, onde sua carreira musical começou a ganhar direção. Memphis era o lugar certo e era onde os músicos estavam dispostos a ajudar àqueles que queriam aprender, se encontrando nas ruas e trocando idéias. Lá, B.B. encontrou seu primo Bukka White, que costumava dizer a ele que para ser um Bluesman devia se vestir como se fosse ao banco pedir dinheiro emprestado.
Bukka White tocava usando um slide, coisa que B.B. nunca conseguiu usar; porém, para conseguir aquele som, B.B. passou a usar o dedo como um vibrato, o que acabou tornando-se uma das suas características principais, uma escola. Começou a cantar, por indicação de Sonny Boy Willianson, e a trabalhar como DJ em uma rádio local, WDIA, e foi o primeiro negro a operar uma estação de rádio.
Era o Blues Boy, que todos passaram a chamar de "Bee Bee". 

Martin Scorsese dedicou a B.B.King um documentário na série "Presents the Blues: The Road to Memphis"; e teve sua biografia em filme dirigida por Jon Brewer intitulada "The Life of Riley", que traz uma série de depoimentos.

Incansável ! Um verdadeiro Bluesman.
B.B.King : 1925-2015

BLUES MUSIC AWARDS 2015

08 maio, 2015

Anunciados os vencedores da edição 36 do Blues Music Awards, promovido pela Blues Foundation, organização fundada em 1980 dedicada e preservar a história do Blues.
A noite de premiação ocorreu em 7 de maio em Memphis, em uma semana de muitas apresentações.
Entre os premiados desta edição, destaque para Elvin Bishop e John Hammond; ainda Gary Clark Jr. e John Nemeth que, pelo segundo ano consecutivo, estão entre os premiados; e, mais que merecido, o nome de Joe Bonamassa como guitarrista destaque.
Este espaço também já dedicou artigos a alguns vencedores - Lisa Mann, Janiva Magnes, Deanna Bogart, Gary Clark Jr. e Joe Bonamassa; e aos nomeados Eden Brent e Beth Hart.

Confira a lista completa (e os nomeados) -

Band : Elvin Bishop Band
(John Németh & the Bo-Keys, Rick Estrin & the Nightcats, Sugar Ray & the Bluetones, The Mannish Boys)
Album : Can’t Even Do Wrong Right – Elvin Bishop
(Living Tear To Tear – Sugar Ray & the Bluetones; Memphis Grease – John Németh; Refuse to Lose – Jarekus Singleton; Wrapped Up and Ready – The Mannish Boys)
Contemporary Blues Album : BluesAmericana – Keb’ Mo
(Can’t Even Do Wrong Right – Elvin Bishop; Original – Janiva Magness; Refuse to Lose -Jarekus Singleton; Hornet’s Nest – Joe Louis Walker)
Soul Blues Album : Memphis Grease – John Németh
(Blues for My Father – Vaneese Thomas; Decisions – Bobby Rush with Blinddog Smokin; In My Soul – The Robert Cray Band; Soul Brothers – Otis Clay & Johnny Rawls)
Soul Blues Male Artist : Bobby Rush
(Curtis Salgado, John Németh, Johnny Rawls, Otis Clay)
Soul Blues Female Artist : Sista Monica
(Candi Staton, Missy Andersen, Sharon Jones, Vaneese Thomas)
Best New Artist Album : Don’t Call No Ambulance – Selwyn Birchwood
(Chromaticism – Big Harp George; Heavy Water – Fo’ Reel; Making My Mark – Annika Chambers & the Houston All-Stars; One Heart Walkin‘ – Austin Walkin’ Cane)
Harmonica : Charlie Musselwhite
(Kim Wilson, Mark Hummel, Rick Estrin, Sugar Ray Norcia)
GuitarJoe Bonamassa
(Anson Funderburgh, Johnny Winter, Kid Andersen, Ronnie Earl)
BassLisa Mann
(Bob Stroger, Michael “Mudcat” Ward, Patrick Rynn, Willie J. Campbell)
DrumsJimi Bott
(June Core, Kenny Smith, Tom Hambridge, Tony Braunage)
HornDeanna Bogart
(Al Basile, Jimmy Carpenter, Sax Gordon, Terry Hanck)
Contemporary Blues Female ArtistJaniva Magness
(Beth Hart, Bettye LaVette, Marcia Ball, Shemekia Copeland)
Traditional Blues Male ArtistLurrie Bell
(Billy Boy Arnold, John Primer, Sugar Ray Norcia, Sugaray Rayford)
Acoustic Album : Timeless – John Hammond
(Hard Luck Child: A Tribute to Skip James – Rory Block; Jericho Road – Eric Bibb; Jigsaw Heart – Eden Brent; Son & Moon: A Tribute to Son House – John Mooney)
Acoustic Artist : John Hammond
(Doug MacLeod, Eric Bibb, John Mooney, Rory Block)
Traditional Blues Album : A Tribute to Muddy Waters – Mud Morganfield & Kim Wilson
(Common Ground: Dave Alvin and Phil Alvin Play and Sing the Songs of Big Bill Broonzy – Dave Alvin and Phil Alvin; Livin’ it Up – Andy T-Nick Nixon Band; Living Tear To Tear – Sugar Ray & the Bluetones; The Hustle is Really On – Mark Hummel; Wrapped Up and Ready – The Mannish Boys)
Contemporary Blues Male ArtistGary Clark Jr.
(Elvin Bishop, Jarekus Singleton, Joe Bonamassa, Joe Louis Walker)
Rock Blues AlbumStep Back – Johnny Winter
(Goin’ Home – Kenny Wayne Shepherd Band; Time Ain’t Free – Nick Moss Band; heartsoulblood – Royal Southern Brotherhood; The Blues Came Callin’ – Walter Trout)
Song“Can’t Even Do Wrong Right” written and performed by Elvin Bishop
(“Another Murder in New Orleans”(Carl Gustafson & Donald Markowitz) por Bobby Rush, Dr. John with Blinddog Smokin; “Bad Luck Is My Name” (John Németh) por John Németh; Let Me Breathe” (Janiva Magness & Dave Darling) por Janiva Magness; “Things Could Be Worse” (Ray Norcia) por Sugar Ray & the Bluetones)
B.B. King EntertainerBobby Rush
(Elvin Bishop, John Németh, Rick Estrin e Sugaray Rayford)
Historical : Soul & Swagger The Complete 5 Royales 1951-1967 (Rock Beat)
(From His Head to His Heart to His Hands – Michael Bloomfield (Columbia/Legacy);
Live at the Avant Garde – Magic Sam (Delmark); The Modern Music Sessions 1948-1951 – Pee Wee Crayton (Ace); The Roots of it All-Acoustic Blues – Various Artists (Bear Family))
Pinetop Perkins Piano Player : Marcia Ball
(Barrelhouse Chuck, Bruce Katz, David Maxwell, Eden Brent)
Koko Taylor Award : Ruthie Foster
(Alexis P Suter, Diunna Greenleaf, EG Kight, Trudy Lynn)

UM TRIBUTO PARA BILLIE HOLIDAY

19 abril, 2015
No ano do centenário de Billie Holiday, nada mais natural que venham as homenagens, afinal foi uma das mais surpreendentes cantoras surgidas no século passado, pela sua voz, pela sua história e pelo legado de sua música.

O cantor Jose James apresenta o belíssimo álbum Yesterday I Had the Blues - The Music of Billie Holiday, uma celebração a uma das vozes que tanto o influenciou, interpretando 9 temas escritos e revelados por Billie.
Ao seu lado, o pianista Jason Moran, o contrabaixista John Patitucci e o baterista Eric Harland; e a produção de Don Was. presidente da Blue Note, gravadora por onde o álbum foi lançado.

Para Jose James, Billie é sua mãe musical, é parte da sua memória, cuja voz era predominante em sua casa - calorosa, dramática e dolorosa; e foi uma descoberta que deu-se em um período difícil de sua adolescência, como uma fuga durante seus períodos de tristeza. Ainda afirma que a música de Billie o fez, de fato, um cantor, e o colocou no caminho que estra trilhando hoje.

No repertório, as belíssimas baladas "Good Morning Heartache", "Body and Soul" e "Tenderly"; uma roupagem bem bluesy para "Fine and Mellow", "Lover Man" e "God Bless the Child"; e um belo duo com Moran em "I Thought About You". Ainda, "What a Little Moonlight Can Do", formatada em uptempo introduzida por um intenso improviso de Moran e um Harland sempre genial; e, à capela, na melhor atmosfera spiritual, uma interpretração dos deuses para "Strange Fruit".

josejamesmusic.com/



"Ninguém canta como eu a palavra fome ou a palavra amor. 
Sem dúvida porque eu sei o que há por trás desssas palavras" 
Billie Holiday : 1915-1959  

IGOR PRADO BAND É TOP #1

08 abril, 2015
A Igor Prado Band chegou ao Top #1 nas rádios de Blues dos EUA com o sensacional álbum Way Down South no ranking da Living Blues Chart, o mais abrangente e respeitado na América.
Conforme informou a Delta Blues Music, gravadora por onde o álbum foi lançado, é a primeira banda de fora dos EUA que conseguiu chegar ao Top #1 dos mais executados por lá.

Way Down South traz, além de Rodrigo Mantovani e Yuri Prado, as participações de Kim Wilson, Lynwood Slim, Mud Morganfield, Sugaray Rayford, J.J.Jackson, Rod Piazza, Mitch Kashmar, Wallace Coleman, Randy Chortkoff, Junior Watson, Monster Mike Welch, Raphael Wressnig, Ivan Marcio, Ari Borger, Donny Nichilo e Denilson Martins.

Celebrando mais esta conquista, a Igor Prado Band excursionará pelos EUA no mês de maio.
Confira as datas -
dia 2 : Blues City Deli e BB's Jazz & Blues, Saint Louis com R.J. Mischo
dia 3 : Rum Boogie Caffe - Memphis, Tennessee com R.J. Mischo
dia 6 : Blues Hall of Fame Tribute Jam - Hard Rock Cafe Memphis,Tennessee com Jackie Scott
dia 9 : Pasadena, California com Jai Malano
dia 10 : Long Beach, California com Jai Malano
dia 11 : Tarzana, California com Jai Malano
dia 13 : Oceanside Theater, California com Jai Malano, Trickbag e Carl Leyland
dia 14 : Buffalo Fire - Torrance, California com Jai Malano e Trickbag
dia 15 : Ventura Blues Club, California com Mitch Kashmar e Carl Leyland
dia 16 : Doheny Blues Festival - Dana Point, California com Jai Malano e Mitch Kashmar
dias 18 a 30 : Texas

O ranking da Living Blues Chart - (a lista completa você confere aqui

1. Igor Prado & The Delta Groove All Stars, Way Down South (Delta Groove)
2. Smokin’ Joe Kubek & Bnois King,  Fat Man's Shine Parlor (Blind Pig)  
3. Harrison Kennedy, This Is From Here (Electro-Fi)
4. Doug MacLeod, Exactly Like This (Reference)
5. Tinsley Ellis, Tough Love (Heartfixer Music)
6. Toots Lorriane, Make It Easy (Greaseland)
7. Blues Disciples,  Big Beat (Land O' Blues)
8. Brandon Santini, Live & Extended (Vizztone)
9. Mike Henderson, If You Think It's Hot Here (EllerSoul)
10. Greg Nagy, Stranded (Big O)
11. Junior Wells, Southside Blues Jam (Delmark)
12. Robben Ford, Into The Sun (Provogue)

BRAZILJAZZFEST EM DUAS NOITES

30 março, 2015
O BrazilJazzFest celebrou os 30 anos de uma proposta que começou com o Free Jazz Festival, idealizado pelas irmãs Gardenberg, uma oportunidade em que grandes nomes do estilo subiram em nossos palcos. Por razões que envolveram a composição dos patrocinadores, o evento passou a se chamar TIM Festival e mais tarde BMW Festival, este que ainda teve sua última edição no ano passado.
Com a curadoria de Zuza Homem de Melo, Zé Nogueira e Pedro Albuquerque, a comemoração foi em grande estilo e o palco, no Rio de de Janeiro, foi o belo teatro da tão polêmica Cidade das Artes na Barra da Tijuca.

Para abrir a noite carioca, o trompetista Wynton Marsalis veio liderando a JLCO - Jazz at the Lincoln Center Orchestra, uma reunião de grandes músicos residentes na capital do Jazz, New York.
Wynton é incansável na divulgação do Jazz, não perde a oportunidade de realizar encontros do estilo com outras tendências, além de promover a educação e manter o legado dessa intensa e contagiante arte musical.

Wynton Marsalis Jazz at Lincoln Center Orchestra
foto : Ricardo Nunes
Ao lado de Marsalis, os trompetistas Ryan Kisor, Marcus Printup e Kenny Rampton; a linha de trombones formada por Elliot Mason, Chris Crenshaw e Vincent Gardner; as palhetas de Walter Blanding, Victor Goines, Sherman Irby, Ted Nash e Paul Nedzela; e a base rítmica formada pelo contrabaixista Carlos Henriquez, o pianista Dan Nimmer e o gigante baterista Ali Jackson.
No repertório, todas as composições arranjadas por um dos membros do grupo, as quais Marsalis sempre citava, e um passeio pela história e compositores do Jazz desde os anos 20, do tradicional spiritual “God’s trombones”, composto em 1927, com arranjo de Chris Crenshaw; “Señor blues”, composição de Horace Silver, aqui arranjada por Henriques; uma homenagem a James Moody com “Moody’s Mood for Love”, com espaço para os trombonistas Vincent Gardner e Chris Crenshaw largarem a voz; a latinidade de “Fiesta Mojo”, que tanto influenciou Dizzy Gillespie; e o bebop com "Things to Come, em um uptempo frenético marcado pelas baquetas de Ali Jackson e um Marsalis inspiradíssimo em seu improviso.
Aliás, sobraram intensos improvisos para todos; e convidados muito especiais subiram ao palco representando a nossa Música Instrumental - o trombonista Vitor Santos, interpretando Coisa No. 2" de Moacir Santos, arranjado por Sherman Irby; o bandolinista Hamilton de Holanda e o trompetista Jesse Sadoc em "Bebê" de Hermeto Pascoal, arranjado por Creenshaw, com um espetacular improviso de Hamilton aos olhos de um entusiasmado Marsalis; e ainda as participações do trompetista Aquiles Moraes e do arranjador e violonista Mario Adnet.
Moacir Santos ganhou novamente destaque em "Coisa No. 8", em arranjo de Ted Nash.
Quase 2 horas de apresentação e, ao final, quando os metais da JLCO se retiravam do palco, o trio com Ali Jackson, Enriques e Nimmer permaneceram no palco mantendo o mainstrean, preparando a volta de Marsalis para uma breve interpretação em quarteto, encerrando, assim, uma contagiante noite de Jazz.

Andre Mehmari Trio
foto : Ricardo Nunes
A noite de sábado era dos trios de piano. E ninguém melhor para representar a música brasileira e instrumental que Andre Mehmari, acompanhado pelo contrabaixista Neymar Dias e pelo baterista Sergio Reze, este há 20 anos ao lado de Mehmari. Na carona do lançamento do álbum Ouro Sobre Azul, gravado em homenagem aos 150 anos de Ernesto Nazareth, Mehmari abriu a noite em piano solo com o tema "Fon-Fon", convidando em seguida os integrantes do trio. Tão intenso quanto melódico, Mehmari apresentou "Um Anjo Nasce", originalmente gravada com o clarinetista Gabriele Mirabassi; "Ouro sobre Azul"; passou por "Brejeiro"; mostrou a última das quatro partes da "Suite da Cantareira"; e contou histórias como a do tema "De Tarde", cuja composição a segunda parte foi deixada incompleta por Nazareth. Fechou com a belíssima "Lachrimae", do álbum homônimo; e para os amantes methenymaníacos uma interpretação muito emocionante de "Au Lait", composição de Metheny e Mays (Off Ramp, 1982), mesclada com "Último Desejo" de Noel Rosa.
Uma apresentação intensa, criativa e simplesmente impecável.

Na sequência, a atmosfera inebriante do pianista norueguês Tord Gustavsen, acompanhado pelo contrabaixista Sigurd Hole e pelo baterista Jarle Vespestad.
Tord é artista da gravadora ECM, e seu som não foge à regra, adicionando aqueles elementos característicos da música que se faz em seu país de origem - sombrio, melancólico, minimalista e com aquela capacidade de nos transportar em intensas dimensões sonoras. Fez uso de uma discreta base eletrônica, mas encaixada perfeitamente na proposta da sua música. Muito espaço para as pontuações solo de Sigurd e Vespestad, um trio bastante afinado. No repertório, "Tears Transforming" e "Being There" (The Ground, 2005); Right There" (Extended Circle, 2014), seu último álbum que teve a participação do saxofonista Tore Brunborg e do contrabaixista Mats Eilertsen; "Where We Went" e "Wild Open" (Being There, 2007); e uma canção tradicional norueguesa intitulada "Eg Veit I Himmerik Ei Borg", traduzida “I Know A Castle In Heaven” (Extended Circle, 2014).
Belíssima apresentação.

Perdi a última noite em que apresentaram-se The Cookers e o saxofonista Miguel Zenon, a noite em que o Jazz, com absoluta certeza, rolou solto.
Espero que ano que vem tenha mais.

NOVOS CAMINHOS

15 março, 2015
Será que, necessariamente, precisamos nos guiar por novas direções para encontrar novos caminhos?
Quando a assunto é Música, outros elementos se juntam nesta jornada, e um é extremante essencial - a criatividade, que, a cada ideia, nota ou acorde, nos leva a um universo sem limites e sem fronteiras.
São coisas que só a arte da música pode proporcionar.

E foi pensando Música que os guitarristas Ivan Barasnevicius e Rodrigo Chenta resolveram somar todas estas variáveis e lançar o álbum "Novos Caminhos", um duo de guitarras acústicas com repertorio autoral.
O mundo do Jazz sempre nos presenteou com grandes registros de duos de guitarras pelas mãos de Joe Pass e Joe Pisano, Bucky Pizzarelli e Howard Alden, Tal Farlow e Philippe Petit, entre outros; sem citar dos inúmeros encontros acompanhados de seção rítmica.
"Novos Caminhos" é inspirado na diversidade de formas e estilos, carregando influências sem deixar de ser original. Aqui, as guitarras acústicas são as protagonistas - no canal direito está Ivan Barasnevicius, no canal esquerdo está Rodrigo Chenta, linhas paralelas que, de alguma forma, se encontram no infinito.


Rodrigo Chenta é professor, compositor e muito atuante em diversas formações instrumentais. Formado pela Universidade Livre de Música (ULM) em "Guitarra e Composição" e pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul (FASCS) em "Formação Musical com Habilitação em Guitarra".
Ivan Baranesvivius já é conhecido deste espaço. Músico, professor, pesquisador musical e coordenador didático do Centro Musical Venegas Music. Formado pela FAAM, lidera seu trio de Música Instrumental com 2 álbuns gravados - "Sintese" (2012) e "Continuum" (2014), e é autor do livro "Jazz: Harmonia e Improvisação".


E para contar esta história, um bate-papo com os protagonistas deste belo registro.
Com a palavra, os mestres Ivan Barasnevicius e Rodrigo Chenta -

Como surgiu a oportunidade de gravarem em duo?
Ivan Barasnevicius : Sempre gostei muito de tocar com duo de guitarras, pois nesta situação vamos diretamente ao encontro de algumas limitações do instrumento, como a limitação timbrística e de sustain, ou o fato de se trabalhar com dois instrumentos harmônicos e de mesma tessitura. Quando construímos um repertório extenso somente com duas guitarras acústicas e pouquíssimos efeitos, somos obrigados a buscar soluções para estas questões. Vale lembrar também que durante todo o período de atividade da Venegas Music TV, programa que apresentei entre 2008 e 2012, toquei muitas vezes em duo com os entrevistados Nelson Faria, Heraldo do Monte, Mauro Hector, Pollaco, Lupa Santiago, entre muitos outros. Há tempos buscava um parceiro para aprofundar este tipo de trabalho, mas não com o espírito de jam session, e sim com o intuito de formatar uma sonoridade. Fiz o convite ao Chenta, que se interessou pela proposta; e então percebemos grande afinidade musical e com relação ao direcionamento do trabalho. A partir daí, o caminho para a realização de “Novos Caminhos” foi algo natural.
Rodrigo Chenta : Eu sempre gostei de tocar com esta formação, pois ela nos obriga a resolver muitos problemas que surgem a cada momento. Dois instrumentos iguais sendo executados ao mesmo tempo é algo bastante difícil. Se tem a árdua tarefa de fazer as músicas não soarem sempre da mesma maneira. Quando o Ivan me convidou, juntou a fome com a vontade de comer. Passamos a ensaiar semanalmente na Escola de Música Venegas Music e após 1 ano de estudos, experiências, boas e saudáveis discussões, resolvemos registrar o resultado do trabalho em um CD com músicas e arranjos próprios; e tudo sendo executado ao vivo para manter o trabalho o mais orgânico possível.

Há uma forte presença melódica nas composições. Como se desenvolveu o processo de composição?
Ivan Barasnevicius : Alguns dos temas, como “Valsa para Ana” e “Serra do Cafezal”, já existiam antes da formação do duo. Em outros casos, como “Tema para Pietra”, a composição já foi planejada para esta formação. Deve-se citar que embora os arranjos sejam elaborados antes das músicas serem ensaiadas, é fato que durante este processo algumas coisas se modificam. Portanto, pode-se afirmar que muitos detalhes dos arranjos foram desenvolvidos de forma conjunta. Com relação às minhas composições, na maior parte das vezes busco a simplicidade e a economia na construção das melodias, sejam elas improvisadas ou não, mas para mim é de grande importância que estas sejam cantáveis e que o ouvinte possa lembrar delas depois de conhecê-las. Como exemplo, cito o motivo principal de “Valsa para Ana”, que é bastante simples, mesmo porque a ideia é utilizar este fragmento melódico contra diferentes texturas harmônicas, explorando as possibilidades de rearmonização e arranjo. Provavelmente esta impressão de uma grande presença melódica no disco está diretamente relacionada com essas nossas intenções.
Rodrigo Chenta : Inicialmente a ideia era trabalhar com o formato standard nas composições, porém o que aconteceu é que as músicas ficaram completamente fora desta proposta. Há uma grande diversidade em relação às formas, sessões de improvisação, introduções, codas, etc. Algumas músicas foram compostas antes do duo e arranjadas para a formação de duas guitarras como “Inocência” e “Minha Neném”, e outras já foram compostas pensando especificamente no duo como “Novos Caminhos” e “Mulher Brava”, coisa que será 100% desta maneira no próximo álbum. Sobre a presença melódica nas composições, ela vem naturalmente baseada no estilo pessoal de cada um. Existem momentos que são bastante cantáveis e outros que nem tanto. Vejo está dualidade como um elemento de enriquecimento do conteúdo musical proposto. O processo de composição das músicas é individual, mas todos os arranjos do duo são elaborados em parceria e levam alguns meses tocando até serem finalmente finalizados, pois assim, temos as qualidades e estilos dos dois músicos presentes na execução das obras. E por incrível que pareça, tem arranjo que é terminado/modificado no momento da gravação.


Muito bom ver os elementos do Jazz presentes, como a citação de Footprints (Shorter) em "Serra do Cafezal" e a liberdade dos improvisos em "Novos Caminhos", "Mulher Brava" e "Valsa para Ana". 
É por aí mesmo?
Ivan Barasnevicius : Embora tenhamos as mais diversas influências, pois tanto eu quanto o Chenta ouvimos uma grande diversidade de estilos, é fato que o Jazz está na essência da nossa maneira de enxergar a composição musical.
Rodrigo Chenta : Apesar do álbum não ser especificamente de Jazz, a influência é notória. Quando eu citei um pedaço da melodia da música Fooprints do Wayne Shorter, isso não foi pré-programado. Saiu naturalmente na hora da gravação. Essa é uma prática bastante comum e que envolve o elemento lúdico durante uma improvisação musical neste formato. Acredito que quanto mais inesperada for a citação, mais engraçada e divertida ela fica. Tenho o hábito de fazer isso no meio dos meus solos enquanto os construo no momento da execução.
Das músicas citadas, acredito que a “Novos Caminhos” apresenta na parte das improvisações a maior liberdade, e principalmente para quem acompanha o solista. Não existe uma harmonia com acordes pré-estabelecidos que precisam serem tocados à risca. Trabalhamos com três modos e temos a liberdade te executar qualquer acorde que se insira no modo em questão. Acontece que às vezes usamos elementos como o cromatismo e reharmonizações dentro do que já era meio solto, ai o resultado fica muito interessante e prazeroso. No entanto, mesmo com tudo isso, ainda não é 100% solto, pois temos como regra do jogo de improvisação atuar nas rítmicas e modos propostos.

Tem groove em "Tema pra Pietra".
Ivan Barasnevicius : Tem sim, com certeza! Com relação ao acompanhamento, a ideia, nesta peça, foi misturar uma parte A mais “funkeada” com uma levada de violão baseada em coisas que escuto há muito tempo do “Clube da Esquina” na parte B, e que são parte bastante importante na minha formação como músico. Estruturalmente, procurei construir algo de certa forma rústico na parte B, sem me preocupar muito com a quadratura, a exemplo de muitas melodias do citado grupo.
Rodrigo Chenta : Eu gosto muito de tocar esta música. Adoro groove, funk e coisas swingadas. A parte ‘B’ desta composição é bastante melodiosa e tem um acompanhamento que distoa muito do restante da música. Isso é bom e cria interesse musical.

E o lado mais intimista do duo também se faz presente na Bossa "Minha Neném" e na Balada "Inocência".
Ivan Barasnevicius : Quando já estávamos finalizando o repertório para o CD, começamos a sentir falta de uma balada. Sempre gostei muito de explorar o estilo, principalmente por considerar uma certa dificuldade tocar coisas mais “amenas”. O Rodrigo então chegou com “Inocência” e ela entrou para o repertório oficial imediatamente. Ao longo tanto da exposição quanto dos improvisos, buscamos alternativas para que o acompanhamento pudesse gerar interesse: Na exposição do tema, o Rodrigo buscou utilizar acordes de uma forma bem inusitada: sem utilizar as cordas ré e sol. Na re-exposição, procurei utilizar na base diversas inversões e digitações na região mais aguda do braço, utilizando principalmente as quatro cordas mais agudas, em contraponto à melodia que se desenha na região mais grave do instrumento. Nos solos, ambos buscamos economizar nas notas, respirando mais e tocando menos. Fizemos algumas versões para “Inocência”, sendo que dois “takes” entraram para o disco.
Sobre “Minha neném”, vale lembrar que ao longo do tempo testamos várias ideias de arranjo, algumas com a base cheia de convenções, acompanhando os acentos da melodia, ou então com a levada do samba-jazz para a base dos solos. Mas no final das contas, o arranjo final ficou bem intimista, embora nos solos podemos observar uma grande movimentação melódica, o que já não acontece em “Inocência”.
Rodrigo Chenta : A composição “Minha Neném” é uma Bossa Nova de 2005, feita para a minha esposa pouco tempo após conhecê-la. Procurei trabalhar as tensões na melodia do tema. A composição “Inocência” é obra de 2003, onde me inspirei na ideia da inocência das pessoas para escrevê-la. Nesta, procurei utilizar no tema aberturas espaçadas e não usuais para os acordes na guitarra. Estas duas composições me soam bastante melancólicas e reflexivas.


Cada um guardou seu espaço para interpretações solo, em "Sente o Sete" e "Contrastes", esta em que a melodia do tema título faz o epílogo do tema. Ambas são improvisações livres?
Ivan Barasnevicius :  Compus esta música quando estava terminando a minha graduação na FAAM, há mais de dez anos, mas nunca havia realizado uma gravação oficial. Toquei esta peça em diversos formatos ao longo dos anos, como por exemplo o arranjo para a extinta Orquestra Popular Brasileira da FAAM, regida pelo guitarrista, compositor e professor Paulo Tiné e da qual participei como violonista entre 2003 e 2006, e também colaborando com alguns arranjos. Na época do “Ivan Barasnevicius Quarteto” fiz um outro arranjo para "Sente o sete", utilizando duas guitarras, baixo e bateria. Quando cogitamos a ideia de registrar uma peça solo cada em “Novos Caminhos”, resolvi resgatar este arranjo no formato de “Chord Melody”, que já tocava há tempos, sendo que este tipo de abordagem - somente a guitarra elétrica totalmente solo, sem nenhum overdub ou maquiagem - é uma linguagem que sempre me interessou bastante. Um dos discos mais referenciais para a minha formação e que possui esta proposta é o “Virtuoso #4”, de Joe Pass.
Rodrigo Chenta : A composição “Contrastes” é uma improvisação e a criei no momento da gravação. Minha maior inspiração para este tipo de sonoridade vem do guitarrista Derek Bailey. No final dela fiz uma citação harmônica do acompanhamento da música “Novos Caminhos”. Acredito que esta peça solo não seria totalmente enquadrada na expressão “improvisação livre”, mas alguns trechos dela poderiam. Muito menos na expressão “improvisação não idiomática” (bastante utilizada), já que existem alguns idiomas nesta música. Nela existe muita liberdade quanto à tonalidade, textura, andamento, forma, rítmica, técnica extendida, etc. Estudo e escuto este tipo de música já há alguns anos. Tenho, pelo menos atualmente, um pensamento que me soa bastante verdadeiro: A improvisação não idiomática é um novo idioma.
Eu já havia trabalhado bastante este tipo de sonoridade em vários concertos com o violeiro César Petená, quando atuávamos em duo, com um repertório de músicas brasileiras autorais que proporcionassem a interação do tradicional/folclórico/regional com o contemporâneo/experimental.

O registro das guitarras neste trabalho traz uma sonoridade muito limpa. 
Que equipamentos usaram nesta sessão?
Ivan Barasnevicius : Usei apenas uma guitarra acústica em todo disco com cordas lisas 0.11. Em uma das sessões, utilizei um amplificador totalmente valvulado, em outra um amplificador transistorizado. Utilizamos um microfone condensador na frente do amplificador e outro na frente da guitarra, para pegar um pouco do som natural das palhetadas, embora a parte mais relevante dessa sonoridade venha diretamente do amplificador, em total contraponto à sonoridade da guitarra do Rodrigo. Deve-se comentar também a atuação do André Ferraz, que certamente buscou as melhores alternativas para a captação do disco. A sua pesquisa e dedicação para conseguir os melhores timbres para os instrumentos certamente contribuíram bastante para a qualidade final do disco. Dessa forma, acredito que conseguimos uma sonoridade bastante própria para o duo, já que usamos, durante a gravação formas de captação dos instrumentos bastante diversas, além das já características diferentes que temos na elaboração das composições e improvisos. Assim, apesar de serem duas guitarras elétricas, podem ser observados elementos de contraste entre as sonoridades. Em grande parte dos duos de guitarra ou violão, normalmente os timbres não possuem muita diferença, talvez como uma forma de equilibrar e somar as sonoridades. Em nosso caso, buscamos no contraste timbrístico, uma de nossas principais características.
Rodrigo Chenta : Usei uma guitarra acústica de corpo com média espessura e com o som principalmente natural da mesma. Uso cordas encapadas e lisas de espessura 0.13. Para soar bastante diferente do som do Ivan, usei 3 microfones condensadores na frente da minha guitarra para ter uma sonoridade muito pura do instrumento e utilizando a técnica de Midi Side. Basicamente 10% do meu timbre veio da união do som de linha mais amplificador (semivalvulado e transistor dependendo da música) microfonado. Gravar com o André Ferraz ajudou bastante, pois ele captou exatamente o som duro que eu queria. Uma das características de se gravar assim é que é possível em alguns solos ouvir a minha respiração e alguns tapas na guitarra do Ivan. Acredito que isso torna o som mais vivo e humano e dependendo da sala e equipamento que se utilize, é possível ter a sensação de estar exatamente no local de gravação ao escutar o CD.

Obrigado Ivan e Rodrigo, e Sucesso !


rodrigochenta.com
ivanbarasnevicius.com

ELAS : MAHALIA BARNES

03 março, 2015
A australiana Mahalia Barnes é uma das vozes emergentes que vai dar muito que falar. Tem no berço sua formação musical, é filha do grande vocalista Jimmy Barnes, a sua grande inspiração, e cresceu cercada de música. Desde cedo guarda uma paixão pelo Soul e R&B, não escondendo suas influências em Aretha Franklin, Stevie Wonder, Donny Hathaway e Otis Redding. Ainda menina, integrou o grupo "The Tin Lids", uma banda pop formada com seus irmãos Eliza-Jane, Elly-May and Jackie Barnes, e juntos gravaram 4 álbuns. Em 2012 participou da primeira edição do The Voice australiano, interpretando a canção "Proud Mary", clássico do Credende.
Nessa época, Mahalia já tinha 2 álbuns gravados como líder - em 2008 lançou "The Soul Mates Volume 1", que mais tarde, em 2011, ganhou um segundo volume. Já tinha bastante bagagem de palco, afinal abria as turnês da cantora Mavis Staples e começou a ganhar evidência nos festivais por onde passava.

Kevin Shirley, o genial produtor de Joe Bonamassa, resolveu investir na produção do novo álbum de Mahalia - "Ooh Yea - The Betty Davis Songbook", uma homenagem a Betty Davis. A idéia deste projeto surgiu quando Mahalia cantou alguns temas de Betty Davis para Kevin enquanto participava das sessões de gravação do álbum triplo de seu pai "Hindsight" (2014). E onde Kevin põe a mão, é certeza de trabalho de muita qualidade.

Betty Davis foi uma cantora negra americana do movimento Funk e R&B nos anos 70, esposa de Miles Davis no final dos anos 60, que a colocou na capa de seu álbum 'Files of Killimanjaro" (1968) e dedicou a música "Mademoiselle Mabry" a ela. Foi Betty Davis que introduziu Miles na música de Hendrix e na música Black que emergia naquela época, o que, de fato, acabou levando Miles em outras direções.

Em breves palavras no encarte do álbum, Mahalia ser fã de Betty há muito tempo; e lembra da primeira vez que a ouviu e como ela chamou sua atenção. Para ela, Betty é selvagem, livre, intensa, poderosa e sexy.


"Ooh Yea - The Betty Davis Songbook" traz 12 composições que foram gravadas por Betty Davis, distribuídas em seus álbuns "Betty Davis" (1973), "They Say Im Different" (1974) e "Nasty Gal" (1975).
O álbum traz Joe Bonamassa como convidado especial, e Mahalia Barnes conta com sua banda base intitulada The Soul Mates, formada Ben Rodgers no baixo, Franco Raggatt na guitarra, Lachlan Doley e Clayton Doley nos teclados e hammond e Keys Dave Hibbard na bateria; traz três backing vocals - Darren Percival, Jade MacRae, Juanita Tippinse, todas australianas; e seu pai Jimmy Barnes também participa como vocalista convidado.


mahaliabarnes.com/

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UMA SUPER JAM COM JOHN SCOFIELD E GOV'T MULE

19 fevereiro, 2015
O termo "jam" é derivado do Jazz, cujo acrônimo significa Jazz After Midnight, um show ou reunião de músicos de modo informal; assim afirma o historiador Mario Jorge Jacques em seu livro Glossário do Jazz.
A palavra ganhou espaço também na fusão do Jazz com o Rock, e suas derivações como "jam bands", se formaram ao longo dos últimos anos, com destaque para o grupo Gov't Mule, que vem se destacando como um dos mais atuantes, liderado pelo guitarrista Warren Haynes.
Haynes é um músico e guitarrista muito ativo. Em paralelo ao trabalho com o Gov't Mule, foi integrante da última formação do Allman Brothers Band, tem sua própria carreira solo e é o idealizador do Mountain Jam Festival que, anualmente, desde 2005, promove um super encontro de bandas em Hunter Mountain, New York.


A  novidade aqui é o encontro histórico do guitarrista John Scofield com o grupo Gov't Mule, registrado no álbum Sco-Mule, um concerto realizado em setembro de 1999 em Atlanta, Georgia, que também contou com o baixista Allen Wood, o tecladista Dan Matrazzo e o baterista Mat Abts.
Na época, o Gov't Mule ainda era um grupo muito jovem, só 5 anos de estrada, e Haynes tinha Scofield como um dos seus guitarristas favoritos, para ele um dos heróis da era pós-McLaughlin, como afirma no encarte do álbum.
O primeiro encontro de Haynes com Scofield deu-se na cidade de New York, no clube Sweet Basil, quase uma década antes, quando Haynes chegou atrasado para assistir ao segundo set de uma apresentação de Scofield, plantando ali uma semente para algum trabalho juntos no futuro. E Scofield ficou um tanto surpreso pois não sabia quem era aquele cara cabeludo de estilo Easy Rider, afinal não estava muito antenado no que rolava no cenário do Blues-Rock naquele momento; mas alguém o informou que Haynes estava revivendo o Allman Brother Band, e Scofield não titubeou - "Então o cara é bom !".
Scofield havia lançado um dos seus mais populares álbuns, "A Go Go" (1998), um registro cheio de fraseados groove e que contou com a participação do organista John Medeski.


Idealizando esta sessão na época, Haynes e Scofield falaram-se por telefone e não tinham um set list muito bem definido, e tiveram somente um único ensaio no dia anterior do show. Haynes hoje lembra que o repertório se desenvolveu ao longo da passagem de som e do próprio show, o que, para ele, "torna-se mais divertido".
Sco-Mule é um álbum duplo com 11 faixas em uma sessão incendiária, que ainda contou com 3 faixas bônus distribuídas em formato digital. No repertório, além de composições de Scofield e Haynes, aparecem clássicos como "Tom Thumb" de Wayne Shorter; as super funkeadas "Doing It To Death" e "Pass the Peas", imortalizadas pelos J.B.Horns de James Brown; a eterna "Afro Blue" de Coltrane, e entre as faixas bônus a sempre contagiante "Freeway Jam" de Jeff Beck.


mule.net/
www.johnscofield.com/

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RUMO AO SUL COM A IGOR PRADO BAND

09 fevereiro, 2015
São 15 anos da Igor Prado Band fazendo música da melhor qualidade, um patrimônio musical, a nossa voz do Blues de maior expressão e reconhecimento no exterior sob a liderança do guitarrista Igor Prado, sempre ao lado de seu irmão e baterista Yuri Prado que, juntos, formaram inicialmente a Prado Blues Band onde mais tarde juntou-se o baixista Rodrigo Mantovani, a base da formação atual.

Celebrando esta jornada musical, a Igor Prado Band apresenta mais um excelente trabalho - "Way Down South", lançamento pela Delta Groove Music, em que recebe convidados muito especiais - as vozes e as harmõnicas de Kim Wilson, Lynwood Slim, Mud Morganfield, Sugaray Rayford, J.J.Jackson, Rod Piazza, Mitch Kashmar, Wallace Coleman, Randy Chortkoff e Ivan Marcio; as guitarras de Junior Watson e Monster Mike Welch; o hammond de Raphael Wressnig; além da banda base que ainda contou com os pianos de Ari Borger e Donny Nichilo e o sax tenor e barítono de Denilson Martins.


O álbum é dedicado a Lynwood Slim, que faleceu em agosto de 2014, e com quem Igor Prado gravou o álbum "Brazilian Kicks" em 2010. Lynwood Slim está presente em 2 faixas de Way Down South - "You Better Believe It" e "Baby Won´t You Jump with Me", esta que foi seu último registro em estúdio.
A arte de capa é de Yuri Prado, ilustrando uma highway americana com uma placa indicando a distância para a cidade de São Paulo; e a highway nomeada como LWDSLIM 61, obviamente uma homenagem a Lynwood Slim.

Em entrevista para o site Blues Junction, Igor esclarece que a arte da capa conta muito da história do grupo, afinal estão muito longe de onde esta música vem, e a highway os conecta a todos os grandes músicos e a todos os fãs pela América. Igor afirma ainda que Lynwood foi o responsável por apresentá-lo a todos os músicos convidados no álbum e foi quem o levou pela primeira vez aos EUA.

O repertório de "Way Down South" é um passeio pelas raízes do Blues do Texas, Chicago e Mississipi em 13 composições, e as sessões foram gravadas nos intervalos das turnês entre 2012 e 2014.
Assim é o álbum, faixa a faixa -
"Matchbox", um clássico de Ike Turner dos anos 50, de quem Igor carrega muita influência, e a versão original do tema traz Ike e Otis Rush, outro mestre e canhoto que toca ao contrário exatamente como Igor - Sugaray Rayford e Mike Welsh são os convidados;
"Ride with Me Baby" (John Hunter), aqui uma clara influência de Jimmie Vaughan do jeito q ele tocava na década de 80 - Kim Wilson faz as honras;
"She's Got It", música de Muddy Waters, aqui gravada com seu filho Mud em que Igor colocou uma guitarra bem Chicago dos anos 50, um solo de slide a la Muddy também, um amp tweed e uma goldtop, aqui só cabo, amp e guitarra - presentes na faixa Mud Morganfield e Ivan Marcio;
"Baby Won´t You Jump with Me" (Lowell Fulson), com Igor e Junior Watson trocando vários licks de swing na onda de Bill Jennings e Tiny Grimes - Lynwood Slim também participa da faixa;
"What Have I Done" (Jimmy Rogers), aqui com uma guitarra bem distorcida a la Willie Johnson, que foi o primeiro cara a gravar uma guitarra distorcida no começo dos anos 50, em Memphis, e aqui Igor usando um amp fender vintage de 8W e sua Silvertone H63 1959 - Mitch Kasmar é o convidado;
"Shake & Fingerpop" (Junior Walker), em uma versão totalmente diferente, sem sax e com as guitarras com bastante influência de Buddy Guy dos anos 60 - Raphael Wressnig pilota o hammond;
"Talk To Me", música de Elmore James gravada com uma pegada mais West Coast Blues e um timbre de guitarra que lembra uma pouco o guitarrista Hollywood Fats, que tocou com Rod Piazza nos anos 80 - e Rod participa da faixa com sua esposa Honey ao piano;
"If You Ever Need Me" é uma música do obscuro guitarrista da Louisiana Lightnin Slim - Kim Wilson nos vocais;
"You Got What It Takes" é do soulman Joe Tex e traz uma mistura de Texas Guitar, Soul e R&B - J.J. Jackson é o convidado;
"Big Mama Blues" (Sugaray Rayford) é um Slow Blues no estilo Muddy dos anos 80 com a presença de Monster Mike Welch nas rítmicas e Sugaray nos vocais;
"You Better Believe It" (Paul Gayten) traz uma onda de guitarra mais Memphis dos anos 50 também - Lynwood Slim participa da faixa;
"Rooster Blues", outra música do Lightnin Slim da Louisiana, e um solo que remete a outra grande influência de Igor, Willie Johnson - o convidado aqui é Wallace Coleman;
"Trying To Do Right" é uma faixa acústica gravada no quarto em duo com o cantor e gaitista de Chicago Wallace Coleman, uma gravação sem pretensão de entrar no disco e feita em um momento em que estava tocando com um violão "praticamente de brinquedo", diverte-se Igor.

Obrigatório !
www.igorpradoband.com



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