MUITO PRAZER, KEILA ABEID

14 setembro, 2012
A idéia de gravar um disco sempre esteve nos planos da cantora Keila Abeid.
Até que um dia, numa mesa de bar, disse para o pianista Fabio Leandro que aquele era o momento, mas não sabia como fazer pois não tinha recursos para financiar o projeto. Fabio acreditou na ideia, assim como o violonista Vinicius Gomes e o baterista Ricardo Berti; até que o contrabaixista Rogerio Botter Maio chegou e disse - "se precisar de alguma coisa com o disco, pode contar comigo".
Assim foi a história, e assim se formou o quarteto que a acompanha em seu disco de estreia, intitulado
Muito Prazer.

Mais que um sonho, a perseverança, a dedicação e o empreendedorismo de Keila tornou possível esta realização. Sem recursos para financiar a produção do disco, inscreveu o projeto no Catarse, uma rede de financiamento coletivo, baseada no conceito de Crownfunding, e investiu nas redes sociais mobilizando uma rede de amigos, e consequentemente de amigos de amigos, espalhando de forma viral a necessidade de contribuição financeira para realização do projeto, com um prazo específico para arrecadação.
A idéia de Crownfunding é que ao final do prazo de captação, e não conseguindo o valor pretendido, ninguém sai perdendo e todos os recursos investidos são devolvidos aos doadores.
E Keila alcançou seu objetivo e tornou seu sonho realidade.

Muito Prazer revela a sensibilidade da voz dessa moça de São Bernardo do Campo, São Paulo, e que neste disco de estreia traduz a musica brasileira e a boa bossa colocando uma roupagem jazzy. E trouxe um time da pesada da nossa música instrumental para acompanhá-la, com destaque para o excelente pianista Fabio Leandro e o contrabaixo de Botter Maio, ambos responsáveis pelos arranjos junto com o violonista e guitarrista Vinicius Gomes, o baterista Ricardo Berti e as participações mais que especiais de Conrado Paulino, Lea Freia, Jota P, entre outros.

E ela nos conta um pouco sobre esse disco de estreia.

Gustavo Cunha : Keila Abeid. Muito Prazer! Conte-nos um pouco sobre sua formação musical.
Keila Abeid :
 Desde pequena o contato com a música sempre foi muito grande. Minha avó tocava piano, meu pai e meu tio são músicos e sempre tocaram na igreja, que foi onde eu comecei a cantar aos seis anos de idade. Minha primeira apresentação foi em uma Feira das Nações, evento que reunia várias igrejas realizado no Parque da Agua Funda. Minha mãe, que tocava piano, começou a me ensinar as primeiras notas musicais e a partir daí fui estudando sozinha e na adolescência fui estudar com mais seriedade, começando com canto e piano até que fui pra Fundação das Artes de São Caetano do Sul, onde tive um conhecimento mais fundo da teoria e estudei canto erudito. Mas me encontrei mesmo na ULM (Universidade Livre de Música Tom Jobim), pois lá tive um contato maior com a música brasileira, com o jazz e estudei canto popular, harmonia, teoria. Conheci músicos incríveis e, claro, foi lá que conheci os meninos que trabalham comigo hoje.

GC : "Muito Prazer" torna-se mais que especial pois foi financiado por meio de Crownfunding, prática que vem sendo muito explorada no mercado artístico. Como foi administrar essa ansiedade?
KA :  Eu já me apresentava com o quarteto há cinco anos, e o nosso som já tinha uma identidade. Então eu senti a necessidade de registrar isso, de ter o primeiro "filho" desse casamento com o quarteto. Quando eu joguei a ideia pros meninos eu realmente não tinha condições nenhuma ($$) de realizar, mas fechei os olhos e me joguei. Os meninos compraram a ideia, eu dei muita aula, mas muita mesmo, e abdiquei de todo e qualquer gasto e por 3 anos foi tudo direcionado pro disco. No final do processo, eu precisa bancar o que restava tudo de uma vez, e daí só com as aulas eu não dei conta. Foi aí que entrou o Catarse.me. Eu já conhecia o site, por causa do Movimento Elefantes, conversei com uns amigos e resolvi arriscar. E foi muito legal, porque em 60 dias alcançamos o valor que faltava e muita gente acabou conhecendo o trabalho por causa do Catarse. O apoio veio de amigos, fãs, familiares e também de algumas pessoas que a gente nem conhecia até então. O pessoal no facebook se mobilizou divulgando, compartilhando e deu tudo muito certo.


GC : E um super grupo acompanha voce nesse trabalho, alem de convidados muito especiais.
KA : Os músicos são realmente um presente de Deus. Eu, o Fábio Leandro, o Vinícius Gomes e o Ricardo Berti, somos amigos de escola, estudamos juntos, começamos a fazer o som juntos e agora estamos aí. Cada um deles tem outros trabalhos na música e todos são super bem sucedidos, e é uma alegria dizer que começamos juntos. A primeira música que gravamos juntos foi O Cantador, para um CD demo, e o Vinícius escreveu o arranjo. No disco, além de tocar violão e guitarra, ele também entrou como arranjador.
Quando eu comecei com o projeto, eu sabia que não ia dar conta sozinha, e o Fábio Leandro topou fazer a direção musical e produção do trabalho. Então, além de tocar e fazer os arranjos, ele participou de todo e cada detalhe do processo.
O Rogério Botter Maio entrou pro quarteto um pouco depois. Eu o conheci quando ele foi tocar com uma colega nossa e fui pesquisar o trabalho dele na internet. Eu fiquei encantada com suas composições e o escrevi. Na época ele estava lançando um trabalho dele com canções e me convidou para participar do seu show. Depois de um tempo conversando, pedi para gravar algumas de suas música no meu primeiro disco. Numa conversa de bar, alguns dias depois, ele me disse que se eu precisasse de mais alguma coisa ele ficaria feliz em ajudar. Pronto, foi o suficiente. Pedi pra ele fazer os arranjos das músicas e tocar na gravação. Então não teve jeito, ele acabou participando do disco inteiro e hoje faz parte do quarteto.
E o disco teve participações tão especiais que ainda nem acredito.
Gravamos no estúdio do Itamar Collaço, que foi meu professor em tempos de ULM. Me deu uma super força para a gravação do disco e a participação dele em Balanço Zona Sul é um presentão!
Ainda quando eu era aluna de canto na ULM, eu conheci o Conrado Paulino e disse que quando eu gravasse meu disco queria gravar uma de suas composições, e ele me mostrou Eu Não Sabia, que na época não tinha letra e foi gravada pela Jane Duboc em seu disco. Mais tarde a música ganhou letra do Lysias Enio e eu ganhei a música, o arranjo e a participação do Conrado no disco. Outros amigos queridos que também me deram uma super força e tiveram participações muito importantes foram o Carlinhos Noronha, a Gabriela Machado e o Jota P. A Lea Freire, poxa, que difícil falar da Lea Freire. Tanto eu como os meninos somos fãs e a admiramos demais. Eu comecei a estudar flauta transversal e ela sempre me deu apoio. No final das gravações, encorajada pelo Fábio, eu, na cara de pau, pedi pra ela participar do disco. E ela aceitou !!
Eu estou muito feliz com todas essas participações.

GC : "Eu canto pra aqueles que sonham e ainda acreditam nas coisas do coração", diz a letra da música Coisas do Coração. Assim se define o sentimento na música de Keila Abeid?
KA : Coisas do coração foi a primeira música que o disco ganhou. Na verdade, o João Linhares, compositor da música, me deu antes mesmo da gente começar a pensar em gravar. E quando a ouvi pela primeira vez me apaixonei pela doçura da letra. Acho que não tem como fazer arte sem acreditar nas coisas do coração.
Cada música do disco tem uma história. Espinhos de Rosa, da Agna Maria, é da época da ULM. Estávamos no pátio, ela estava mostrando suas composições e quando ouvi perguntei se eu podia gravar no meu primeiro disco; levou oito anos, mas ela está aí.
Quando  começou aquela moda do myspace, a gente procurava músicos de toda a parte do mundo, o que é muito legal. Foi quando o Henrik Mossberg visitou a minha página e nos conhecemos via internet, conheci o trabalho dele e ele me mostrou September Weekends, daí eu também quis que fizesse parte do disco.
Outro caso de internet é a parceira do Fábio Leandro com o Leonardo Bava. O Leonardo é de Salvador, viu o Fábio na TV tocando com o Filó Machado, o encontrou pela internet e mandou algumas letras, daí nasceu Canção de um Tempo Só.

GC : Seu disco é muito recheado de Bossa Nova. Voce interpreta Balanço Zona Sul, uma composição do Tito Madi, ele que, inclusive, tem um parentesco com voce. Essa influência da bossa nova vem de berço?
KA : Eu visitei o Rio de Janeiro poucas vezes, mas não tem como não se encantar com aquela maravilha toda, em cada lugar que a gente passa tem uma trilha sonora diferente. Uma das visitas ao Rio foi justamente para passar um tempo com o Tito, que é primo da minha avó em primeiro grau. Passei dias maravilhosos ouvindo-o contar histórias da minha avó que eu nem conhecia. Ele teve muito mais contato com meus avós e na verdade só fomos nos conhecer de verdade há uns seis anos, e ele me recebeu de braços abertos. Com certeza ele é uma influência muito grande pra mim.
O meu contato com a bossa nova foi mesmo na escola. Em casa, tocava-se muita música de igreja, não a que hoje é classificada como música gospel, mas os hinos tradicionais da igreja batista, música brasileira de todo tipo, mas não somente a bossa nova. Foi pelos estudos que fui  viajando pelo jazz, bossa e caí fundo na música brasileira.

GC : Poucas cantoras aparecem investindo na bossa nova, no samba jazz e mesmo explorando o contexto instrumental nos temas. Voce foi por esse caminho. É dificil a divulgação e busca de palcos para este tipo de trabalho?
KA : Eu sempre ouvi música instrumental, sempre estudei com instrumentistas e me agrada muito explorar isso no canto. A gente pensa na música como um todo e a ideia não é fazer a música contribuir para que a voz apareça, e sim que a voz contribua para a música acontecer, assim como todos os instrumentos. Tudo caminha junto, e isso que é legal. Quanto a divulgação, não é a coisa mais fácil do mundo, mas existe espaço sim, vamos trabalhando e a gente chega lá.

GC : Vozes que te inspiram.
KA : Eu gosto de escutar quase tudo, gosto de canção assim como adoro música instrumental.
Adoro a Tânia Maria, Leny Andrade, Joyce, o extraordinário Filó Machado. Sou muito fã também do Wilson Simonal, Elis Regina, Milton Nascimento. Aprendi muito com a música do Ivan Lins e sou grande fã. Tem tantos, ficaria aqui escrevendo um tempão.

Obrigado Keila Abeid, e Sucesso !

Voce encontra o album Muito Prazer no iTunes e na Livraria Cultura